Impeachment Dilma

O début internacional do presidente Michel Temer

Temer embarcou rumo a China e se apresentará, pela primeira vez, aos principais líderes mundiais. Aproveitará oportunidade para vender sua agenda de reformas e atrair novos investimentos

Presidente Michel Temer.
Presidente Michel Temer.Igo Estrela

A apresentação de Temer ao mundo, no entanto, não tem o mesmo brilho dos Governos anteriores, que tiveram seu début internacional após serem empossados pelos votos das urnas, como aconteceu com Dilma e o o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Temer assume a presidência do Brasil depois de um longo processo de impeachment e tem como desafio retomar o crescimento de uma economia mergulhada na pior recessão das últimas décadas.

A primeira viagem internacional de Temer como presidente ser na China é simbólico. O país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil - neste ano, as trocas entre os dois países já somam 42,5 bilhões de dólares- e é a peça-chave para iniciar a recuperação econômica do país, tanto no setor de investimento como de comércio, segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV e especialista em países emergentes. "O Brasil tornou-se a potência emergente na época do Governo Lula parcialmente por causa da China e também por causa da desaceleração do país asiático é que o Brasil deixou de ser essa potência. O Temer está certo ao levar as pessoas chaves e ministros a essa viagem", explica.

MAIS INFORMAÇÕES

Entre os integrantes da comitiva que acompanha Temer estão o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o chanceler, José Serra, além do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Nesta quarta-feira, o recém-empossado presidente afirmou que não estava viajando para a China "a passeio" e que a comitiva brasileira quer mostrar ao mundo que é um governo legítimo e começar a trazer recursos para o país. O peemedebista pediu aos seus ministros que eles divulguem que o presidente está viajando à China "para revelar aos olhos do mundo" que no Brasil há "estabilidade política e segurança jurídica."

"Agora é o momento de Temer criar uma narrativa. A comunidade internacional já sabe o diagnóstico do país, mas o presidente precisa convencer que ele será capaz de implementar as reformas que o Brasil precisa e também mostrar que a crise política acabou", afirma Stuenkel.

A viagem de Temer será também fundamental para ver como o presidente se comporta em compromissos internacionais. O peemedebista terá, ainda neste ano, uma agenda intensa de viagens ao exterior. Em setembro, ele irá para Nova York participar da Assembleia Geral da ONU e depois para a Índia no âmbito da reunião dos BRICs, o grupo econômico de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. "Começa para valer o Temer diplomata, ele precisa mostrar esse que ele sabe projetar o Brasil e se tornar conhecido. Mostrar uma estabilidade que ele chegará até o fim", explica Stuenkel.

Para Monica Hirst, doutora em Estudos Estratégicos e professora da Universidade Torcuato di Tella, na Argentina, o presidente pode enfrentar obstáculos já que terá que lidar com o fato de que a legalidade do seu mandato "é engolida por muito poucos lá fora". "Essa crise política que o Brasil vive não será apagada rapidamente como ele espera. A própria crise gerada pelo fatiamento dos votos no impeachment [sobre a questão sobre os direitos políticos de Dilma] é uma clara manifestação nesse sentido. Tudo isso afeta a visão que se tem do Brasil e a credibilidade do novo Governo". A especialista não acredita em uma etapa de diplomacia muito forte. "Não vejo o Brasil com capacidade e se beneficiar de cenário internacional, porque ele não tem capital político".

O economista Otto Nogami, do Insper, discorda. Para o especialista, a legitimação de Temer na presidência, com a finalização do processo de impeachment, é justamente o que pode facilitar novos acordos com antigos parceiros do Brasil, como os Estados Unidos e a União Europeia. "O trabalho do chanceler José Serra de se reaproximar desses países tende a se consolidar agora", explica.

Encontros bilaterais

Temer possui uma série de encontros bilaterais já agendados com os chefes de Estado dos países que participam do G-20. Além de uma reunião com Li Keqiang, o primeiro ministro da anfitriã China, na sexta-feira, o presidente brasileiro conversará com os primeiros ministros da Espanha e Itália e também com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Está previsto também uma conversa com o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo. A agenda principal na, o encontro dos líderes do G-20 em Hangzhou, está marcada para domingo (4) e segunda (5).

A criação de um fundo bilateral de investimento no Brasil, na ordem de 20 bilhões de dólares, em que a China poderá colocar até 15 bilhões (3/4 do montante total), também deve voltar à pauta na conversa com o premiê chinês. Segundo o Itamaraty, no encontro de Temer com o primeiro-ministro chinês a expectativa é que seja assinado um memorando de entendimento, estabelecendo como funcionará o fundo. A ideia é que injeção de dinheiro seja dada conforme projetos de investimento sejam aprovados.

"Acredito que o Temer poderá trazer muitos investimentos chineses novos para o Brasil. Os chineses estão interessados na construção do trem-bala de Rio a São Paulo, mas também no setor de energia, é bem diversificado leque de investimentos", explica, Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC).

Na carteira de projetos que o presidente em exercício Michel Temer pretende levar para apresentar estão a conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), a concessão da Ferrovia Norte-Sul (FNS) e a Ferrovia Bioceânica. "Se a Câmara, sem apoio do Governo já trouxe 5 bilhões de dólares de investimentos em uma década, imagina com uma série de eventos com ministros no país asiático", explica.

Embora a economia chinesa esteja desacelerando, nunca houve tanto investimento da China fora do país, segundo Tang. "O país asiático investe por vários razões: para exportar excedente, para criar alianças estratégicas, para ganhar mercado e lucro e para ter acesso aos recursos estratégicos para a segurança alimentícia do povo chinês. E tem o Brasil como grande parceiro", diz. Para Tang, a nova estabilidade política brasileira que ele acredita que será consolidada com o fim do processo de impeachment dá ainda mais confiança para investir no gigante da América Latina .

Arquivado Em: