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Casa Branca defende que há “fatos alternativos” para falsear a realidade

Presidente dos EUA falseia o número de espectadores na sua posse e acusa a imprensa de inventar seu atrito com a CIA

Milhares de pessoas protestam no sábado contra Trump em Washington. Em vídeo, Kellyanne Conwway, assessora de Trump, defende o uso de "fatos alternativos" para analisar a realidade.

As primeiras 48 horas do presidente Donald Trump foram, sob muitos aspectos, uma projeção do candidato Donald Trump. O mudança para um ar mais presidencial, que muitos esperavam após sua vitória na eleição de 8 de novembro, não aconteceu na etapa do republicano como presidente eleito nem tampouco agora, depois da posse. O novo mandatário dos Estados Unidos e sua equipe dispararam falsidades ao longo do seu primeiro dia completo no cargo, seja a respeito do número de espectadores na cerimônia de posse ou em ataques aos meios de comunicação, acusados pelo novo presidente de terem inventado uma polêmica dele com a CIA. Também insistiu em que foi contra a guerra do Iraque desde o começo, mesmo que declarações da época mostrem que ele só foi se posicionar bem depois do início do conflito.

A maior parte dessas questões é facílima de comprovar e rebater, mas isso não intimida Trump. Tal ousadia é, desde a campanha eleitoral, um símbolo da identidade trumpiana na guerra midiática. No domingo, esse caráter assumiu uma nova dimensão. Questionada sobre o número de pessoas que assistiram ao vivo à cerimônia de posse na sexta-feira, a assessora presidencial Kellyanne Conway assim respondeu a um jornalista: “Não seja tão exagerado, Chuck. Você está dizendo que é uma mentira, e eles estão dando… Nosso chefe de imprensa, Sean Spicer, apresentou fatos alternativos a isso”.

Uma amostra da era dos “fatos alternativos” tinha relação com a suposta espionagem russa nos EUA. Desde que os serviços de inteligência norte-americanos começaram a acusar Moscou de estar por trás dos ataques cibernéticos registrados durante as eleições, e especialmente desde que determinaram que o objetivo do Kremlin era favorecer Trump, o novo presidente não parou de colocar em dúvida a confiabilidade desses serviços, acusando-os de agirem com motivações políticas e eventualmente zombando deles. Não foi algo que ocorreu em reuniões privadas ou em conversações flagradas por um microfone indiscreto, e sim na sua própria conta do Twitter e em declarações à imprensa.

Apesar disso, no sábado passado, em visita à sede da CIA, Trump acusou a imprensa de ter inventado a polêmica, a despeito de todas as provas documentais em contrário.“Julian Assange diz que ‘um garoto de 14 anos poderia ter hackeado [o assessor democrata John] Podesta’. Por que o Partido Democrata teve tão pouco cuidado? Além disso,ele afirmou que os russos não lhe deram a informação!”, tuitou Trump no último dia 4, dando ainda mais credibilidade ao fundador do Wikileaks, que publicou as informações negativas para a campanha da candidata derrotada Hillary Clinton.

Na véspera, já havia acusado os serviços de espionagem de mentirem para ele. “O briefing de ‘inteligência’ sobre o chamado ‘hackeamento russo’ foi adiado até na sexta-feira, talvez eles precisem de mais tempo para montar seus argumentos. Muito estranho!”, escreveu Trump no Twitter, usando sugestivas aspas nas palavras “inteligência” e “hackeamento russo”. Em 11 de janeiro, quando vários meios de comunicação repercutiram um relatório segundo o qual Moscou poderia ter informações comprometedoras contra ele, Trump estourou na mesma rede social: “Não deveria ser permitido que as agências de inteligência vazem essas ‘notícias falsas’ ao público. Vivemos na Alemanha nazista?”.

Mas neste sábado, diante dos funcionários da CIA, ele afirmou que decidiu iniciar seu mandato fazendo essa visita porque os jornalistas estão “entre as pessoas mais desonestas da Terra, e eles levaram a crer que eu estou zangado com o pessoal da Inteligência”.

Também disparou, assim com fez o novo chefe de comunicação da Casa Branca, Sean Spicer, uma bateria de dados que não se ajustam à realidade sobre sua posse. Trump venceu a eleição presidencial do país mais poderoso do planeta, e para ele poderia ser indiferente que sua posse fosse menos concorrida que a do seu antecessor, mas o empresário nova-iorquino detesta ficar para trás.

Só isso explicaria por que Spicer anunciou que Trump reuniu “o maior público em qualquer posse, ponto, tanto ao vivo como ao redor do mundo”. Mas os argumentos não se sustentam. Spicer disse, por exemplo, que 420.000 pessoas tomaram o metrô em Washington na última sexta, frente a 317.000 na posse de Barack Obama. Porém, as cifrasoficiais do sistema de transporte, citadas pelo The Washington Post, indicam 570.557 viagens no dia da posse de Trump, 1,1 milhão por ocasião da posse de Obama, em 2009,e 782.000 no início do seu segundo mandato, em 2013. Tampouco são verídicos os dados sobre a audiência televisiva: segundo dados do instituto Nielsen, o evento foiseguido nos EUA por 30,6 milhões de pessoas, sete milhões menos do que na posse de Obama.

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