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Quando os filhos vivem pior que os pais

O maior desafio das democracias maduras depois dos anos de crise econômica é restaurar o contrato social entre gerações

Manifestação em Madri contra os cortes na educação, em outubro de 2011.
Manifestação em Madri contra os cortes na educação, em outubro de 2011.Kike Para

“Devemos dar a nossos filhos mais do que nós recebemos”, diz Jed Bartlet, o presidente dos Estados Unidos na mítica série de televisão Nos Bastidores do Poder, expressando assim sua ideia de progresso. Não foi o que aconteceu nos últimos anos. Pelo menos desde que começou a crise econômica, na metade de 2007, a ascensão social deixou de funcionar para os jovens.

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Um dia no início de outubro de 2016 a principal manchete do jornal britânico The Independent registrava o seguinte: “Os filhos da era Thatcher” [1979-1990] têm a metade da riqueza da geração anterior”. A informação se baseava em um estudo do Instituto de Estudos Fiscais. As cifras apresentadas correspondiam à sociedade britânica, mas a tendência pode ser extrapolada para a maior parte da Europa, incluindo a Espanha. A primeira síntese da notícia era mais expressiva ainda: “As pessoas nascidas na década de oitenta [os millennials] são a primeira geração desde o pós-guerra que chega aos 30 anos com renda menor que as nascidas na década anterior”.

Esta marcha-à-ré é própria das gerações mais jovens, embora não só delas. Amplos setores sociais sentem que muitas das vigas mestras nas quais suas vidas se apoiavam se encheram de fissuras: o emprego estável desaparece, a renda de toda uma vida trabalhando já não está garantida –e talvez não possam receber aposentadorias públicas ou privadas–, os pequenos negócios familiares correm o risco de quebrar, o valor das casas caiu, as qualificações profissionais pelas quais tanto se empenharam caducam...

Conclusão: reduziu-se a segurança vital em relação aos antecessores, a crença em que as gerações seguintes viverão melhor que a atual foi posta em xeque. O caso do Reino Unido é arrepiante: no momento em que chegam aos trinta e poucos anos, os nascidos nos anos oitenta –a mesma idade que os primeiros– possuem aproximadamente a metade da riqueza que tinham os nascidos uma década antes.

‘‘Abuelo, ¿cómo habéis consentido esto?’ (Vovô, com você concordou com isso?), de Joaquín Estefanía, será vendido a partir de 14 de março.
‘‘Abuelo, ¿cómo habéis consentido esto?’ (Vovô, com você concordou com isso?), de Joaquín Estefanía, será vendido a partir de 14 de março.

Isso significa que o futuro já está aqui. Já faz quase uma década –os anos das dificuldades econômicas– que vem sendo repetido, como papagaios, que na Europa, a zona mais afetada, os filhos viverão pior que seus antecessores, sem que se pare para refletir suficientemente o que isso significa. É o que dizem majoritariamente os cidadãos nas sondagens, mas pouco se fez para corrigir uma tendência de longo prazo. A partir de agora já não se trata somente de pesquisas: também há dados. Os retrocessos no bem-estar deveriam ser anomalias históricas, embora infelizmente sejam mais frequentes do que se desejaria (causados pelos conflitos bélicos ou econômicos, as fomes, os acidentes naturais, as políticas equivocadas; o que se denomina genericamente “crise”).

Nesta ocasião deverão transcorrer alguns anos mais para se corroborar se o ocorrido entre duas gerações consecutivas (a nossa e a de nossos filhos) é também outra anomalia histórica ou algo mais grave: que nossos netos também vivam pior que seus pais ou que nós. Acidente ou tendência? O historiador Niall Ferguson considera que “o maior desafio que as democracias maduras enfrentam é o de restaurar o contrato social entre gerações”.

As similitudes de agora com os anos prévios à  Segunda Guerra Mundial são muito potentes, mas as diferenças também são. O historiador britânico Richard J. Overy descreveu com maestria o viscoso ambiente de crise que se estendeu naquele tempo sombrio, a ampla variedade e a escala das revoltas e conflitos, e a aguda sensação de tantos cidadãos – ao contrário do período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial– de estarem vivendo em uma época de transição caótica e perigosa na qual o antigo não terminara de morrer e o novo não havia chegado de todo. As numerosas crises e explosões que se superpuseram provocaram uma verdadeira crise moral. “Na década de trinta”, escreve Overy, “as esperanças otimistas dos anos do pós-guerra sobre a restauração da paz social e da justiça internacional já tinham dado lugar a um sentimento generalizado de mal-estar profundo, um reconhecimento angustiante de que o mundo se achava em uma conjuntura crucial”.

O escritor George Orwell, em seu livro Um Pouco de Ar, Por Favor, de 1939, diz por meio de seu narrador: “Milhões de outros como eu têm a sensação de que o mundo vai mal. Podem sentir que as coisas desmoronam e rangem sob seus pés”. Não é muito familiar na atualidade essa sensação de mal-estar? A principal diferença entre a década de trinta do século passado e a atual é para o bem e para o mal, a globalização. Debate-se sua profundidade e a forma de conduzi-la, a sua deformidade quando avança muito mais no terreno da economia que no da política ou nos direitos humanos, que não tenha sido capaz de dominar o problema mundial mais urgente e perigoso para o conjunto da humanidade, as mudanças climáticas..., mas até mesmo os mais críticos dela estão conscientes de que uma volta à autarquia seria uma espécie de suicídio do mundo.

Quando chegaram aos 30 anos, os nascidos nos anos oitenta no Reino Unido tinham a metade da riqueza dos nascidos nos setenta

Também há outros instrumentos que não existiam nos anos trinta: um Estado de bem-estar que serve de colchão para as dificuldades, que funciona em amplas zonas do mundo e serve de referência para os países que não dispõem dele: o conceito de direito humanos universais e inalienáveis (com a Declaração Universal de 1948) e centenas de milhões de pessoas com um nível de instrução inimaginável naqueles anos.

A primeira brecha que a crise econômica criou é geracional. Os jovens são, de longe, os que mais sofreram durante estes anos os estragos da crise: o desemprego, a precarização, o apartheid salarial, a emigração para sobreviver ou, no melhor dos casos, para poder aplicar os conhecimentos adquiridos, a maior parte das vezes com dinheiro público, etc. E, como consequência de tudo isso, o rompimento de suas expectativas de futuro, materiais e emocionais, que é a ferida mais lacerante destes anos bárbaros. A depreciação dos jovens teve como consequência uma distribuição desproporcional dos custos da crise para eles, o que empurrou os componentes dessas faixas etárias, em muitos casos, para os extremos da sociedade.

Na campanha eleitoral para ser presidente da França, em 2012, o socialista François Hollande declarou: “Se for o próximo presidente, quero ser avaliado por um único critério: os jovens vivem melhor em 2017 do que em 2012? Peço para ser julgado somente sobre esse compromisso, sobre essa verdade, sobre essa promessa”. Prestes a terminar seu mandato, a história não julgará Hollande de modo favorável.

Fragmento de ‘Abuelo, ¿cómo habéis consentido esto?’, deJoaquín Estefanía, que será posto à venda em 14 de março. Editorial Planeta. 320 páginas. 17,90 euros (60 reais)