CÚPULA ANUAL FMI

FMI teme onda de populismo puxada por fragilidade da economia global

A freada dos Estados Unidos e o efeito ‘Brexit’ pesam sobre as economias desenvolvidas

Transeúntes passam em frente à sede do FMI em Washington.
Transeúntes passam em frente à sede do FMI em Washington.ZACH GIBSON (AFP)

A reunião do FMI inicia com a recente vitória do não no referendo do acordo de paz com as FARC na Colômbia; o processo do Brexit começando a tomar forma; e a possibilidade de que um candidato outsider, contrário aos tratados comerciais vigentes e muito crítico em relação à imigração, governe os Estados Unidos em 2017: Donald Trump. Esses três fenômenos apenas têm em comum o fato de que surpreenderam as grandes instituições ao redor do mundo em um momento de mudanças e destilam rebeldia contra o discurso das elites.

Há preocupação em Washington. O relatório do FMI deu uma boa tesourada nas estimativas para a primeira economia do mundo: o Fundo calcula um crescimento de 1,6% este ano nos EUA, 0,6 ponto percentual a menos do que o esperado em julho, e de 1,8% em 2017, 0,3 ponto percentual a menos. Para o Reino Unido, o FMI já havia aplicado um ajuste devido ao resultado do referendo em sua revisão de julho: desta vez sobe em 0,1 ponto percentual a previsão de crescimento do PIB em 2016 (até 1,8%), mas corta outro 0,1 p.p. para 2017 (1,1%) .

O PIB mundial avançará 3,1% este ano, o mesmo que o esperado em julho, 0,1 ponto percentual a menos que no ano anterior, que já foi um desempenho fraco, mas, se países em crise como Brasil e Rússia mostrarem uma reação, a taxa pode subir para 3,4% em 2017. A China, o gigante asiático, também diminuirá o ritmo de expansão em relação a 2015: deve crescer 6,6% este ano e 6,2% em 2017, segundo cálculos do FMI.

Ainda assim, a desaceleração da economia global tem preocupado o FMI há alguns anos. O que veio depois da Grande Recessão, uma recuperação anêmica e alerta permanente devido à instabilidade política, está durando tanto que pode se transformar em algo mais sério. O Fundo alerta que o “fantasma” de uma estagnação persistente, especialmente nas economias avançadas, “pode incentivar os movimentos populistas para restringir o comércio e a imigração”.

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“O voto do Brexit reflete um ressentimento contra a migração transfronteiriça que tem alimentado o nacionalismo na Europa e questionado a integração europeia”, disse nesta terça-feira o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld. “Tensões semelhantes afetam o cenário político dos Estados Unidos, onde a retórica anticomércio e anti-imigração tem se destacado desde o início da campanha eleitoral.”

Além de Trump

Os alertas contra uma onda protecionista têm muito a ver com Donald Trump — o magnata e candidato republicano à Casa Branca —, mas não só com ele. E não apenas com os Estados Unidos. Tanto na primeira potência econômica quanto na Europa aumentaram as vozes políticas e sociais contrárias ao futuro Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês), cuja negociação está num beco sem saída. E o Acordo de Associação Transpacífico (TPP, na sigla em inglês) assinado por Barack Obama está sendo questionado na campanha presidencial nos EUA: Trump tem ameaçado anular o tratado e a democrata Hillary Clinton também acredita que deva ser alterado.

“Atrasar o relógio em termos de comércio só pode agravar e prolongar a fraqueza da economia”, disse Obstfeld. Mas a globalização tem incentivado o deslocamento industrial para países onde a mão de obra é mais barata, e a classe média das economias avançadas (e, portanto, mais caras) tem sofrido a destruição do outrora bem remunerado emprego.

A China, o gigante asiático, também diminuirá o ritmo de expansão em relação a 2015: deve crescer 6,6% este ano e 6,2% em 2017

É por isso que o Fundo também faz um apelo para o combate à desigualdade e, em países como os Estados Unidos, para o aumento do salário mínimo. Porque os baixos salários também freiam o crescimento de uma economia tão apoiada no consumo.

Desaceleração na zona do euro

As estimativas do FMI apontam que a zona do euro crescerá 1,7% este ano e 1,5% em 2017, em comparação com os 2% em 2015, de modo que o Fundo acredita que o Banco Central Europeu deve manter seus fortes estímulos monetários e inclusive pensar em reforçá-los se as coisas não melhorarem. Já o Japão, a terceira potência mundial, só deve crescer 0,5% em 2016 e cerca de 0,6% em 2017.

As economias emergentes trazem notícias um pouco mais positivas, porque o crescimento do grupo se acelera pela primeira vez em seis anos, de 4,2% este ano para 4,6% em 2017. Apesar de não ser o suficiente.

O Fundo passou anos esperando que o impulso das economias emergentes compensasse um relaxamento estrutural da taxa de expansão das economias mais maduras, mas isso não aconteceu. Não é apenas o problema que a recuperação da grande crise de 2008 tenha sido frágil, mas também que a capacidade do mundo para crescer diminuiu. Se compararmos com a média para o período 1998-2007, espera-se que o crescimento potencial a longo prazo (o que uma economia pode crescer se todos seus recursos forem utilizados) seja o mais baixo em todas as regiões, sem exceção.