Polícia de Charlotte divulga vídeo da morte de Keith Scott

Imagens não deixam claro se a vítima, um afro-americano de 43 anos, estava armada

Keith Lamont Scott, no chão após ser baleado.
Keith Lamont Scott, no chão após ser baleado.ANDREW CABALLERO-REYNOLDS (AFP)

O Departamento de Polícia de Charlotte (Carolina do Norte) divulgou neste sábado as imagens do assassinato do afro-americano Keith Scott por parte de agentes. O incidente, ocorrido na terça-feira passada, desencadeou violentos protestos na cidade e muitos manifestantes cobravam que fosse divulgada a gravação feita pelas câmeras dos veículos e policiais envolvidos na ação.

As imagens gravadas por uma das câmeras nos veículos da policial.

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Até este fim de semana, as autoridades locais vinham se negando a tornar público o vídeo alegando que isso poderia prejudicar a investigação. Mas o chefe da polícia local, Kerr Putney, afirmou no sábado, em coletiva de imprensa, que “agora se torna adequado” compartilhar os vídeos.

Nas imagens, é possível observar Scott deixando o seu carro de costas para os agentes que o haviam cercado e com as mãos abaixadas. A vítima caminhara apenas por alguns segundos para trás, olhando confusa para os policiais, quando um deles atira quatro vezes contra o homem, que cai morto. Pelas imagens não é possível ver se Scott carregava uma arma em uma das mãos, como argumentou a polícia, embora os agentes tenham divulgado também imagens de um revolver e um cigarro de maconha colhidos durante a ação.

“A questão é saber se essas atitudes justificavam a ação da polícia”, disse o advogado da família, Justin Bamberg. Segundo ele, Scott estava se afastando dos agentes, não avançando em direção a eles, e que tudo aconteceu em apenas alguns segundos. “Infelizmente, agora temos ainda mais perguntas sem respostas do que antes”, disse o cunhado da vítima, David Dotch. “Ele era um cidadão norte-americano que merecia algo melhor”.

Um uma segunda gravação, registrada pela câmera presa ao colete de um dos policiais, observa-se como os agentes cercam o veículo apontando seus revólveres na sua direção, até que Scott abre a porta. Essas imagens não mostram o momento do tiro, embora se possa ver que os agentes o algemaram quando ele já estava abatido no chão e que um deles pede para trazerem instrumentos para cuidar das feridas.

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Os advogados da vítima afirmaram na entrevista coletiva, neste sábado, que Scott era um veterano do Exército e que havia sofrido lesões cerebrais durante o serviço militar. “Os agentes fizeram a tensão aumentar, quando o seu trabalho teria de ser justamente no sentido contrário”, afirmou Charles Monnett minutos depois da divulgação do vídeo. “Não vejo nada, nessas imagens, que indique que Scott tinha de ser morto”.

Ao falar sobre as gravações, então ainda não divulgadas, o chefe da polícia, Putney, havia admitido na quinta-feira que “os vídeos não constituem nenhuma prova absoluta e definitiva de que a pessoa estivesse apontando uma arma”. Apesar da resistência inicial das autoridades, a prefeita de Charlotte, Jennifer Roberts, prometeu “aplicar todos os recursos à nossa disposição para informar a população o mais rapidamente possível”.

Os agentes continuam afirmando, em sua defesa, que Scott estava armado. Seus parentes, porém, sempre sustentaram que ele não tinha nenhuma arma e que não fez nenhuma ameaça aos policiais. Nas imagens, é possível verificar, como tem argumentado a família –que teve acesso aos vídeos nesta semana--, que Scott não apontou nenhuma arma contra eles. A oposição entre as duas versões ficou mais evidente ainda após a divulgação, na sexta-feira, de um vídeo gravado pela esposa da vítima, que fez aumentar ainda mais a pressão para que a polícia fosse transparente no caso. Na gravação, Rakeya Scott registrou em seu celular o momento em que ela mesma falava para os policiais que cercavam o veículo de seu marido --que tinha 43 anos e era pai de sete filhos—que ele não estava armado e que estava doente.

“Não atirem nele”, diz ela, repetidas vezes. O vídeo, com apenas dois minutos de duração, não mostra o momento exato em que Scott recebeu vários tiros dos policiais, porque nesse instante sua mulher baixara o celular para o chão. Também não é possível ver se ele estava armado. Os canais de televisão norte-americanos que analisaram nesta sexta-feira as imagens destacaram o movimento de um dos policiais pegando um objeto que caiu no chão ao lado do cadáver de Scott, mas que não parecia uma arma, e sim um par de luvas.

A morte de Scott é a mais recente de uma série de incidentes em que os vídeos registrados por testemunhas revelam o desfecho fatal de um encontro entre um afro-americano e um grupo de policiais. A crueza das imagens contribuiu para alimentar um debate nacional sobre a discriminação contra os negros e outras minorias, assim como o tratamento recebido por eles da parte da polícia e da Justiça.

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