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Os fantasmas do Planalto

Um país se constrói com investimento massivo em educação – e também com a diminuição da diferença entre ricos e pobres

Michel Temer discursa na Câmara Americana de Comércio Brasil - Estados Unidos.
Michel Temer discursa na Câmara Americana de Comércio Brasil - Estados Unidos.PAULO WHITAKER (REUTERS)
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A crise política e econômica, que se arrasta desde 2014, agravada pela incompetência e insensibilidade do presidente não eleito, Michel Temer, vem solapando com inacreditável rapidez o pequeno, mas essencial avanço conquistado pelas populações mais carentes ao longo da primeira década do século XXI. Segundo o estudo do Banco Mundial, “Prosperidade compartilhada e erradicação da pobreza na América Latina e Caribe”, entre 2001 e 2013 o percentual da população brasileira vivendo na miséria caiu de 10% para 4%. E isso, devido ao crescimento econômico, às políticas de transferência de renda e ao aumento do emprego formal.

Ao ufanismo irrealista da era Lula da Silva seguiu-se a tragédia anunciada do segundo governo Dilma Rousseff, marcado pela inapetência administrativa e inabilidade nas negociações com o Congresso. O resultado foi o golpe perpetrado por políticos corruptos, secundados por um Judiciário comprometido e assentados em movimentos de rua que, patrocinados por partidos de oposição, defendiam (e defendem) somente a manutenção dos privilégios da nossa elite. Em meio à turbulência, entre 2014 e 2016, a renda dos brasileiros caiu 9,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O cálculo leva em consideração a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) – crescimento positivo de 0,5% em 2014 e negativo de 3,8% e 3,6% em 2015 e 2016, respectivamente – e o aumento da população, de 0,9% ao ano, em média.

O recente escândalo da “carne podre” – que revela que a ganância e a corrupção por aqui não têm limites – pode ser um fator a mais para prolongar a agonia da recessão. A venda de carnes para o exterior representa sozinha 7,5% do total das exportações – atrás apenas do minério de ferro e da soja – e, dependendo da reação internacional às notícias sobre a qualidade do produto nacional, poderá haver grande impacto no índice de desemprego (que já se encontra em 12,6% da população economicamente ativa) e no crescimento do PIB (estimado em pífios 0,49% para este ano). Um desastre, como afirmou o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, caso os importadores suspendam a compra de carne brasileira.

A recessão tem sempre, entre suas vítimas preferenciais, os pobres. E, no meio deles, as crianças são as que mais sofrem. Segundo o estudo da Fundação Abrinq, “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil”, cerca de 17 milhões de crianças de até 14 anos – o que equivale a 40,2% da população nessa faixa etária – pertencem a famílias de baixa renda, aquelas que sobrevivem com o equivalente a meio salário mínimo por mês (R$ 468,50 ou 152 dólares). O levantamento também mostra que em 2014 e 2015 foram registrados aumento de 11% no número de meninos e meninas de cinco a nove anos trabalhando. De 2005 a 2013, o trabalho infantil nesta faixa etária havia sido reduzido em 81%. A maioria das crianças, 85,5%, trabalha na área rural, ajudando a família.

Estudo publicado na revista norte-americana JAMA Pediatrics, divulgado aqui em EL PAÍS, indica que as estruturas cerebrais destinadas a processos críticos da aprendizagem são vulneráveis a circunstâncias ambientais da pobreza, como estresse, baixa estimulação e alimentação. Os autores do trabalho afirmam que os problemas decorrentes do desenvolvimento cerebral atípico explicariam até 20% da fraca performance escolar das crianças de famílias de baixa renda.

O Brasil vem piorando o desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), que avalia os conhecimentos de estudantes de 15 anos de 70 países ligados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em Ciências, caímos de 59º lugar no ranking em 2012 para 63º em 2016; em Leitura, descemos do 55º para 59º e, em Matemática, despencamos do 58º para 65º lugar. Um país se constrói com investimento massivo em educação – e também com a diminuição da diferença entre ricos e pobres.

O que talvez tenha assustado a família Temer no Palácio do Planalto, a ponto de eles voltarem a residir no Palácio do Jaburu, destinado à Vice-Presidência, sejam os fantasmas dos nossos sonhos mortos que vão se acumulando, geração após geração, na história deste país.

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