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Começam os anos “vibrantes” de João Doria como prefeito de São Paulo

Prefeito eleito em São Paulo inicia oficialmente neste domingo a gestão após idas e vindas sobre propostas para a cidade

João Doria Prefeitura São Paulo

“Faremos quatro anos vibrantes que valerão por oito", disse João Doria há exatamente um ano, em uma entrevista ao EL PAÍS. A frase foi uma resposta ao questionamento sobre reeleição. Naquela época, o tucano ainda era um dos pré-candidatos do PSDB à Prefeitura de São Paulo. Teria que passar por uma disputa interna que contou com ofensas entre os pré-candidatos – além de Doria, Andrea Matarazzo e Ricardo Tripoli disputavam as prévias – briga de militante no dia das eleições, acusações de fraude. Matarazzo, que havia ido para o segundo turno com Doria, o acusou de pagar filiados para que votassem nele, o que Doria nega. Ainda assim, Matarazzo decidiu deixar o partido às vésperas do segundo turno da disputa entre os tucanos.

Sem segundo turno, João Agripino da Costa Doria Junior foi oficializado como o candidato do PSDB para disputar a Prefeitura de São Paulo. Rapidamente, a campanha do tucano percebeu a aversão da população brasileira à classe política e capitalizou esse sentimento. Colou no empresário o rótulo de “gestor”, “não político” e “trabalhador”. Milionário e dono do grupo Lide, que reúne os empresários mais ricos do país, Doria incorporou esse papel com maestria: deixou de lado o sobrenome, usando somente o tão popular e brasileiro João. Queria se aproximar da população das periferias, região que decidiria a eleição em São Paulo. E conseguiu, sendo o candidato mais votado, inclusive nos bairros mais pobres da cidade. Levou a eleição no primeiro turno, um feito inédito para um prefeito paulistano, com uma campanha que contou com polpudos recursos do próprio bolso de Doria.

Nem por isso a disputa foi fácil. Ao longo da eleição, seus adversários levantaram denúncias de que ele se apropriara de um terreno público, colocara uma escultura de sua mulher em uma praça sem autorização da Prefeitura e garantira do Governo do Estado, desde 2014, 1,5 milhão de reais em propaganda para as revistas de seu grupo. O marketing político dos outros candidatos também correu para lembrar o eleitor de que o tucano não é tão alheio à política como diz ser. Filho do ex-deputado federal João Doria, o empresário, jornalista e publicitário foi presidente da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo entre 1986 e 1988, no Governo Sarney, e filiou-se ao PSDB em 2001.

Mas nenhuma das investidas respingou na imagem do "João trabalhador", como sua campanha o chamava. Com o maior tempo de TV e o apoio do governador Geraldo Alckmin e da máquina do Estado, sua projeção nas pesquisas foi meteórica. Iniciou a campanha com tímidos 5% das intenções de voto, segundo o Datafolha em 26 de agosto, e terminou com 53% dos votos válidos na cidade.

Embora o caminho do novo prefeito de São Paulo mais pareça com uma linha reta em direção à Prefeitura sem que os obstáculos o parassem, o que mais fez desde que ganhou a eleição foi girar os calcanhares e voltar atrás em diversas declarações e propostas. Durante a disputa, levantou a bandeira de oposição ferrenha à redução de limite da velocidade das marginais implantada pelo então prefeito Fernando Haddad (PT). Desde o início, afirmava que voltaria ao que era antes de Haddad, mas após um estudo realizado por sua equipe, teve que voltar atrás e propôs que cada faixa tenha um limite diferente.

Doria afirmou que extinguiria a Secretaria de Pessoas com Deficiência – juntamente com outras seis – mas sofreu críticas até mesmo dentro do PSDB e teve que mudar de ideia. Disse também que acabaria com o Programa de Braços Abertos, que trata de dependentes químicos na área da cracolândia, e ampliaria o programa Recomeço, do Governo do Estado. Encontrou resistência e crítica de especialistas e acabou por dizer que manteria o projeto de Haddad, fazendo alguns ajustes, como o corte de salários para os beneficiados do programa.

Uma das promessas do novo prefeito é zerar a fila nas creches em um ano. Mas seu futuro secretário de Educação, Alexandre Schneider, disse ao ser anunciado no cargo que a meta do prefeito depende do orçamento da cidade. “A gente vai gerar o maior número de vagas possível naquilo que o orçamento permitir”, afirmou em uma entrevista coletiva. “Se puder ser em um ano, vou fazer. Se for em dois, faremos”.

Não foi a primeira vez que um secretário de sua equipe contrariou suas declarações. Recentemente, João Doria disse que a Virada Cultural – um dos maiores eventos de rua do país, com programação principalmente no centro da cidade – seria transferida para o autódromo de Interlagos, na zona sul. As reações foram imediatas. Foi criado um evento no Facebook batizado de Virada Cultural Clandestina com milhares de compartilhamentos e confirmações. No dia seguinte, o novo secretário de Cultura, André Sturm, disse que a Virada seria no centro e que o autódromo seria um dos locais que receberiam parte da programação. Os anos “vibrantes” prometidos pelo novo prefeito começaram a valer antes mesmo de sua posse.

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