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COLUNA

O grande vilão

O equívoco dos petistas foi acreditar que a elite brasileira iria aceitar tranquilamente as poucas, mas essenciais mudanças sociais que o partido fomentava

Ato promovido pelo Partido dos Trabalhadores, na Casa de Portugal, em São Paulo, em maio de 2016.
Ato promovido pelo Partido dos Trabalhadores, na Casa de Portugal, em São Paulo, em maio de 2016. CUT

O PT, sem dúvida alguma, foi o grande derrotado nas eleições municipais deste ano. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das 630 prefeituras conquistadas pelo partido em 2012, restaram apenas 256, um encolhimento de quase 60%. Parte da responsabilidade por essa derrocada pode e deve ser debitada à direção do partido, que ao longo de sua história abdicou de um projeto de governo por um projeto de poder — a constatação é do insuspeito Frei Betto —, assumindo sem constrangimento o sistema de troca de favores que baliza o exercício da política brasileira desde sempre. Outra parte, igualmente importante, no entanto, pode e deve ser debitada ao preconceito, à intolerância e à hipocrisia da nossa elite.

É inegável que, apesar de todas as falhas possíveis de serem apontadas — e que são muitas —, o período de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010) foi o melhor de toda a história nacional. Ricos e pobres usufruíram dos benefícios de um país cujo Produto Interno Bruto (PIB) crescia a uma taxa média de 4% ao ano, com inflação sob controle e baixo índice de desemprego (6,7% na média), o que proporcionou, e isto é o mais importante, uma diminuição radical da indigência por meio de programas de transferência de renda. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 30 milhões de pessoas deixaram a pobreza entre 2001 e 2009, um feito reconhecido internacionalmente, e que deu origem à chamada nova Classe C.

O problema é que, em nome de uma suposta governabilidade — problema real, mas contornável —, o PT fez concessões imensas aos velhos caciques, acreditando, em um misto de arrogância e estupidez, que poderia respirar o mesmo ar putrefato sem deixar-se contaminar por ele. O resultado é o que se viu: a gangrena que corrói historicamente o Estado brasileiro atingiu também membros do partido — encantados, uns, com o poder, outros, com o dinheiro fácil, chafurdaram todos no pântano da corrupção que sempre condenaram, violando o pacto ético que sustentava discurso e ação da militância.

Este, o erro imperdoável do PT, que jogou por terra os enormes esforços para a criação de um partido de esquerda não comunista, cujo objetivo final era erigir um Brasil mais justo, combatendo as absurdas diferenças sociais, o machismo, o racismo e a homofobia que nos envergonham, criando sistemas de educação e saúde dignos, elaborando políticas ambientais e indigenistas adequadas, colocando-nos enfim no centro das discussões geopolíticas mundiais. Mais uma vez observamos impotentes o protagonismo do Brasil escapar das nossas mãos, quando já o levávamos à boca, as pupilas gustativas excitadas pelo olor do futuro que adivinhávamos. Isto tudo tornou-se agora pó ou pesadelo nas mãos do presidente não eleito, o medíocre Michel Temer e seus asseclas, os que ocupam a tribuna do Legislativo, os que se investem da toga.

Se este foi o maior erro do PT, como instituição, o de volver-se em uma agremiação como outra qualquer, não foi menor o equívoco de Lula e dos petistas em acreditar que a elite brasileira iria aceitar tranquilamente as poucas, mas essenciais mudanças sociais que o partido fomentava. A elite brasileira nunca assimilou a ideia de ter de compartilhar as cadeiras das universidades com estudantes de classe média baixa que a alcançavam por meio de bolsas para alunos do ensino público ou por meio de cotas raciais. A elite brasileira nunca aceitou ter de compartilhar o espaço dos aeroportos — que viraram, segundo ela, extensão das rodoviárias —; nunca admitiu ter que conviver com pobres e afrodescendentes em shoppings e restaurantes e parques e ruas.

A elite brasileira derrubou a presidenta Dilma Rousseff porque não perdoa quem não saiba usar os talheres na sequência correta, não perdoa quem não sabe se portar em sociedade, não perdoa quem não tão berço, quem não tem nome de família, não perdoa quem não tenha todos os dentes — a elite brasileira considera que pobre é mal necessário, que deve existir apenas para servi-la e bajulá-la. E isso em todos os níveis: a elite brasileira não tolera quem entra pela porta dos fundos, seja na política, seja nas hostes literárias, seja no meio empresarial. Desses, ela quer distância!

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