Era Doria começa com prefeito e secretários vestidos de garis

Novo prefeito de São Paulo reforça símbolos de campanha e empurra Alckmin para a Presidência

Doria cumprimenta Haddad sob a aprovação de Geraldo e Lu Alckmin.
Doria cumprimenta Haddad sob a aprovação de Geraldo e Lu Alckmin.NELSON ANTOINE (ESTADÃO CONTEÚDO)

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Se o símbolo da austeridade é a água, o do trabalho será o uniforme de gari que o prefeito promete vestir nesta segunda-feira junto com todo seu secretariado. Todos estarão "de vassoura na mão" às 6h da manhã, anunciou Doria, que reforçou a promessa de priorizar os mais humildes e os mais pobres em sua gestão. O prefeito disse que já pediu desculpas adiantadas às esposas de seus secretários, pois eles vão ter de trabalhar muito. Ele pondera que seus subordinados terão a vantagem de perder peso sem precisar pagar para tanto.

Durante seu discurso de posse, o novo prefeito reforçou a ênfase em palavras que lhe renderam a vitória no primeiro turno em outubro, com 53% dos votos, como eficiência, modernização, descentralização, trabalho e gestão. "Será um governo capaz de ouvir a opinião de todas as pessoas. Governaremos para todos, os que nos elegeram e os que não nos elegeram. Será uma gestão conciliadora”, discursou. Doria ainda se preocupou em dizer, provocado pelo governador de São Paulo e fiador de sua candidatura, Geraldo Alckmin, que não nega a política, apesar de ter passado toda sua campanha destacando o fato de não ser político.

Por falar em Alckmin, o governador prometeu se inspirar na mítica dupla santista Pelé e Coutinho para fazer "tabelinhas" com Doria — a primeira parece ter sido o congelamento do preço das passagens no Estado — e classificou o prefeito como um "otimista racional". Em retribuição, o governador recebeu de seu protegido mais um empurrãozinho rumo à provável candidatura presidencial em 2018. "Vamos colocar São Paulo nos trilhos. E, com Alckmin, colocar o Brasil nos trilhos", discursou o prefeito de São Paulo, que fez as tradicionais referências tucanas aos bastiões do partido André Franco Montoro — ex-governador de São Paulo a quem Doria atribui sua entrada na política — e Mario Covas — outro ex-governador do Estado e avô do agora vice-prefeito Bruno Covas.

Um dia após a posse, João Doria se vestiu de Gari e começou a segunda-feira varrendo um trecho da avenida Nove de Junho, no centro de São Paulo.
Um dia após a posse, João Doria se vestiu de Gari e começou a segunda-feira varrendo um trecho da avenida Nove de Junho, no centro de São Paulo.NELSON ANTOINE (FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO)

Sobraram deferências até para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que apoiou Andrea Matarazzo contra Doria nas prévias do PSDB à prefeitura. FHC não foi à cerimônia de posse, mas, segundo o novo prefeito, enviou-lhe uma "mensagem carinhosa por WhatsApp" desde um país estrangeiro que Doria não soube apontar com precisão. Também não faltaram elogios ao agora ex-prefeito Fernando Haddad, que proporcionou ao sucessor uma "transição solidária" que, segundo Doria, servirá de referência para futuros gestores públicos.

Em sua intervenção, Haddad — que, ainda no clima da simbologia, usava uma gravata presenteada por Doria — chamou São Paulo de "cidade eletrizante" e destacou as "ondas migratórias" que têm trazido estrangeiros de Bolívia, Haiti e Síria para a capital paulista. O ex-prefeito petista ressaltou ainda que entrega ao sucessor uma cidade com as finanças saneadas e com apenas um terço da dívida que ele herdou ao assumir em 2011.

Finalizada a festa, os símbolos e discursos que levaram João Doria ao comando de São Paulo começarão a ser testados. Como se tornou comum na cidade, as chuvas de janeiro chegarão como o primeiro teste — antes mesmo de assumir, o prefeito anunciou uma Operação Chuva de Verão, plano por meio do qual pretende prevenir os prejuízos causados pelas enchentes.

Outro teste de fogo será o prometido aumento da velocidade nas rodovias marginais. A partir de 25 de janeiro, as velocidades máximas voltam para 90km/h (expressa), 70km/h (central) e 60km/h (local). Durante o período em que as velocidades foram reduzidas nessas vias, o número de acidentes fatais registrado caiu 52%. Se os óbitos voltarem a aumentar após a elevação das velocidades, o símbolo para o prefeito não será nada bom.