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BC brasileiro tenta tranquilizar os mercados e evitar os danos do ‘efeito Trump’

Ilan Goldfajn garante que há fundos suficientes para aguentar a tempestade econômica

Ilan Goldfajn, o presidente do Banco Central do Brasil. EFE

O presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, estava há meses falando de um “período benigno”, a feliz coincidência de circunstâncias em todo o mundo que fazia com que, ultimamente, tudo estivesse a favor das economias emergentes. Como prova citava a inflação do Brasil, que de 11% tinha caído para 7,5% e nada indicava que não fosse cumprir a meta de chegar aos 4,5% em 2017. Então chegou Donald Trump. Na quinta-feira, 10 de novembro, quando o magnata de Nova York tinha apenas 24 horas como presidente eleito, o real perdeu 4,73% do seu valor em relação ao dólar: sua queda mais vertiginosa em quase uma década. Desde então, a moeda tem tentado subir, apenas para cair de novo. “O período benigno não ia durar para sempre”, lamentou Goldfajn à imprensa internacional neste dia 16 de novembro.

Mas Goldfajn insistiu, numa intervenção para conter o pânico nos mercados, que tudo isso é um mal passageiro que não deveria deixar marcas na incipiente recuperação econômica do país. “Temos munição para deixar os mercados tranquilos”, alertou. Estava se referindo especialmente à tática que o Banco tem desempoeirado nesses dias para controlar o valor do dólar, o swap cambial: emitir os dólares que o Banco dispõe em uma reserva, o que aumenta a oferta e, portanto, reduz seu preço. Goldfajn, conhecido precisamente por sua relutância ao swap, salientou que o Banco tem dólares suficientes para aguentar a tormenta. “Fomos cautelosos nos últimos meses, reduzimos a quantidade de swaps e isso nos permite manter nossa intervenção de forma constante”, explicou. Dos 100 bilhões de dólares que o Banco manteve durante os anos de vacas gordas, ainda sobram 25. Nesta quarta, houve nova forte intervenção do BC. Depois de quatro pregões em alta, a moeda americana finalmente recuou 0,65% em relação ao real (cada dólar encerrou a jornada em 3,42 reais).

O medo de que Trump frustre a recuperação brasileira está começando a ganhar força entre os entendidos em economia. Os Estados Unidos são o segundo maior sócio comercial do Brasil e a política monetária do novo presidente eleito é a maior das muitas incógnitas que existem sobre suas intenções. Ameaçou reduzir o comércio com outros países, o que significaria o enésimo revés que a economia brasileira viveria nos últimos anos.

Trump na campanha criticou várias vezes o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, cobrando-o por não elevar a taxa de juros norte-americana, um passo ensaiado há meses pela instituição. E há dúvidas sobre de que forma o Banco, um colegiado independente mas com nomes que serão preenchidos pelo republicano até 2018, vai atuar daqui para frente. Se as taxas de juro realmente subirem nos EUA de maneira significativa, se desataria um efeito cascata na economia brasileira. Primeiro, os investidores abandonariam emergentes como o Brasil em busca de rentabilidade na mais segura economia do mundo. Isso provavelmente alentaria uma maior queda do real frente ao dólar, um motor tradicional da inflação no país. Por fim, para segurar a alta dos preços, o Banco Central brasileiro se veria obrigado a voltar a subir sua própria taxa de juros, justamente o contrário do que o Governo Temer deseja seguir implementando. Maior taxa de juros esfria o consumo do brasileiro, tão necessário para a retomada econômica. “É muito cedo para saber exatamente qual será a resposta às suas políticas e, certamente, muito cedo para falar sobre as consequências dessa resposta”, defendeu-se Goldfajn. “Haverá alguma volatilidade, isso deve ser esperado. Faz parte do ciclo”. Perguntado se o Brasil havia se coordenado com outros bancos em perigo pelo Governo Trump, como o mexicano, Goldfajn assegurou que não foi necessário. “O importante é que os mercados continuem funcionando”, afirmou. “O Banco Central está muito atento para intervir no mercado para que funcione corretamente”.

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