Zeina Latif : “A reforma da Previdência é o Plano Real de Temer”

Para a economista, o desafio do Governo para a retomada do crescimento será driblar crise política

 Zeina Latif, Economista-Chefe da XP Investimentos.
Zeina Latif, Economista-Chefe da XP Investimentos.

Na opinião da economista Zeina Latif duas variáveis são essenciais para a retomada do crescimento do Brasil no próximo ano: a boa gestão da política monetária e a polêmica reforma da Previdência. Doutora em economia pela Universidade de São Paulo e economista-chefe da corretora XP Investimentos, Zeina não acredita que exista uma proposta ideal para a mudança das regras da aposentadoria e defende que haja negociação desde que as mudanças propostas não comprometam o ajuste fiscal. Para a economista que já atuou em grandes bancos multinacionais, o maior desafio do Governo Temer será conseguir capital político para aprovar a reforma diante de um cenário político-econômico conturbado e incerto em 2017. Um lembrete do tamanho do problema de Temer foi dado nesta terça pelos deputados, que rejeitaram o plano do Ministério da Fazenda para a dívida dos Estados para evitar desgaste em suas bases políticas.

Pergunta. Qual o maior desafio para a retomada do crescimento do Brasil?

O fracasso do Governo de Dilma Rousseff fez o setor produtivo reavaliar a sua agenda. Acho que a tendência é avançar nas medidas microeconômicas.

Resposta. O grande desafio do Governo de Michel Temer é o cenário político conturbado e a insegurança de um possível movimento nas ruas. Hoje vivemos uma confusão institucional. Parece que não há um poder moderador no Brasil em meio a um quadro econômico muito frágil e com vários desdobramentos da Operação Lava Jato. Mesmo se houver uma estabilização da economia no ano que vem, o país provavelmente ainda terá um ambiente muito perigoso. O que temos a celebrar é a inflação caminhando para a meta.  No entanto, como estamos falando de uma economia muito reprimida, a sociedade ainda vai demorar a ver os benefícios e o desemprego continuará subindo. Claramente, continuaremos com um ambiente político-econômico complexo. A negociação da reforma da Previdência, que deve tomar um semestre inteiro, vai exigir muito capital político do Governo, mas ele sabe muito bem o que está em jogo. Isso ajuda a reforçar a articulação. A Previdência é o Plano Real de Temer. A tendência é que o Governo se prepare de forma satisfatória para a reforma.

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P. O desenho atual da reforma da Previdência é o ideal? Acredita que a proposta será aprovada sem muitas alterações?

R. Não existe reforma ideal, são temas complexos, pessoas que possuem regras diferentes e que a proposta tenta uniformizar. No entanto, qualquer que seja a mudança não se pode perder de vista que é preciso ter um volume de economia. Se o Congresso resolver, por exemplo, negociar a regra de transição, é necessário tomar cuidado para que isso não represente um problema muito grande do ponto de vista fiscal. Tudo bem negociar, mas sem comprometer o ajuste. Caso contrário, o próximo governante terá que fazer tudo novamente e não sabemos se ele conseguirá. A tendência para 2017 é montar algo mais sólido para a agenda microeconômica na tentativa de destravar o investimento de longo prazo. Há muita cobrança nesse sentido no setor produtivo. Estávamos acostumados a ver o setor ficar pedindo só o juros subsidiados, benefícios e desonerações. Agora, o que vemos é o setor exigindo medidas horizontais para tentar melhorar o ambiente de negócios.  Existe uma mudança da agenda econômica em curso. O fracasso do Governo de Dilma Rousseff fez o setor produtivo reavaliar a sua agenda. Acho que a tendência é avançar nas medidas microeconômicas.

P. A equipe já deu sinais que avançará nesse tema com o anúncio do minipacote econômico neste mês...

R. Aquilo é o início do início, um pacote tímido a luz da magnitude e amplitude dessa agenda microeconômica. O leque é muito amplo, vai desde a complexidade tributária até questões de burocracia e do papel das agências reguladoras. A tendência é fazer algo mais estruturado dentro dessa agenda. Apontar os principais diagnósticos e as linhas de ação. Não que isso vá resolver tudo, mas dá o caminho do que é necessário. Seria um tremendo legado para o próximo presidente.

P. Qual a sua avaliação sobre o desempenho da equipe econômica liderada por Henrique Meirelles? Apesar do ministro da Fazenda ter um forte respaldo do mercado, a frustração com a economia estagnada fez com que ele começasse a ser criticado...

Hoje vivemos uma confusão institucional. Parece que não há um poder moderador no Brasil

R. Acho que há uma expectativa exagerada sobre o que o Ministério da Fazenda pode fazer. Quando a gente pensa em ajuste fiscal de estabilização do país, acho que não tem razão para maiores críticas ao time econômico incluindo o secretário da Previdência. Quando pensamos em agenda microeconômica, não é uma agenda para ministério da Fazenda. Isso precisa ser coordenado com outras pastas. É um equívoco colocar só como responsabilidade da  Fazenda. Quando se discute a necessidade de delimitar o papel das agências reguladoras, isso não é ministério da Fazenda. Outro ponto é a questão à criticas ao Banco Central. Pessoalmente, acho que ele poderia ter sido mais agressivo no corte de juros. Acho que o BC adotou uma política muito gradualista que retarda a retomada econômica. No entanto, a política monetária pode ser consertada rapidamente, eles têm reuniões com decisões a cada 45 dias. Não é difícil consertar.

P. E o cenário internacional?A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos pode impactar a economia brasileira e a política monetária?

R. A não ser que haja mais grave acontecendo, acho pouco provável que Trump passe por um experimentalismo que gere uma preocupação maior com a política do Fed (Banco central americano). Acho que os graus de liberdade dele são limitados. Em um cenário mais morno, o  estrago da política dos Estados Unidos é mais limitada, nesse contexto não é um tema para o Brasil. O grande tema somos nós mesmos. Porém, é óbvio que todas as vezes que o Fed fala em aumentar os juros gera um desconforto. Ninguém tem bola de cristal, mas, em princípio, as coisas que a gente olha no cenário internacional estão normais. O que na altura do campeonato é uma tremenda sorte para o Temer, porque se estivéssemos com um ambiente conturbado lá fora, com uma taxa de câmbio explodindo, o BC já não ia querer cortar juros. Não é esse o caso. Temos hoje algum certo conforto para o Governo fazer o ajuste sem ter que pensar nem depender de um cenário internacional complexo.O Trump não tira o meu sono.

P. O Brasil conseguirá sair da recessão já no próximo ano?

R. A possível aprovação da Previdência e os efeitos do corte de juros do Banco Central devem ajudar numa retomada cíclica da economia. O avanço na agenda microeconômica também sinaliza uma perspectiva de crescimento a longo prazo. Em um cenário benigno, podemos ter uma inflexão da atividade econômica, mas provavelmente no segundo semestre ou no último trimestre de 2017. Ainda que a economia termine apresentando um PIB fraquinho, magrinho, isso melhora a confiança e o humor do mercado. Dá aquela certeza que o fundo do poço foi atingido e que a retomada cíclica chegou. No entanto, até lá, ainda há muito em jogo e é necessário que não haja grandes erros na condução da política econômica. É necessário a aprovação da reforma da Previdência, a boa gestão da política monetária. Essas são variáveis críticas para a retomada. A minha preocupação é que, se o Governo falhar e as coisas forem mais difíceis em 2017 do que o imaginado, em 2018 corremos risco de ter uma eleição mais tumultuada, com candidatos com agendas que não são de continuidade de ajuste, com a ideia de empurrar com a barriga. O curto prazo será muito importante para a qualidade da política em médio e longo prazo.

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