Coluna
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O que dizem as urnas

Ao fim e ao cabo, ao abrir mão das “idiotices vitais” estamos matando os sonhos dos nossos filhos

O prefeito eleito de São Paulo pelo PSDB, João Doria, ao votar no domingo.
O prefeito eleito de São Paulo pelo PSDB, João Doria, ao votar no domingo.Nelson Antoine (AP)

Quando se analisam os resultados do primeiro turno das eleições municipais, comete-se o equívoco de tentar saber se o PT perdeu força, se o PSDB ampliou espaço, se o presidente não eleito Michel Temer influenciou o desempenho do PMDB. Na verdade, o que os números revelam, de maneira gritante, é a fragilidade da nossa jovem democracia. Quase 30% dos eleitores se abstiveram, anularam o voto ou votaram em branco – ou seja, um em cada três brasileiros não vê sentido em participar do sistema representativo ou não encontra, entre os candidatos, um que atenda suas exigências.

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O mais preocupante é que o contingente de insatisfação (votos brancos e nulos) ou desdém (abstenção) pela democracia vem crescendo ano a ano – de 20,6% em 2000 para 22,7% em 2008, 25,5% em 2012 e 28,9% este ano. Só para se ter uma ideia, o prefeito eleito em primeiro turno em São Paulo, João Dória Junior, do PSDB, recebeu cerca de 11 mil votos a menos que o total de votos não válidos – 3.096.304 contra 3.085.187. Do universo de eleitores aptos a votar, a grande maioria, 5,8 milhões, não o escolheu para comandar a maior cidade brasileira. Ou seja, dois terços dos paulistanos não se sentem representados pelo candidato tucano.

Em magnífica e rara entrevista, publicada em EL PAÍS de 4 de julho, um dos últimos grandes pensadores da nossa época, George Steiner, constata a existência atualmente de uma “gigantesca abdicação da política” e como isto é perigoso: “Por todos os lados, triunfam o regionalismo, o localismo, o nacionalismo... é o retorno dos vilarejos”. O filósofo afirma ainda que o que parece acalmar as pessoas que não acreditam mais em política é a violência: “Por isso é que o despotismo é o contrário da política”. Steiner ainda chama a atenção para o desprezo dos políticos em relação aos que não têm dinheiro – “para eles somos uns pobres idiotas” – e advoga a necessidade das utopias contra a ditadura das certezas: “As utopias são idiotices vitais”.

A elite brasileira, além de conservadora, é tacanha. A figura do presidente não eleito Michel Temer talvez projete com a maior clareza aquilo que Steiner chama de triunfo do localismo: político sem carisma, governante impopular, poeta medíocre e homem ridículo que necessita ostentar uma mulher 43 anos mais nova a tiracolo. Conspirando nos bastidores, aliado a deputados e senadores envolvidos em escândalos de corrupção, e secundado por um Judiciário comprometido, Temer patrocinou o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, que, por sua vez, vinha conduzindo uma administração desastrosa de todos os pontos de vista.

O PT, partido que governou o país por 14 anos consecutivos, nasceu de uma utopia. Uma das primeiras agremiações de esquerda não comunista do mundo, ao longo de sua história distanciou-se pouco a pouco de seus ideais reformistas – a construção de um mundo mais justo – e abraçou velhas formas de fazer política. Aliou-se, por um lado, a nomes atavicamente vinculados à dilapidação dos cofres públicos, e, por outro, instrumentalizou lideranças de movimentos sociais, anulando-os ou até mesmo destruindo-os. O resultado foi a desmoralização total do partido e de seus seguidores.

Apesar de toda a esculhambação que o petismo proporcionou ao termo “esquerda”, a ponto de boa parte da sociedade defender o fim dos limites ideológicos, os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, por conta de suas raízes utópicas, proporcionaram avanços sociais e econômicos importantíssimos. E esses modestos, mas fundamentais avanços estão sendo agora varridos para a lata de lixo da história. Ao fim e ao cabo, ao abrir mão das “idiotices vitais” estamos matando os sonhos dos nossos filhos, como alertou Steiner.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista. Escreve semanalmente no EL PAÍS.

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