Organização Mundial da Saúde

OMS pede imposto de 20% sobre bebidas açucaradas para “salvar vidas”

A agência de saúde das Nações Unidas defende a taxa para combater a epidemia global de obesidade

Homem toma refrigerante no México, país que já tem um imposto sobre bebidas açucaradas.EDGARD GARRIDO (REUTERS) / EL PAÍS VÍDEO

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) das Nações Unidas lançou um apelo global nesta terça-feira para que todos os países cobrem impostos sobre bebidas açucaradas e, assim, reduzam a atual epidemia de obesidade e diabetes, que afeta centenas de milhões de pessoas e é particularmente preocupante entre crianças.

Segundo a OMS, um imposto que aumente o preço de bebidas açucaradas em 20% resultaria em reduções semelhantes no consumo dessas substâncias, de acordo com um relatório preparado por especialistas da organização este ano. Nesta terça-feira, 11 de outubro, é celebrado o Dia Mundial de Combate à Obesidade.

O apelo da OMS ocorre um dia depois que um estudo conduzido por pesquisadores nos EUA revelou que a Coca-Cola e a Pepsi têm direcionado dezenas de milhões de dólares para organizações de saúde para limpar a imagem das empresas e enfraquecer o apoio às leis que impõem impostos sobre essas bebidas.

“Do ponto de vista nutricional, as pessoas não precisam de açúcar em suas dietas”, disse Francesco Branca, diretor de Nutrição, Saúde e Desenvolvimento da OMS, em um comunicado divulgado pela instituição. “A OMS recomenda que, se as pessoas consumirem açúcares livres, mantenham a ingestão abaixo de 10% de suas necessidades energéticas gerais e a reduzam para menos de 5% para obter benefícios adicionais para a saúde”, destaca Branca. Uma única lata convencional de refrigerante contém mais de 100% de todos os açúcares livres considerados como ideais pela OMS para um dia.

Do um ponto de vista nutricional, as pessoas não precisam de açúcar em suas dietas

Os açúcares livres incluem a glicose, a frutose ou açúcar de mesa que são adicionados artificialmente às bebidas e às refeições, bem como aqueles que estão naturalmente em produtos tais como o mel ou sucos.

“O consumo de açúcares livres, incluindo bebidas açucaradas, é um dos principais fatores por trás do aumento global de pessoas que sofrem de obesidade e diabetes”, disse Douglas Bettcher, diretor de Prevenção de Doenças Não Infecciosas da OMS. “Se os governos cobrarem impostos sobre produtos como bebidas açucaradas, podem reduzir o sofrimento e salvar vidas”, acrescentou. Além disso, destaca a OMS, esses impostos reduzem o custo do tratamento que essas doenças geram para o sistema de saúde e resultariam em um fundo que poderia ser gasto em políticas adicionais de promoção da saúde.

O apelo da OMS tenta frear uma epidemia de obesidade de proporções globais, devido ao consumo de gorduras e açúcares e a um estilo de vida sedentário. Um em cada três adultos no mundo está acima do peso, e a prevalência da obesidade dobrou desde 1980. A situação é particularmente preocupante entre os mais jovens. Em menos de 15 anos, o número de crianças com menos de 5 anos que estão acima do peso ou obesas aumentou em 11 milhões, chegando a 41 milhões.

Coincidindo com o Dia Mundial de Combate à Obesidade, a OMS também alerta para o avanço da diabetes, outra doença relacionada com o elevado consumo de açúcares e sedentarismo e que todos os anos mata 1,5 milhão de pessoas. Ao mesmo tempo, os altos níveis de glicose no sangue eliminam cerca de 2,2 milhões de vidas.

O documento da OMS reúne dados de 11 revisões sistemáticas de estudos científicos sobre a eficácia dos impostos e outras medidas fiscais em relação ao problema. Os resultados, diz a OMS, mostram que os impostos sobre os alimentos ricos em gordura, açúcar e sal parecem “promissores”, e “há indícios mostrando claramente que aumentar o preço desses produtos reduz seu consumo”. Os impostos semelhantes aos já aplicados sobre o tabaco “são provavelmente os mais eficazes”, destaca o braço de saúde da ONU.

Os impostos semelhantes aos aplicados sobre o tabaco “são provavelmente os mais eficazes”

A OMS recomenda seguir o exemplo de países que já aplicam essas taxas, como o México. As autoridades de saúde do país afirmam que o consumo desses produtos já foi reduzido após a cobrança dos impostos. A Hungria já tem um imposto sobre produtos com elevado teor de açúcar, sal ou cafeína, e o Reino Unido vai impor um imposto sobre refrigerantes a partir de 2018.

A indústria do açúcar, em geral, e os grandes fabricantes de refrigerantes como a Coca-Cola, em particular, argumentam que os impostos não mudam o comportamento das pessoas e não reduzem seu consumo. A Associação de Refrigerantes da Espanha afirmou nesta terça-feira em um comunicado “que esse tipo de taxa seria injusta e regressiva, porque seria imposta a todos, obesos ou não, e puniria especialmente a população com menos recursos”.

O estudo publicado na segunda-feira revelou que a Coca-Cola e a Pepsi Co., duas das maiores fabricantes mundiais de bebidas açucaradas, gastaram dezenas de milhões de dólares em pagamentos a organizações de saúde para tentar evitar a cobrança de impostos sobre seus produtos. Na Espanha, a Embaixada dos Estados Unidos pressionou a Generalitat da Catalunha para desistir da cobrança de um imposto sobre refrigerantes.

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