Coluna
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Muito além de Deus e do diabo

A bancada evangélica tem poder para determinar o rumo das discussões que preocupam a população, contribuindo para o conservadorismo moral e a hipocrisia social que vem caracterizando o Brasil

Templo de Salomão, sede mundial da igreja Universal.
Templo de Salomão, sede mundial da igreja Universal. Rafael Neddermeyer (Fotos Públicas)

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de evangélicos cresceu 61,5% entre 2000 e 2010, passando a representar 22,2% do total da população, contra 64,6% dos católicos. Com seu assistencialismo e sua fé de resultados, algumas das denominações tornaram-se verdadeiros fenômenos. A participação política de pentecostais e neopentecostais ganhou maior visibilidade a partir da aliança estratégica com o PT, no começo do século XXI, apoio que possibilitou a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002, após três derrotas consecutivas. Um dos aliados mais importantes do PT, na época, foi a Igreja Universal do Reino de Deus, chefiada por Edir Macedo, que em 2005 fundou o Partido Municipalista Renovador, hoje Partido Republicano Brasileiro (PRB), ao qual era filiado o vice de Lula, o católico José de Alencar, que exerceu papel essencial na aproximação do empresariado e dos evangélicos com o petista.

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O PRB funciona informalmente como o braço político da Igreja Universal. Nas últimas eleições municipais cresceu 33% em relação ao desempenho em 2012, elegendo 106 prefeitos, inclusive Marcello Crivella, que encontra-se agora à frente da segunda mais importante cidade do Brasil, o Rio de Janeiro. Crivella, cantor de música gospel com mais de uma dezena de discos gravados e senador, já foi ministro na administração Dilma Rousseff. Além disso, o partido possui uma bancada formada por 23 deputados federais, entre eles o mais votado do país, Celso Russomano, com 1,5 milhão de votos, candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo em 2016. Mas, para provar que os evangélicos não têm outros interesses que não os próprios, o PRB desembarcou do governo petista diretamente para o governo do presidente não eleito, Michel Temer. O titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, foi diretor da TV Record do Rio de Janeiro entre 1995 e 1999, e vice-presidente da Rede Record de Televisão, entre 2003 e 2009.

Fundada em 1977, a Igreja Universal conta hoje com cerca de 12 mil pastores, sete mil templos e quase sete milhões de seguidores no Brasil, e outros quase dois milhões de fiéis espalhados por mais de uma centena de países, segundo estimativas da própria entidade. Sua receita é estimada em cerca de R$ 1,4 bilhão de reais por ano – mas não há qualquer controle sobre esse valor, já que por lei as instituições religiosas estão isentas de impostos. Além dos fiéis, a Igreja Universal controla a Rede Record, que cobre 93% do território nacional e está presente em 150 países, a TV Universal, com mais de 20 retransmissoras, e a Rede Aleluia, que possui quase oitenta emissoras de rádio AM e FM, presente em 75% do território nacional. Faz parte ainda do grupo o portal universal.org., o jornal Folha Universal, as revistas Plenitude, Obreiro de Fé e Mão Amiga, a editora Unipro, que registra milhões de exemplares vendidos de livros de Edir Macedo e de outros pastores, e a gravadora Line Records, especializada em música religiosa.

O PRB funciona informalmente como o braço político da Igreja Universal, que também controla a Rede Record 

Os evangélicos progridem onde se ausenta o Estado. Assim como os traficantes de droga. As periferias das cidades hoje estão divididas entre eles. O Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do Brasil, vem expandindo seus interesses para fora dos limites de São Paulo, onde nasceu, e já domina cadeias no Rio de Janeiro, Maranhão, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A mais recente investida, segundo parece, resultou em um massacre de 56 presos em Manaus (AM). Ambos os grupos almejam o mesmo objetivo: ampliar as suas hordas. Assistimos impotentes à ampliação do fanatismo e da violência, que hoje se encontram infiltrados no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Em nome de Deus, uns, e do Diabo, outros, pouco a pouco submetem o que resta do Brasil.

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