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Crise no Brasil leva a América Latina a uma recessão mais severa, diz FMI

Região terá retração de 0,6% este ano por causa da crise no país, cujo PIB deverá cair 3,3% em 2016

Christine Lagarde em um evento com a imprensa
Christine Lagarde em um evento com a imprensaZACH GIBSON (AFP)

O espectro do persistente estancamento da economia global continua vivo. Essa incerteza se reflete nas últimas previsões para todas as regiões do planeta que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou na manhã desta terça-feira. A América Latina sofrerá uma retração de 0,6% este ano, dois décimos a mais do que foi previsto há apenas três meses. Três fatores principais contribuem para esse cenário: a provável queda de 3,3% do PIB brasileiro, os modestos resultados da economia mexicana e o tombo de 10% da economia venezuelana. De qualquer forma, o organismo ainda está confiante de que a região consiga fazer uma retomada até alcançar um crescimento de 1,6% em 2017.

De maneira geral, a recuperação está sendo precária, como destaca Maurice Obstfeld, conselheiro econômico do Fundo. A projeção é que a economia global se expanda a um ritmo de 3,1% este ano e de 3,4% no próximo ano, como já foi antecipado em julho. A boa notícia é que o crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento deve se acelerar pela primeira vez em seis anos, alcançando 4,2% em 2016 e daí subindo para 4,6% em 2017. Mas o potencial a longo prazo é menor.

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Como indica Obstfeld, o ritmo atual de expansão ainda é baixo em todo o mundo, especialmente no grupo dos países em desenvolvimento. “O crescimento dessas economias continuará sendo desigual e, em geral, fraco”, adverte. É verdade que as tensões externas se moderaram graças às expectativas de juros baixos nas economias avançadas. Mas há muitas peças ainda em movimento pressionando para a redução da atividade econômica.

Esses desequilíbrios afloram quando fracionados os dados para a América Latina país a país. A recuperação prevista para o ano que vem na região se justifica porque as condições na maior potência do continente começam a se estabilizar. O Brasil deve sofrer uma contração de 3,3% este ano, como o Fundo antecipou em julho. A partir daí, o país vai se recuperar e retomar o caminho do crescimento, para registrar uma expansão de 0,5% em 2017, também como foi indicado há três meses.

O FMI admite que a redução da tensão e da incerteza política teve um efeito positivo na evolução econômica. O órgão também observa que o país se recupera dos choques sofridos pela queda no preço das matérias-primas. Mas os técnicos consideram imperativo reforçar a confiança para se afastar do estancamento, com medidas que incentivem o investimento em sua economia.

Reformas estruturais

Já o México vê como seu crescimento cai quatro décimos na previsão para este ano e três décimos para o ano que vem. O FMI agora calcula uma expansão de 2,1% para a segunda economia da região em 2016, o que representa uma desaceleração em relação aos 2,5% previstos no último trimestre. Isso se explica pelo fraco rendimento das exportações na primeira metade do ano. O rebote deve ser modesto, de apenas dois décimos, a 2,3% em 2017. Mas, a médio prazo, poderá chegar a 2,9%, quando as reformas estruturais comecem a dar seus frutos.

A Venezuela é, de longe, o país com mais problemas. Sua economia deve se contrair 10% este ano e 4,5% no próximo, que se somarão aos 6,2% de crescimento negativo durante o ano de 2015. Nesse caso nada muda em relação à proteção de julho. Outra economia que está em recessão é a equatoriana, com uma retração de 2,3% em 2016 que se agravará quatro décimos em 2017. Em ambos os países, a evolução do quadro vai depender do comportamento do setor de energia.

Já a Argentina acaba de iniciar um processo de transição em direção a mais um marco de sua política econômica. O custo de sua aplicação, no entanto, é maior do que o esperado. Isso fará com que o rendimento de sua economia seja pior do que o previsto. Este ano, o país deve se contrair 1,8%, dois décimos a mais do que foi anunciado em julho. De qualquer forma, o crescimento será reforçado até conseguir chegar a uma expansão de 2,7%, semelhante à que a Colômbia deve ter.

Fortalecer o crescimento

Assim como outros exportadores de matérias-primas, a economia colombiana sofrerá uma desaceleração, dos 3,1% de 2015 para 2,2% em 2016. São três décimos a menos do que foi previsto em julho. O mesmo ocorre com o Chile, cujo crescimento cai para 1,7% este ano depois de 2,3% no ano passado. O Peru se destaca do resto com um sólido crescimento de 3,7% no período atual, e que deve superar os 4% em 2017 graças à atividade do setor minerador e ao investimento público.

O FMI considera que a taxa de câmbio é a primeira linha de defesa que essas economias possuem para enfrentar a incerteza global. A passagem das fortes desvalorizações para a inflação está sendo relativamente limitada. As medidas fiscais, no entanto, dão pouca margem. A prioridade é orientar as políticas na direção de setores que permitam reforçar o crescimento potencial. “É um bom momento para investir em infraestrutura e educação”, conclui Obstfeld.

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