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TRIBUNA

O meu Gullar

Ferreira Gullar, meu amigo que foi o ser vivo mais triste que vi na vida quando éramos jovens, foi também o último grande poeta do idioma que falamos no Brasil

O poeta Ferreira Gullar.
O poeta Ferreira Gullar.

Foi numa noite de 1975. Não lembro o mês. Foi em Buenos Aires. Tempos de exílio, tempos sombrios. Lembro que Eduardo Galeano ligou dizendo que encontraríamos um desconhecido que, diziam, era um grande poeta. Lembro de ter dito a ele que era, sim, um grande poeta.

Lembro que estava meu amigo Augusto Boal, com sua Cecilia. Lembro que havia mais argentinos: afinal, estávamos em Buenos Aires.

Lembro que era um apartamento modesto, na distante rua Hipólito Pueyrredón, não na elegante avenida Pueyrredón, que ficava perto de minha casa. Lembro que por isso me enganei de endereço. Lembro que por esse engano, Eduardo e eu chegamos tarde.

Mas o que mais me lembro, a imagem mais permanente na memória, é a de um homem triste. Naqueles meus anos jovens, eu nunca tinha visto alguém tão triste. Mais triste que Ferreira Gullar.

Tinha cabelos negros que caíam como um véu sombrio sobre seu rosto. Falava numa voz baixa e grave. De repente, ria um riso estranho. Um riso nervoso.

Ele vinha de muitos exílios, muitas derrotas. Vinha do Chile de Salvador Allende. Vinha do golpe traidor de Augusto Pinochet, vinha da morte de Allende. Vinha de sonhos frustrados, roubados. E perguntava, perguntava coisas, queria saber. Era como alguém que queria respirar vida.

Anos depois, muitos, voltamos a nos encontrar, no Brasil. E o que agora lembro eram nossos almoços na casa de Vera e Zelito Vianna, ou de quando ele vinha à minha casa, e eu cozinhava e ele gostava, ele e Claudia.

Ferreira Gullar, meu amigo que foi o ser vivo mais triste que vi na vida quando éramos jovens, quando vivíamos os anos jovens, foi também o último grande poeta do idioma que falamos no Brasil.

Era uma espécie de Juan Gelman em português, capaz de em uma ou duas ou três frases fazer desatar temporais de emoção, de vida.

Lembro da noite em que ele, com aquele ar mais triste e mais raivoso do mundo, leu:

Turvo, turvo

a turva

mão do sopro

contra o muro

escuro

Menos menos

menos que escuro

menos que mole e duro menor que fosso e muro: menos que furo

escuro

Era o começo do Poema sujo. Era só uma casa, um apartamento modesto na Buenos Aires dos nossos anos jovens. Era a vida, era o mundo.

Sim, sim, voltamos a nos encontrar, anos depois, no Brasil, neste Rio de todos os janeiros. E nos vimos um sem fim de vezes, na minha casa, na casa dele, na casa de Vera e Zelito Vianna.

Uma vez, ouvi dele uma frase definitiva. Gullar falava da poesia, da arte. E disse: "Por que a poesia, a arte? Porque a vida, só, não basta".

Outra vez, com meu filho Felipe, ouvi outra frase: "Ontem, tive uma discussão com a Claudia", que era sua derradeira e permanente namorada. "E ela foi embora, e num primeiro momento me senti cheio de razão. E aí cheguei à conclusão: eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz. E liguei para ela".

Foi talvez o último grande poeta não só do Brasil, mas do idioma português. Um dos últimos grandes poetas dessas comarcas que chamamos de América Latina.

Agora que ele se foi, dirão essas louvações, e muito mais.

Eu fico aqui lembrando sua figura esquis, seu corpo frágil, sua magreza quase mística, seus olhos faiscantes.

Fico lembrando daquela figura triste, triste, de um mês qualquer de 1975, numa Buenos Aires perdida para sempre. E que era capaz de escrever coisas assim:

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Outra parte de mim

é multidão:

outra parte, estranheza

e solidão

A última vez que ele e Cláudia vieram em casa, faz um bom tempo, preparei camarões. E depois dessa vez, quando nos víamos, ele dizia: "Cadê aqueles camarões?".

Essa, eu fiquei devendo.

Mas ele ficou me devendo muito mais. Ficou devendo aquela parte dele que era multidão.

 

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