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ANÁLISE

Mil homens com lanças se matando

As imagens são brutais, antigas, de séculos: milhares de miseráveis encerrados em sua ratoeira

Preso em Alcaçuz segura lança ao lado de colega no teto da cadeia.
Preso em Alcaçuz segura lança ao lado de colega no teto da cadeia. AFP

Um dos presos sem camisa se aproxima da barricada inimiga com uma lança feita com ferro e tenta enfiá-la em outro, que se abriga atrás de uma barreira de tábuas e painéis de madeira e se defende com chutes. Na imagem da televisão, não dá para saber se alguém saiu ferido. Outro preso agarra uma pedra ou um pedaço de telha que caiu do telhado ou de algum galpão parcialmente destruído ou uma garrafa de vidro e a atira na direção da barricada inimiga. De repente, centenas de presos começam a correr, armados com barras de ferro e escudos feitos de portas em direção à barricada inimiga. Os outros recuam, contêm aquela avalanche humana à base de pedradas. As batalhas da Idade do Bronze não deviam ser muito diferentes. De vez em quando, um preso aparece empurrando até a saída da prisão um carrinho carregado de homens gravemente feridos.

Há várias horas, mais de 1.000 presos da penitenciária de Alcaçuz, em Natal, tentam matar uns aos outros à base de mordidas. O acaso midiático quis que essa penitenciária se encontrasse cercada por uma colina de onde as redes de televisão conseguem um bom ângulo de visão, focando o interior, o pátio da prisão, o campo de batalha. As imagens são brutais, antigas, de séculos atrás: 1.000 miseráveis trancados em sua ratoeira, divididos em duas facções, perseguindo uns aos outros dentro do presídio fechado, sob os olhares do país inteiro. Nas esquinas estratégicas da cadeia (mas sempre do lado de fora), alguns policiais atiram de vez em quando com balas de borracha, em uma tentativa — inútil — de conter a sangria, interromper a batalha.

Ao fundo, o mar azul-turquesa do trópico, a luz do sol que explode em cheio sobre as paredes dos edifícios frágeis da penitenciária, cheias de pichações dos dois bandos, o vento quente que vem do sul movendo as bandeiras das duas facções, improvisadas com lençóis. Eu gostaria de perguntar a um desses presos por que ele está em um dos lados da barricada e não do outro. Em que o sujeito que ele acabou de tentar matar com uma lança se diferencia dele. Sei que um pertence ao Primeiro Comando da Capital, grupo mafioso de São Paulo, e o outro ao Sindicato do Crime, uma cisão do primeiro. Mas isso é uma forma de não responder, de não responder de verdade.

As celas já não existem. Os pavilhões foram destruídos. Agora, erguem-se colunas de fumaça, mas o ângulo da câmera não permite que saibamos de onde ela vem exatamente. Ninguém dirige a prisão, a não ser os dois exércitos de homens seminus, munidos de lanças, ocupados em perseguir em círculos e estrangular uns aos outros. De há muito que o Estado, a quem pertence a penitenciária, responsável pelo que ocorre ali dentro, desapareceu. As autoridades de Natal, do Estado do Rio Grande do Norte, do ministério, do Governo, acompanham há várias horas — eu suponho — à matança dos gladiadores pela televisão. Como o restante do país.

Não faz muito tempo, o Estado brasileiro organizou de forma exitosa uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Mas foi incapaz, agora, de impedir, durante quase um dia inteiro, que um grupo de homens, voltando ao tempo das cavernas, se esquartejassem um aos outros.

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