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Matrioska americana

A cada dia que passa, a sombra da Rússia escurece mais o mandato de Trump

Jeff Sessions, secretário de Justiça dos Estados Unidos.
Jeff Sessions, secretário de Justiça dos Estados Unidos.NICHOLAS KAMM (AFP)

As revelações sobre os vínculos entre o Governo russo e a equipe de Donald Trump se transformaram em um verdadeiro brinquedo de bonecas russas, no qual, por mais inverossímil que pareça, sempre surge uma nova matrioska dentro da outra.

Depois da demissão do general Michael Flynn, escolhido por Trump para o cargo decisivo de Conselheiro de Segurança Nacional, o escândalo das conexões russas atinge o senador Jeff Sessions, que ocupa função equivalente à de ministro da Justiça. Como veio a público agora, o senador Sessions se reuniu com o embaixador da Rússia nos EUA no começo de setembro, na reta final da campanha eleitoral, em meio ao escândalo dos cibertataques russos aos servidores do Partido Democrata.

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A gravidade da existência desse encontro com o embaixador Kislyak é dupla. Por um lado, Jeff Sessions, que foi o primeiro senador republicano a apoiar a candidatura de Trump, ocupava um posto central em sua campanha –assessor de segurança nacional. Não pode, portanto, alegar que ignorava a enorme delicadeza de uma reunião realizada apenas três dias depois de o presidente Obama pedir pessoalmente a Vladimir Putin, na reunião do G-20 realizada na China, que os ataques da Rússia contra o Partido Democrata fossem encerrados, assim como a sua atividade de interferência na campanha eleitoral norte-americana.

Mas Sessions não apenas mostrou ter um critério político duvidoso, como também, pior ainda, revelou-se incapaz de lidar com temas relacionados à segurança nacional. De modo mais grave ainda, mentiu em relação a isso nas duas ocasiões em que foi questionado, oralmente e por escrito, sobre seus contatos com a Rússia durante o seu processo de confirmação junto ao Senado como secretário de Justiça. E voltou a mentir sobre o assunto em 1 de março, quando já estava no cargo, ao negar ter se reunido durante a campanha com qualquer funcionário russo.

Sobre a vitória de Trump, continua e continuará a pairar a enorme sombra da interferência russa

Que um secretário de Justiça, em tese o grande fiador da legalidade dentro do poder executivo, inicie o seu mandato emitindo uma série de mentiras, é algo intolerável. E que ainda procure resolver a questão propondo-se a se abster de participar das investigações em curso, pelo FBI, sobre a interferência da Rússia na campanha eleitoral, trata-se de uma brincadeira inconcebível, cuja única virtude é deixar claro até que ponto Trump e sua equipe prejudicam a imagem das instituições de seu país.

Sobre a vitória de Trump, continua e continuará a pairar a enorme sombra da interferência russa. É evidente que, desde o começo, Putin viu em Trump uma oportunidade de se livrar da pressão que tanto os republicanos tradicionais quanto os democratas vinham fazendo sobre a Rússia e sua política externa, o que o levou a realizar uma operação de apoio e aproximação. O mais incrível é que os homens de Trump tenham entrado no seu jogo tão facilmente. Se aceitaram a “ajuda” para ganhar as eleições por causa do ódio que têm dos democratas, já seria ruim. Se o fizeram porque simpatizavam com a imagem de homens fortes que falam com clareza à nação e querem um mundo em que possam atuar a seu bel-prazer, pior ainda. Em qualquer dos casos, a sombra Putin jamais abandonará Trump.

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