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Coluna
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O ‘césar’ Trump

Ver o mandatário atacar o poder judicial, e certamente o Capitólio amanhã, deixa claro que os EUA deixou de ser um país em que se possa confiar

Donald Trump, neste domingo.
Donald Trump, neste domingo. Manuel Balce Ceneta (AP)

Talleyrand nos ensinou que "tudo que é exagerado é insignificante". Mas, independentemente de seus exageros como personagem e de como é certa a frase do estadista francês, Donald Trump é um perigo.

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Correndo o risco de entediar a todos na galáxia voltando a falar do 45º presidente dos Estados Unidos – para além das consequências letais para a humanidade e do que significa uma pessoa tão extravagante disparando indiscriminadamente e usando as redes sociais como sistema de Governo –, é evidente que sua chegada ao poder não poder ser analisada sem levar em conta o fracasso de seus adversários.

Bastava observar o desempenho de Jeb Bush durante as primeiras do Partido Republicano para entender que, independentemente da campanha ruim de Hillary Clinton, que minimizou o peso de ser mulher e acabou se transformando na defensora dos políticos profissionais e de sua rede de interesses e mentiras, era muito difícil que a democrata vencesse.

No fim das contas, Trump ganhou porque a classe política, no mundo que considerávamos democrático, fracassou. Trump venceu porque não foi desenvolvida em tempo nenhuma política para restituir a esperança e a fé coletiva que fosse capaz de limpar o sistema e castigar os culpados da maior orgia especulativa e o maior ciclo de empobrecimento global advindos da crise de 2008.

Se analisamos a história, podemos lembrar que a Crise de 1929, além de ter feito muita gente se jogar pela janela, também abriu caminho para medidas legais que puniram alguns dos culpados, causando mudanças estruturais de que o país necessitava para recuperar a confiança pública.

O então presidente Franklin D. Roosevelt fez mais do que construir rodovias, limpar parques e ajudar bancos. Além disso, tirou as pedras do caminho, procurou culpados e mudou o império do Norte para recuperar a esperança no processo democrático. Tudo nos complicados anos 30, diante do fascismo e do comunismo.

Trump já está no poder. Mas, na Constituição dos Estados Unidos – que continuam sendo uma República por excelência, apesar de tudo – a separação de poderes e o respeito podem suavizar as consequências de dar o poder a um homem que não sabe a diferença entre ser eleito como presidente da maior potência mundial e comprar uma empresa.

Trump está provocando infindáveis danos colaterais, mas um dos piores é o fato de manter aberta a ferida sempre dolorida das relações entre México e Estados Unidos. Porque desde 1848, o que Abraham Lincoln disse ser a mais imoral das guerras, os mexicanos já nascem com um gene "anti-americano".

O TLC – tratado de livre comércio da América do Norte – ajudou a eliminar um pouco da desconfiança histórica, depois que o México presenciou mais de uma vez como a corrupção de seus governantes transformava seu território no lugar ideal para a libertinagem do vizinho do norte.

São tempos difíceis, porque não há um projeto de futuro claro para ninguém, mas ainda poderia acontecer um milagre entre os funcionários de Trump, para que o mundo dos interesses comuns se sobreponha ao das emoções.

A classe política mundial deve ser consciente de que Trump é um fenômeno criado pela incapacidade política para lutar contra a corrupção e da necessidade de demonstrar que trair, arruinar e destruir a economia do planeta não pode ser um objetivo bancado com dinheiro público e perdoado de maneira impune.

Entre todas as vítimas do início da era Trump, a mais difícil de restituir é a garantia de segurança jurídica. Ver Trump atacar – como se fosse um governante que desconhece a história dos Estados Unidos e a força do equilíbrio das instituições – o poder judicial hoje, e certamente o Capitólio amanhã, não só acaba com sua figura presidencial, mas também deixa claro que os Estados Unidos deixaram de ser um país em que se possa confiar.

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