Mais de 56 milhões de cidadãos deixaram a pobreza na América Latina

A maioria ainda enfrenta o risco de voltar para a miséria em caso de crise ou adversidade

Mais de 56 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema na América Latina entre 2000 e 2012. Não se trata de uma propaganda a favor de algum governo, mas de um comunicado mundial de Desenvolvimento Humano 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), intitulado Sustentar o Progresso Humano: Reduzir Vulnerabilidades e Construir Resistências, divulgado em julho deste ano. A organização apresentou os dados da América Latina na última terça-feira em El Salvador e, apesar de reconhecer o progresso na região, chama a atenção sobre mais de um terço dos cidadãos, 199,7 milhões de pessoas, que ainda estão na corda bamba: enfrentam o risco de voltar para a pobreza no caso de ocorrer alguma crise grave ou adversidade. Uma proporção que, segundo o PNUD, é “extremamente alta”.

Eram 190 milhões de pobres em 2000; em 2012 o número baixou para 134 milhões

As Nações Unidas explicam que os cidadãos em pobreza extrema são os que recebem até nove reais por dia. Os latino-americanos nesta situação eram 189,9 milhões em 2000, 41,7% de uma população de 454,9 milhões de pessoas. Em 12 anos, 56,2 milhões deixaram esse grupo, de modo que o número de pobres baixou para 133,7 milhões em 2012, 25,3% dos 528,3 milhões de habitantes da região, frisa o PNUD.

Este progresso é resultado sobretudo do crescimento econômico da última década, mas o estudo revela que 38,3% se deveu também às políticas redistributivas. Os resultados variam: em países como o México ou El Salvador, a contribuição deste efeito superou os 80%, enquanto em países como a Venezuela ou a Colômbia mais de 80% da redução da pobreza se deve ao crescimento.

O documento mostra, além disso, que 81,6 milhões conseguiram ascender à classe média – cidadãos com renda per capita diária entre 10 e 112 reais –. Em 2000 eram 99,6 milhões de latino-americanos, 21,9% do total; em 2012 subiram para 181,2 milhões, 34,3%. Também aumentou, ainda que em menor proporção, o número de pessoas cuja renda per capita supera os 112 reais por dia: eram 8,9 milhões em 2000 (2%) e, em 2012, 13,7 milhões (2,6%).

O estudo insiste, entretanto, que na região não se conseguiu diminuir a população que se encontra vulnerável. Pelo contrário. Este grupo aumentou entre 2000 e 2012, ao passar de 156,5 milhões de habitantes, 34,4% do total, para 199,7 milhões, 37,8%. Ou seja, 43,1 milhões de cidadãos a mais. São pessoas que se encontram em um limbo social: são trabalhadores informais, migrantes, pessoas com incapacidade, minorias, pessoas de idade, mulheres, crianças, entre outros, segundo o PNUD. Já não se encontram na pobreza mas não conseguiram ascender à classe média.

Esta queda se deve ao crescimento econômico e o efeito redistributivo

Entre os quase 200 milhões de vulneráveis, a metade (98,5 milhões) tem trabalho. Entretanto, 54,4% deles são trabalhadores informais, 49,6% não tem acesso aos serviços médicos, 46,1% não tem direito à aposentadoria e 53,2% não tem contrato de trabalho. Além disso, existe a percepção de muitos latino-americanos de que o desenvolvimento da região – que em 2013 registrou um IDH de 0,740, considerado alto – está ameaçado pelos níveis cada vez maiores de homicídios e outros crimes violentos, segundo o PNUD.

“Se os países não reduzirem a vulnerabilidade e reforçarem a capacidade de recuperação diante de crises financeiras e desastres naturais, não seremos capazes de garantir, e muito menos de ampliar os avanços na região no âmbito social, econômico e ambiental”, frisou Jessica Faieta, diretora do PNUD para a América Latina e Caribe, na apresentação do comunicado.

Entre os 18 países estudados, que concentram 90% da população da América Latina e Caribe, o PNUD revela que a Bolívia foi o que mais conseguiu reduzir seus índices de pobreza, em 32,2%, mas também o que mais aumentou o tamanho de sua população vulnerável, em 16,9%. O Peru vem na sequência, ao reduzir a pobreza em 26,3%. Entretanto, o país andino conseguiu levar a maioria dos que eram pobres para a classe média, que aumentou em 19,1%, o principal aumento da região.

Mais de 80 milhões de cidadãos ascenderam à classe média

O estudo frisa também que a Argentina, Chile e Costa Rica conseguiram reduzir tanto a pobreza como a vulnerabilidade, o que implicou um aumento maior da classe média. Sobretudo na Argentina, aonde este grupo aumentou em 17,5%, o segundo melhor resultado da região depois do Peru.

No caminho oposto se encontram a Guatemala e República Dominicana, onde a pobreza aumentou em 6,8% e 0,7%, respectivamente. Também diminuiu o tamanho da classe média em 3,3% na Guatemala e 3,7% na República Dominicana. Este país preocupa ainda mais porque o índice de cidadãos vulneráveis também aumentou em 3,6%, enquanto na Guatemala baixou em 3,1%.

“Em todas as regiões do mundo o ritmo do progresso social e econômico é mais lento hoje do que na década passada. É muito claro que mais das mesmas políticas não vão nos render os mesmos resultados de antes”, acrescentou Faieta. “Mais do que nunca a região deve investir em proteção social universal, particularmente nas fases mais críticas da vida dos latino-americanos, como é o caso das crianças, jovens e idosos”, concluiu.

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