São Paulo

Assassinos do metrô torceram o coração de uma cidade

Passados três dias do assassinato brutal, dois agressores foram presos em meio à comoção por justiça

Familiares e curiosos clamam por justiça na chegada dos agressores na delegacia
Familiares e curiosos clamam por justiça na chegada dos agressores na delegacia

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Tudo nessa história parece ter sido feito para chocar, como disse o jornalista Leonardo Sakamoto em sua coluna. Um senhor que é espancado brutalmente por ter defendido duas moradoras de rua. As imagens que mostram chutes e socos desferidos quase que exclusivamente contra a cabeça da vítima. O socorro de transeuntes ou seguranças do Metrô que não veio a tempo. O resgate da ambulância que demora mais de uma hora. O fato dos agressores serem dois jovens, que não satisfeitos com a primeira sessão de espancamento, voltam segundos depois para continuar a bater. A data em que tudo aconteceu: noite de Natal. Assim, a indignação de quem se espremia para ver a passagem dos agressores ao entrarem na delegacia nesta quarta-feira é facilmente compreendida. Muito poderia ser dito, contudo, por trás de tudo isso, há um número brasileiro que se repete ano a ano sem que nada mude.

O número, do qual Ruas provavelmente nunca ouviu falar e do qual agora faz parte, revela que 328 LGBTs morreram em decorrência da homofobia e transfobia em 2016. O dado, atualizado diariamente pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), é medido desde 2011 e nunca ficou abaixo da casa das 300 mortes. O ambulante, heterossexual, é o último caso acrescentado à estatística deste ano, que também pode ser lida desse modo: a cada 26 horas um brasileiro comete suicídio ou é assassinado por outros brasileiros que não conseguem lidar com orientação sexual diversa da tida como “padrão”. O número, importante dizer, é considerado subestimado, já que as ocorrências que o compõe são apenas as que ganham repercussão na mídia – por trás do caso de Ruas está a realidade das 300 e tantas mortes anuais que continuam a se repetir longe das câmeras.

Luiz Carlos Ruas, o Índio, em foto de arquivo pessoal
Luiz Carlos Ruas, o Índio, em foto de arquivo pessoalReprodução

“Pegaram o meu coração e torceram", lamentou a viúva de Ruas, Maria Souza Santos, um sentimento comum aos paulistanos que se solidarizaram com a vítima da crueldade praticada em pleno dia de Natal. A cidade consegue viver o luto com Maria depois de assistir ao doloroso assassinato nas imagens captadas pelo Metrô. Mas muitas vezes deixa de se sensibilizar com outras mortes parecidas porque elas são só números, sem registro em vídeo.

É verdade que o advogado dos jovens se prontificou a dizer que o assassinato não foi motivado por homofobia, mas sim por uma suposta tentativa de roubo. É verdade que haverá quem questione a inclusão da morte de Índio na estatística – como as discussões nas redes sociais já começaram a mostrar. Mas isso não deveria entrar em questão. É que não é por acaso que as travestis agredidas estavam lá. Ao pedir para que os agressores parassem, foi a realidade delas, moradoras de rua, que o ambulante defendeu. Ao defendê-la, tornou-se parte dela própria. Para entender, talvez seja necessário mostrar com mais números o que Ruas provavelmente entendeu pela empatia gerada na convivência diária com as travestis, proporcionada por seus 20 anos de trabalho como masqueteiro na estação Dom Pedro II.

Um Levantamento feito pela ONG Transgender Europe, por exemplo, diz que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Por aqui, a expectativa de vida dessa população é de apenas 35 anos, enquanto a média nacional está na casa dos 75. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais também mostra que apenas 10% dessa população trabalha com carteira assinada. A rejeição da sociedade, a necessidade de esconder a própria identidade de gênero, a instabilidade cotidiana, quase sempre empurra essas pessoas para uma vida marginalizada, fadada à prostituição e ao abandono. Mais uma vez: as travestis Brasil e Pandora não estavam lá por acaso. Elas foram o alvo das agressões como consequência de uma realidade inegável que vivem. Ao receber os chutes e socos, Ruas também foi elas.

No sobrenome de batismo de Luiz Carlos, está aquilo que talvez ele tenha melhor representado: as próprias ruas. É que se elas são, talvez em sua faceta mais visível, violentas, são também marcadas por uma humanidade fugidia. Desse modo, a morte do ambulante reflete bem a primeira condição das ruas. Já sua última decisão, a de intervir na agressão das travestis, é a melhor representação da segunda. “Não sou uma má pessoa”, tentou argumentar Ricardo Martins, um dos seus algozes, quando chegava algemado à delegacia. A “cachaça”, segundo ele, explicaria o estado alterado que o levou, por instinto raivoso, a atacar quem o contrariou. Foi por instinto também que Ruas defendeu quem era mais vulnerável que ele. A tênue fronteira entre o ódio e a compaixão lhe custou a vida.