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Saída da União Europeia seduz a Inglaterra multicultural

Minorias étnicas tendem a ser partidárias da permanência, que será votada nesta quinta-feira

Nigel Farage, líder do antieuropeu UKIP, em uma loja de Birmingham.
Nigel Farage, líder do antieuropeu UKIP, em uma loja de Birmingham. Getty

Os poloneses vendedores de frutas anunciam sua mercadoria aos gritos na manhã ensolarada. Mulheres com sáris coloridos disputam a cotoveladas as ofertas em uma banca de tecidos. Os homens sikhs, com longas barbas brancas e turbantes, conversam sentados nos bancos de pedra da praça. Açougues halal, mercearias jamaicanas. É dia de mercado na rua principal de West Bromwich, um subúrbio a noroeste de Birmingham, bem no centro da Inglaterra.

A região passou por diversas ondas de imigração ao longo da segunda metade do século XX. A somatória de moradores de minorias étnicas — principalmente indianos e caribenhos  supera com folga os brancos de origem britânica. No multicultural West Bromwich a imigração não é algo novo: parece bem assimilada. Mas o impacto cultural e econômico dos últimos a chegar, segundo um estudo recente, colocou Sandwell, o município ao qual o bairro pertence, entre os 10 lugares do país mais partidários do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia).

“Há imigrantes demais”, opina Satbir, nascido na Índia e aposentado. “Quantos pode haver? Que outro país tem tantos? As empresas os incentivam porque são mão de obra barata, mas as pessoas estão preocupadas com a pressão. Aqui em West Bromwich chegaram dezenas de milhares, com filhos. Onde estão as novas camas de hospital? E as escolas? Todo mundo quer um pouco de imigração, mas não pode haver tanta.”

O British Election Study, um dos estudos eleitorais mais antigos do mundo, revela que o voto das minorias étnicas pode ser decisivo no referendo sobre a permanência do país na União Europeia, no dia 23 de junho. Enquanto o voto dos britânicos brancos parece estar dividido meio a meio, dois de cada três eleitores de outros grupos étnicos apoiam a permanência.

Mobilizar esses cerca de quatro milhões de pessoas — que se declaram menos certas de que irão votar do que a maioria branca  pode ser crucial para os partidários da permanência. Mas se enganarão se derem seu apoio como garantido.

Eugene Koziol tem 73 anos e se aposentou já há alguns anos. Mas continua gostando de ir ao mercado e contemplar, sentado em um banquinho sob os toldos, o movimento de caixas que vêm e vão em sua barraca de frutas e verduras. Nasceu na Polônia e depois da guerra recebeu asilo político no Reino Unido, em 1947. Koziol diz que ainda não decidiu em que lado votará no referendo.

“Tenho dois filhos, cinco netos e um bisneto, e todos têm sido muito felizes aqui”, explica. “Ninguém de minha família pediu jamais ajuda estatal, todos trabalhamos. Os imigrantes não querem dinheiro, querem trabalho. Mas atualmente não se pode impedir que ninguém venha, e eu acredito que deveria haver um controle. É verdade que há choques com alguns dos recém-chegados do Leste Europeu, é uma cultura diferente. A não ser que os imigrantes se aclimatem e assimilem a cultura britânica, sempre vai haver animosidade.”

“A imigração é um dos grandes temas na campanha do referendo. Um fenômeno especialmente sensível em lugares como Sandwell, umas das áreas mais empobrecidas do país, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas. O município sofre para encontrar seu caminho depois da debacle do esplendor industrial nos anos 80, enquanto recebe dezenas de milhares de cidadãos de países do leste e do centro da UE. A campanha em prol da saída argumenta que, se o Reino Unido deixar o bloco, poderia manter o acesso ao mercado único e introduzir restrições à imigração da comunidade, um tema que Bruxelas e os parceiros europeus repetiram que não está sobre a mesa.

De acordo com um estudo recente do Runnymede, um instituto e consultoria de estudos multiétnicos, a imigração nova também é um assunto quente entre os próprios imigrantes mais estabelecidos. Estes, destaca o trabalho, “com frequência sentem que tiveram dificuldades no Reino Unido, pelo menos logo depois de sua chegada, e podem pensar que os novos imigrantes vêm tendo experiências melhores ou mais fáceis”.

“Muitas pessoas negras e de minorias étnicas se mostram ambivalentes ante os benefícios da UE”, explica o estudo. “Tendem a aproveitar menos as vantagens da liberdade de movimento. Alguns veem a Europa em termos explicitamente étnicos ou raciais, identificando a “fortaleza Europa” como uma maneira de afastar os imigrantes não brancos ao mesmo tempo em que são permitidos níveis significativos de imigração europeia”.

Embora os estudos afirmem que os imigrantes são contribuintes líquidos para os cofres públicos, os mais estabelecidos se queixam da pressão sobre serviços públicos já saturados. Alguns destacam também o temor ante a possível chegada de neonazistas de países europeus, onde a extrema direita é forte.

Balkar Singh, de 51 anos, tem uma barraca de tecidos no mercado de West Bromwich. Para Singh, essencialmente, os novos imigrantes são como ele era quando chegou da Índia há 20 anos. “Os que vêm montam negócios, pagam suas contas e contribuem para a riqueza do país, igual a quando cheguei”, explica. “Tenho alguns poloneses vivendo em minhas propriedades e pagam bem. Suponho que haja gente boa e gente ruim. Mas eu votarei por permanecer. A UE nos permite ser parte de uma comunidade maior, e isso sempre é bom.”

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