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Trump diz em tuíte que EUA devem “aumentar a capacidade nuclear”

O presidente eleito insinua uma guinada da primeira potência mundial depois de décadas de redução das armas nucleares

Em 140 caracteres no Twitter, sua rede social favorita, Donald Trump anunciou na quinta-feira uma possível guinada em décadas de política nuclear nos Estados Unidos. O presidente eleito escreveu numa mensagem breve e ambígua que a primeira potência mundial deve “reforçar e expandir enormemente sua capacidade nuclear até que o mundo tome consciência das armas nucleares”.

Donald Trump, durante entrevista para Reuters, em 17 de maio passado. Ampliar foto
Donald Trump, durante entrevista para Reuters, em 17 de maio passado. REUTERS

Não está claro o que Trump quer dizer exatamente com “capacidade nuclear”. A aparente improvisação da mensagem e a falta de detalhes num assunto que é muito técnico, mas tem profundas implicações para a paz mundial, não ajuda a esclarecer. O magnata nova-iorquino gosta de ser imprevisível: considera isso uma virtude nos negócios e na política. Semear a confusão foi, voluntária ou involuntariamente, um de seus métodos na ascensão à Casa Branca.

Durante a Guerra Fria se falava na “teoria do louco”. Tratava-se de dar a impressão de que o presidente dos EUA era alguém instável, capaz de lançar a bomba atômica, para forçar concessões do inimigo. Essa teoria foi recuperada agora para explicar o comportamento de Trump.

A insinuação de um possível aumento do arsenal nuclear romperia com a posição atual da primeira potência mundial sobre a não proliferação. Daria marcha a ré no lento caminho para o desarmamento. E enviaria um sinal ao mundo que colocaria em dúvida os acordos internacionais e poderia encorajar os países sem armas nucleares a obtê-las.

A partir de 20 de janeiro, quando tomar posse, Trump será responsável pelos códigos que lhe permitirão disparar um arsenal atômico com uma capacidade destrutiva nunca usada. Sua rival nas eleições de 8 de novembro, Hillary Clinton, advertiu durante a campanha sobre o perigo de colocar um homem com o temperamento Trump ao alcance do “botão nuclear”.

As declarações de Trump na campanha anteciparam uma mudança em relação à política mantida pelas administrações anteriores, democratas e republicanas. O então candidato republicano disse, por exemplo, que os EUA poderiam permitir que parceiros asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, se dotassem da arma nuclear. Ele se recusou a descartar a possibilidade de lançar uma bomba atômica na Europa. Perguntou-se, em público e privadamente, por que, se os EUA têm armas nucleares, não devem ser os primeiros a usá-las contra o Estado Islâmico ou contra outro inimigo.

Em 1986, às vésperas do fim da Guerra Fria, estimava-se que havia 70.300 armas nucleares no mundo, de acordo com dados da Federação de Cientistas Americanos. No início de 2016 havia 15.350, de acordo com a mesma fonte. Mais de 90% está nas mãos de EUA e Rússia, país do qual Trump quer se aproximar depois das tensões nos anos Obama.

O Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em vigor desde 1970, estipula que os países com armas nucleares devem se esforçar para eliminá-las, os países sem armas devem abster-se de adquiri-las e todos devem ter acesso ao uso pacífico da tecnologia. Em 2010 o presidente Barack Obama assinou com a Rússia um tratado para reduzir as ogivas nucleares para 1.550 em 2018.

Obama, que num discurso no início de seu mandato proclamou o objetivo de eliminar no futuro as armas nucleares na Terra, reduziu o número de ogivas –o explosivo colocado no projétil– mas ao mesmo tempo anunciou investimentos de bilhões de dólares para modernizar o arsenal remanescente.

Quando Trump fala em “reforçar e expandir” a capacidade nuclear, poderia estar se referindo a esses investimentos, mais do que aumentar o arsenal. É uma incógnita. E essa incerteza –numa área em que os anúncios são medidos milimetricamente e as políticas são modificadas depois de longos processos de decisão–é por si só uma mensagem ao mundo sobre como agirá o presidente Donald J. Trump.

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