Obituário | Carme Chacón

Espanha se despede de Carme Chacón, a ministra que quebrou tabus machistas

Socialista, que morreu no domingo aos 46 anos, foi a primeira mulher ministra da Defesa do país

A então ministra de Defesa Carme Chacón passa em revista as tropas espanholas no Afeganistão, em abril de 2008.
A então ministra de Defesa Carme Chacón passa em revista as tropas espanholas no Afeganistão, em abril de 2008.Juan Carlos Ferrera (Ministério de Defesa)

Carme Chacón, a primeira mulher ministra da Defesa da Espanha e a mulher que esteve mais próxima de liderar o Partido Socialista da Espanha (PSOE), foi encontrada morta na tarde de domingo em sua casa em Madri. A política socialista e catalã, de 46 anos, sofria de uma cardiopatia congênita – em uma entrevista, revelou que seu coração mantinha apenas 35 batimentos por minuto. Se em 2008 quebrou os padrões estabelecidos ao obter o comando do Exército, em 2012 quase obteve a secretaria-geral do PSOE. Seu adversário nessa ocasião, Alfredo Pérez Rubalcaba, a venceu por apenas 22 votos. Em 2016, se afastou da primeira linha política, ao deixar seu posto como deputada por Barcelona.

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Sua imagem passando em revista as tropas do Afeganistão, quando estava grávida de sete meses, se tornou um dos ícones do Governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Era abril de 2008 e, cinco dias antes, Chacón (Esplugues de Llobregat , Barcelona, 1971) tinha sido nomeada para o ministério da Defesa, um cargo tradicionalmente masculino. Tinha 37 anos. “Grávida ou não, para mim era claro que minha primeira obrigação era visitar quem é capaz de colocar sua vida em risco por valores superiores: a liberdade dos outros. Uma grávida não é uma doente. Não há dúvidas de que é mais difícil trabalhar num caixa de supermercado e ficar o dia todo em pé. Queria expressar a gratidão da sociedade a quem se arrisca para que haja paz em regiões de conflito”, explicou ao EL PAÍS sobre a decisão.

Zapatero, primeiro-ministro entre 2004 e 2011, foi um de seus padrinhos políticos. Após a vitória eleitoral nas eleições gerais de 2004, ele fez o primeiro Governo com paridade de gênero da Espanha – anos depois, havia mais mulheres que homens em seu Governo – e nomeou Chacón como vice-presidenta do Congresso. Ela continuou com sua carreira meteórica e três anos depois subiu mais um degrau, quando se tornou ministra da Habitação. Ficou no cargo até mudar de ministério e assumir a Defesa, em 2008, após mais uma vitória de Zapatero nas eleições. Nesta pasta, coordenou a retirada das tropas espanholas de Kosovo – o que lhe valeu uma reprimenda da OTAN – e enfrentou os sequestros de barcos pesqueiros de atum bascos por piratas somalis.

Em janeiro de 2009, no tradicional desfile da Páscoa Militar – no qual o rei da Espanha recebe o primeiro-ministro e lideranças militares –, Chacón rompeu com mais uma tradição. Além de ser primeira mulher a discursar diante do Rei como ministra da Defesa, ela decidiu comparecer ao ato vestindo calças e blazer. Até então, as mulheres usavam tradicionais vestidos longos.

Nessa ocasião, como nas anteriores, Chacón despertou a ira do conservadorismo espanhol. "São os mesmos que criticaram o fato de um Governo ter mais mulheres que homens, de uma mulher ser ministra de Defesa e que, além disso, estivesse grávida", chegou a declarar.

A filha de Baltasar Chacón, funcionário do corpo de bombeiros de Barcelona, e Esther Piqueras, advogada, sofria de uma cardiopatia congênita, e por isso, desde criança, era advertida de que deveria levar uma vida tranquila. Desobedeceu muitas vezes. Em teoria, como explicou em uma entrevista a La Vanguardia, não podia ser mãe devido a esse problema de saúde. Seu filho se chama Miquel e tem agora 8 anos.

Advogada de formação, se afiliou às Juventudes Socialistas com apenas 18 anos. Combinou seus estudos com um trabalho de atendente no departamento de saias e blusas de um shopping em Barcelona. Sua carreira política ascendeu após um período de aprendizagem e experiência como vereadora na Prefeitura de Esplugues de Llobregat (1999-2004). Sua eleição como deputada por Barcelona em 2000 foi o início de cinco mandatos no Congresso, até 2016.

Dois anos antes, quando teve mais uma oportunidade de liderar o partido e tirar a socialismo espanhol da crise em que mergulhou a partir de 2011, chegou a dizer: “Nosso problema não é interno, mas de credibilidade social. Isso significa que se dizemos esquerda, temos de ser de esquerda; se dizemos primárias, temos de fazer primárias. Perdemos a conexão com a sociedade e só a recuperaremos se demonstrarmos um propósito sincero de correção de nossas políticas, se nos abrirmos e começarmos a ouvir”.

Em 20 de dezembro de 2015 Chacón encabeçou pela última vez a lista por Barcelona. Tinha sido deputada durante cinco mandatos e a relação com a seção catalã do PSOE tinha passado por altos e baixos. Em fevereiro de 2013, se afastou dos socialistas catalães que votaram apoiaram a proposta sobre o "direito de decidir" mediante referendo de independência acordado com o Governo espanhol. “Não posso apoiar essa resolução porque representa um projeto de ruptura da Catalunha com a Espanha”, explicou na época. A ex-ministra negou que a decisão tivesse a ver com suas aspirações pessoais. “O presente e o futuro de Carme Chacón é insignificante quando estamos falando da defesa de milhões de espanhóis e catalães que querem continuar juntos e é por isso que vou trabalhar: por uma Catalunha e uma Espanha irmanadas dentro da Europa”, disse.

Em abril de 2016, Chacón se recusou a ser novamente o número um nas listas por Barcelona,  somente dois meses antes das eleições gerais de 26 de junho. Ela se limitou a dizer que seus motivos eram “políticos”, sem entrar em detalhes. Optou por trabalhar no escritório de advocacia Ramón y Cajal Abogados, que conciliava com as aulas que dava em Miami.

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