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“Temer sai empoderado para implementar suas reformas impopulares”

Para sociólogo Wagner Iglecias, da USP, resultado das municipais mostra guinada à direita, mas tempo útil de Temer é curto

Wagner Iglecias, sociólogo e professor da USP, no campus universitário, na zona oeste de São Paulo.
Wagner Iglecias, sociólogo e professor da USP, no campus universitário, na zona oeste de São Paulo.

As eleições municipais 2016 foram um importante teste de poder para as principais forças políticas do Brasil. Divulgados os resultados do primeiro turno, algumas conclusões ficaram claras: os brasileiros estão mais cansados do que nunca da política; o PT derreteu (perdeu mais da metade das prefeituras que comandava); os partidos de centro-direita se fortaleceram (o PMDB elegeu o maior número de prefeitos no país, enquanto PSDB foi o que mais cresceu em comparação com 2012); e o Brasil consolidou a guinada conservadora que já sinalizava há algum tempo que daria. Os números das urnas apontam não só alguns caminhos desses personagens rumo a 2018, mas também até onde o Governo Michel Temer (PMDB) pode ir, em termos de apoio popular, para implementar medidas de austeridade. "O conjunto de ideias que o PMDB e o PSDB representa saiu claramente vitorioso", avalia o sociólogo Wagner Iglecias, 43, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). Na avaliação dele, porém, o tempo de Temer é curto. A seguir, a entrevista concedida ao EL PAÍS.

Pergunta. Embora os dois partidos tenham sido protagonistas da crise política e alvo da Lava Jato, o PT saiu menor das nas eleições municipais, mas o PMDB se manteve estável em número de prefeituras, aliás, com o maior número de prefeitos eleitos no Brasil. O presidente Michel Temer saiu ganhando?

Resposta. O PMDB é o partido mais capilarizado do Brasil, que mais uma vez foi o que mais conquistou prefeituras em pequenos e médios municípios. Mas ele tem uma dificuldade grande de conquistar grandes centros. Para o presidente Michel Temer teria sido interessante se o PMDB tivesse vencido em mais capitais ou em mais cidades importantes, se o partido tivesse superado esse perfil tradicional dele, mas não superou. O PMDB continua sendo o partido dos grotões, das pequenas cidades. Por outro lado, muitos parlamentares do PMDB mantiveram a base eleitoral nesses pequenos e médios municípios. O PMDB, pelo menos, conseguiu manter o patrimônio político que tinha.

P. Rio e São Paulo foram grandes derrotas para o presidente Temer, que foi o principal fiador da ida da Marta Suplicy ao PMDB: foi ele quem mais apostou que ela poderia se eleger prefeita de São Paulo — e ela terminou em quarto lugar. Como fica a briga por poder dentro do partido agora?

R. É difícil precisar nesse momento qual corrente peemedebista saiu mais forte. O PMDB são muitos. Há dois meses, a Marta parecia uma aposta muito mais certa que a aposta que o Geraldo Alckmin fez ao investir na candidatura do João Doria, que era um cara de fora da política, praticamente um desconhecido. Então, de fato, o prejuízo do Temer em São Paulo é muito grande. Ele não só levou a Marta para o PMDB, como apostou em sua candidatura e conseguiu costurar ao redor dela uma aposta com o Kassab [do PSD], com o Fernando Henrique Cardoso, com o José Serra... Então, de fato, São Paulo foi uma derrota para o grupo do Temer. Mas no Rio, por outro lado, quem perdeu foi o grupo do Sérgio Cabral e do Eduardo Paes. O PMDB, que é um partido de centro que dominava o Estado e a prefeitura, não avançou e quem vai para o segundo turno é a direita e a esquerda.

P. Mas uma vitória do PMDB em São Paulo era importante para o projeto do partido de lançar uma candidatura própria à presidência da República em 2018. Como fica essa questão agora?

"Antes o Lula elegia qualquer pessoa. Agora ele não elege nem o filho em São Bernardo"

R. Até 2018, o PMDB tem duas coisas para se preocupar: com a profundidade das investigações da Lava Jato, que podem atingir daqui a pouco figuras importantes do PMDB, como o Renan, o Jucá, o próprio Temer... Todos estão na alça de mira da Polícia Federal e podem vir a ser analisados de uma forma mais complicada. E também depende de como o Governo conduzirá as reformas econômicas que ele se propôs a fazer. Se implementar reformas duras, que cortem investimentos do Governo, terá o apoio do grande empresariado, do mercado financeiro, do PSDB... Mas se ele ceder à fisiologia, aos gastos, que é uma característica importante do PMDB — esse PMDB que controla as pequenas cidades, que necessita muito do Estado, que precisa muito de cargos públicos, enfim, esse PMDB tradicional —, se o Temer ceder a isso, ele vai ter uma espada sobre a cabeça, que é a possibilidade de ser afastado pela campanha de 2014. Agora, caso ele consiga fazer um bom Governo; retome algum nível de crescimento econômico do país; consiga se livrar dessa questão da ficha suja — porque ele foi condenado em São Paulo, mas pode ser absolvido no Supremo —; melhore sua popularidade, ele próprio pode ser o candidato do PMDB em 2018. Mas acho muito difícil ele conseguir fazer tudo isso até 2018...

"À medida que a população sentir que a situação não melhora, Governo pode esperar instabilidade social" 

P. Há quem diga que o José Serra [ex-governador de São Paulo pelo PSDB e atual ministro das Relações Exteriores] pode ser o candidato do PMDB, já que ele disputa com o Aécio Neves e com o Alckmin a indicação tucana. O cenário Serra versus Alckmin em 2018 é uma possibilidade real?

R. É uma aposta real. Desde 2014, falava-se que mesmo se o Aécio não ganhasse a eleição contra a Dilma, ele ainda seria o nome mais forte do PSDB. Assim, o Serra poderia ir para o PMDB e o Alckmin para o PSB, que buscava um nome depois da morte do Eduardo Campos. Era esse o cenário que estava se configurando até no ano passado. Mas o Aécio foi muito delatado por vários dos investigados na Lava Jato e se enfraqueceu. O Alckmin, que não tinha se fortalecido tanto, saiu maior com a vitória do Doria em São Paulo e, de fato, hoje eu apostaria que a candidatura do PSDB vai ficar pro Alckmin mesmo. E aí essa possibilidade de o Serra sair do PSDB, é real. E tem que ser logo, porque o Serra tem um projeto pessoal muito forte de ser presidente e tem a questão da idade dele, ele é mais velho que os outros. Mas o Aécio já deu declarações sinalizando que várias lideranças do PSDB ganharam no primeiro turno, não só o Alckmin, e que seria interessante fazer as prévias do partido. O recado foi: o Alckmin não vai ser o candidato natural do partido. Vai ter luta aí...

P. Em São Paulo, o Doria foi eleito no primeiro turno batendo muito na tecla de que não é político. No Rio, dois nomes relativamente novos vão se enfrentar [o Marcelo Crivella, do PRB, e o Marcelo Freixo, do PSOL]. Falou-se muito de cansaço do eleitor, mas políticos tradicionais ganharam em várias cidades. Que conclusões você tira disso?

"Neste momento, há um projeto, dos inimigos do PT, de criminalizar o que foi o Governo Lula"

R. Desde a ditadura militar, os movimentos por redemocratização por Diretas Já, o nascimento do PT como uma força política nova nos anos 80, o surgimento do próprio PSDB no final dos anos 80, enfim, todas essas renovações políticas sempre se deram primeiro nos grandes centros e depois foram se espalhando pelo interior do país. Esse cansaço que o eleitorado está mostrando é mais forte nos grandes centros, mas São Paulo e Rio mostram uma tendência. Por exemplo, na Bahia, foi eleito o neto do Antonio Carlos Magalhães [ACM Neto, reeleito prefeito de Salvador]. Em Pernambuco, foi para o segundo turno no Recife o candidato apoiado pela família Campos. Em Curitiba, estão apostando no Rafael Greca, que já foi prefeito lá nos anos 90... Então, embora haja esse cansaço político, talvez em outras cidades ainda não exista ainda uma força nova suficientemente articulada para representar esse desejo de mudança. Agora, o Doria se vende como uma nova política, mas ele é da política tradicional. Ele é ligado ao Alckmin, que faz a velha política. Na verdade, ele não é uma novidade. Mas o discurso dele é diferente. E a população gostou disso. Como está acontecendo na Europa... A gente tem mudanças e inovações na esquerda, mas também novidades na direita. Há um discurso de direita novo ganhando força, o que ficou claro com a vitória do Doria.

P. O mercado comemorou a vitória do Doria e o enfraquecimento do PT. Mas podemos dizer que o Temer pode esperar apoio popular às medidas de ajuste que o mercado espera do Governo?

"O conjunto de ideias que o PMDB e o PSDB representa saiu claramente vitorioso"

R. A população apoia medidas econômicas duras enquanto tem esperança de que aquilo é um esforço passageiro pra depois vir uma situação melhor. Agora, uma coisa é a expectativa, que dura alguns meses, outra coisa é o dia a dia, o bolso das pessoas. Muita gente apoiou a queda da Dilma não só pela questão da corrupção, mas também porque a situação econômica está muito ruim pra muita gente. Pra essas reformas que o Temer quer fazer, acho que ele está empoderado. Embora o PMDB não tenha ganho grandes centros, o conjunto de ideias que o PMDB e o PSDB representam saíram claramente vitoriosos dessa eleição. Então isso dá um fôlego, dá um gás, pra base do Temer implantar essas reformas, esses ajustes impopulares.

Agora, se daqui a seis meses, daqui a um ano, as coisas continuarem como estão, aí começa a complicar... O mercado está muito esperando do Temer que implemente essas reformas, que congele gasto social e destine mais recursos pra rolagem da dívida pública. O problema é que tem que combinar isso com a população. À medida que ela for sentindo que a situação não melhora, aí você pode esperar por manifestações de rua, distúrbios, as periferias se levantando, ocupações de prédios públicos, ocupações no campo... Os movimentos sociais já deram sinais de que estão se rearticulando e que vai haver resistência. E agora sem a amarra do PT. O PT cooptou e controlou muito os movimentos sociais por muito tempo, mas agora não vai mais ser assim, porque o PT está desmoralizado, então não se sabe ainda como os movimentos vão agir daqui pra frente. E, neste contexto de instabilidade social, pode ser que haja uma repressão forte do Estado. Então o tempo do Temer é muito curto.

P. O movimentos que puxaram os protestos pró-impeachment elegeram alguns representares  políticos pelo Brasil: o MBL elegeu sete vereadores e um prefeito, enquanto que outras lideranças de esquerda, que protagonizaram os protestos de junho de 2013, não emplacaram tantas candidaturas...

"O Aécio já sinalizou que quer prévias e o Alckmin o não vai ser o candidato natural do partido. Vai ter luta aí"

R. Complicada. A Bancada Ativista, por exemplo, que eram candidatos e candidatas de partidos de esquerda, e que vinham dos movimentos de 2013, elegeram só uma vereadora em São Paulo [a Sâmia Bomfim, do PSOL]. Enquanto o Vem pra Rua, o MBL, esses movimentos pró-impeachment, foram muito mais bem sucedidos nessa eleição. Isso está ligado à queda do PT, que não só caiu em números de prefeituras, mas mais que isso, perdeu prefeituras importantes. Perdeu força política e perdeu orçamento. Perdeu São Paulo, perdeu Guarulhos, que é a segunda cidade de São Paulo em população e arrecadação (porque tem o aeroporto... É claro que o país está dando uma guinada direita, sem dúvida nenhuma. Isso você não vê não só nas eleições, vê na sociedade, no dia a dia.

P. Qual a alternativa para os movimentos de esquerda agora?

R. Provavelmente, uma saída para a reorganização da esquerda deve ser pela formação de uma frente progressista, onde o PT já não lidere mais, onde ele vai ter que dialogar com outros setores, com essa garotada nova, com os secundaristas, com o movimento feminista, com o movimento LGBT... O PT nunca foi refratário ao diálogo, esses setores sempre existiram dentro do partido. Mas agora vai ter que dialogar numa situação de mais horizontalidade. Mas esse é um processo que não se forma em um ano, dois anos... Essa frente vai levar uns 5 ou 10 anos pra ter novas lideranças consolidadas, pra ter viabilidade eleitoral.

P. E a Rede e o PSOL?

"O PSOL está crescendo e vai ocupando faixas dos eleitorados que o PT tinha. Mas tem pouco enraizamento popular, tem um teto"

R. Infelizmente pra Rede, ela ainda está muito focada na pessoa da Marina Silva. A Rede se confunde muito com a pessoa dela, qie tem um patrimônio eleitoral grande, de 20 milhões de votos que ela teve em duas eleições. No entanto, a Marina se esconde muito em momentos importantes. E isso prejudica a formação da Rede, que ainda tem uma densidade social muito pequena. A Rede há tenta a presidência da República, mas não consegue eleger vereador na cidade de São Paulo.

Já o PSOL está crescendo. Acho que não ganha a eleição no Rio, porque a zona oeste do Rio vota em peso na direita, mas o Freixo, com 10 segundos de propaganda eleitoral, sem poder participar de um dos debates, conseguir ter ido pro segundo turno já é uma vitória. Independente de ganhar ou perder a eleição, ele já sai como uma liderança da esquerda. E o PSOL vai ocupando assim faixas dos eleitorados que o PT tinha. Mas o PSOL sofre ainda com o que a Rede sofre, que é ter muito apoio de alguns setores, como a academia, mas tem pouco enraizamento popular.

P. Você comentou que o PT praticamente derreteu. Como fica o partido agora, nesse cenário?

"O PMDB implodiu no Rio de Janeiro"

R. O PT precisa passar por uma depuração, uma reorganização. O PT caiu muito por conta da Lava Jato, mas muito também porque foi extremamente bombardeado pela grande imprensa. Tanto que muitos partidos estão sendo investigados, mas o desgaste ficou centralizado no PT. O Lula, de novo ele, tem dito muito que o PT precisa de um nome novo na Executiva, na presidência do partido. Que pode até ser o Haddad esse nome novo, que é um cara mais arejado do que aquelas velhas lideranças da máquina partidária do PT. Mas o Lula ainda crê, numa aposta muito enganada, numa reconciliação com a burguesia brasileira, na possibilidade de poder voltar e fazer um governo de pactuação de classes. O problema é que a burguesia não precisa mais do Lula. Não quer mais o PT. As pesquisas mostram que o Lula seria hoje o primeiro colocado num primeiro turno em 2018, mas no segundo turno já seria mais difícil. Basta ver que ele perdeu as eleições em São Paulo, no Nordeste, mas ele não conseguiu nem eleger o filho dele vereador em São Bernardo. Antes o Lula elegia qualquer pessoa, agora ele não elege nem o filho em São Bernardo. Então o capital político dele está sendo derretido.

P. Mas a impressão que dá é que o PT nem trabalha com nomes alternativos para 2018...

R. Não trabalha. O Lula foi candidato pela primeira vez para a presidência em 1989. De 1989 para 2018 são 29 anos depois. É claro que o Lula é uma figura dessas que aparece a cada 50 anos na história de um país. É um líder carismática incontestável, gostemos dele ou não. É a figura mais popular provavelmente desde o Getúlio Vargas, com um poder de arrebatar as massas. O Fernando Haddad, se tivesse ganhado as eleições em 2016, poderia ter se projetado para 2018. Mas ele não ganhou e agora tem que andar umas casas pra trás nesse tabuleiro. Então uma parte da esquerda ainda quer o Lula, como um velho Vargas, um velho Perón, que volta anos depois... Mas neste momento, há um projeto, dos inimigos do PT, de criminalizar o que foi o Governo Lula, que teve deméritos, mas teve qualidades importantes também... Então uma outra parte da esquerda vai tentar essa frente, uma frente heterogênea com vários setores, e que a liderança vai surgir de um embate mais horizontal. Mas hoje não existem nomes. Nem no PT e nem na esquerda em geral. Fala-se do Ciro Gomes, do Roberto Requião, do Flávio Dino, o Guilherme Boulos, os próprios Freixo e o Haddad... Mas não sei se o nome deles não tem um teto. E a esquerda precisaria de um nome nacional, mas não tem ninguém. Até porque vários nomes do PT foram sendo destruídos ao longo do tempo: o José Dirceu, o José Genoino, o Antonio Palocci... A Dilma foi escolhida depois que vários nomes foram destruídos. Todas as lideranças do PT foram sendo derrubadas, do ponto de vista eleitoral. Sobrou o Lula, que está sendo derrubado agora como alternativa eleitoral.

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