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Eles saíram das ruas direto para as câmaras municipais

Movimentos pró-impeachment e lideranças comunitárias elegem vereadores e prefeitos país afora

Janaína Lima em protesto contra o Governo Dilma.

"Eu quero trazer para vocês ela, que participa do movimento Vem Pra Rua desde o começo, que nasceu no Jardim Irene, na zona Sul de São Paulo, se autoalfabetizou aos 4, já exercia papel de liderança local aos 7, começou a ajudar outros a se alfabetizarem aos 10 e é uma prova viva de que, mesmo que você não tenha recursos, a tua vontade é maior do que qualquer limitação; com vocês, do Jardim Irene, do Capão Redondo, da periferia de São Paulo: Janaína Lima", anunciou do alto de um caminhão de som Rogério Chequer, o líder do Movimento Vem pra Rua, no início da noite de 16 de agosto de 2015. Pouco mais de um ano após aquele protesto contra o Governo Dilma Rousseff, Janaína Lima, porta-voz daquele movimento, recebeu 19.000 votos e se tornou a primeira vereadora eleita pelo partido Novo em São Paulo.

Janaína é uma dos quatro vereadores que o liberal partido Novo conseguiu eleger no Brasil (em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Porto Alegre) apenas um ano depois de conseguir seu registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em sintonia com a proposta de redução do Estado de sua legenda, Janaína anunciou que cortará metade da sua verba de gabinete e abrirá mão do regime previdenciário especial, do carro e das demais verbas indenizatórias que o cargo lhe garante. A pauta econômica tem prioridade em seu discurso — assim como no do partido —, mas ela promete atenção especial à educação e um "mandato participativo", com "embaixadores" espalhados pelos bairros da cidade.

Não é do Vem pra Rua, contudo, o melhor desempenho de movimentos de rua nestas eleições. Embora também se dissesse apartidário como o primeiro, o Movimento Brasil Livre (MBL) buscou partidos para se aliar e conseguiu eleger oito candidatos dos 45 que lançou às urnas, por partidos como PV, PSDB, PRB e DEM. Sete deles foram eleitos vereadores, em cidades como Maringá (PR), onde Homero Marchese (PV) foi o mais votado, e São Paulo, onde Fernando Holiday (DEM), um dos protagonistas do movimento, conseguiu 48.000 votos e uma expressiva décima terceira colocação nas urnas. O MBL celebra ainda a vitória do futuro prefeito de Monte Sião (MG), Zé Pocal (PPS).

A chegada à política partidária de representantes dos movimentos que combateram o PT nas ruas promete emoções fortes nas câmaras municipais nos próximos anos. Fernando Holiday, por exemplo, já se comprometeu a apoiar o corte da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e da Coordenação de políticas para LGBT, prometido pelo prefeito eleito de São Paulo João Doria (PSDB). Em vídeo publicado na página do MBL no Facebook nesta terça-feira, Holiday diz que, "enquanto negro", não viu "nenhuma vantagem nessa secretaria e, de fato, ela nunca ajudou a combater o racismo". Para o vereador eleito, a secretaria implementou "uma política segregacionista, que trouxe mais divisão à cidade de São Paulo", e "os negros e gays não devem ter nenhum direito a menos, mas também não devem ter nenhum direito a mais".

Do outro lado

As ruas não levaram às câmaras municipais apenas de opositores dos governos petistas ou candidatos mais alinhados à direita. A futura Câmara Municipal de São Paulo também contará com Samia Bomfim, a primeira mulher eleita pelo PSOL para o posto. Samia participou dos protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento do preço da passagem de ônibus em junho de 2013, que acabariam tendo a pauta ampliada com o passar dos dias. "Vai ter muita luta nos próximos anos. Não vamos dar um dia de descanso para João Doria. E nosso mandato será uma trincheira para as lutas do povo!", promete a vereadora eleita em seu perfil no Facebook.

Em Belo Horizonte, a vereadora mais votada também se elegeu pelo PSOL. Áurea Carolina participa de um movimento chamado Muit@s e será a primeira representante de seu partido na capital mineira. Ela postou trecho de entrevista concedida a um blog sobre como deve ser seu mandato: "Minha plataforma está focada na transversalidade de gênero e raça em todas as políticas públicas. (...) Também apoio a discussão séria sobre gênero e sexualidade dentro das escolas, pois esse é um debate fundamental para a formação cidadã dos estudantes".

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