Processo de paz

Colômbia começa uma nova era ao concluir acordo de paz com as FARC

Presidente Santos anuncia que plebiscito para referendar os acordos será realizado em 2 de outubro

Iván Márquez e De la Calle dão as mãos diante do chanceler cubano, Bruno Rodríguez.
Iván Márquez e De la Calle dão as mãos diante do chanceler cubano, Bruno Rodríguez.YAMIL LAGE (AFP)

“Hoje, alcançamos nosso objetivo. A assinatura do acordo final com a guerrilha das FARC é o fim do conflito armado. A melhor forma de ganhar a guerra foi sentando juntos para falarmos de paz”. Foi dessa forma que se expressou o principal negociador do governo, Humberto de la Calle, ao anunciar o pacto definitivo com a guerrilha. Apesar do rosto cansado, depois de maratonas de negociações nos últimos dias, De la Calle deu, sem dúvida, o discurso mais pedagógico e otimista dos quatro anos de discussões: “Provavelmente, todos queriam algo mais. Nós mesmos, sentados à mesa, queríamos algo mais. Mas o acordo que conseguimos é o acordo viável. O melhor acordo que se poderia conseguir”.

O fim das negociações do último conflito da Guerra Fria começou a ser conhecido pelo Twitter. “O dia se aproxima”, lia-se em uma mensagem publicada na noite de terça-feira nas contas do Alto Comissionado para a Paz e das FARC. O texto acompanhava uma foto que mostrava os negociadores sorridentes. A sensação foi: terminou. O otimismo propagou-se e o ato seguinte foi de prudência. Extraoficialmente, fontes dos dois lados garantiam que as negociações haviam sido concluídas. No entanto, faltavam alguns detalhes técnicos, relacionados principalmente à redação do texto. De maneira alguma, asseguravam as fontes, as pendências colocavam o acordo sob risco. Era uma questão de esperar para que se tornasse oficial, o que aconteceu depois das seis da tarde da Colômbia. Em seguida, em um discurso à nação, o presidente anunciou que o plebiscito será realizado em 2 de outubro.

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Na sexta-feira, fará quatro anos que o governo e as FARC fecharam o acordo que estabelecia as bases das negociações que se desenvolveram desde então em Havana. Resolvido o parágrafo da justiça e acordado o cessar fogo bilateral, o final da guerra, faltava negociar as condições da anistia aos guerrilheiros, suas futuras participações na política e como seria abordada suas reincorporações à vida civil. Na semana passada, o presidente colombiano pressionou sua equipe negociadora a desatar esses nós e chegar a um acordo definitivo o mais rápido possível. Depois de maratonas de negociação sem precedentes em todo o processo, com reuniões de até 18 horas, todos os aspectos substanciais foram finalizados. Ainda sem ser oficialmente divulgado o conteúdo do acordo, várias fontes dos dois lados confirmaram que a anistia aos guerrilheiros só será concedida depois da realização do plebiscito.

A consulta à qual Santos se comprometeu marcou os últimos dias das negociações. A urgência do mandatário não era sem motivo. O presidente precisava ter o acordo definitivo pronto para levar ao Congresso e poder convocar o referendo. Finalmente, ele será realizado em 2 de outubro. Santos queria que a consulta não passasse da primeira quinzena de outubro para evitar que se sobrepusesse à reforma tributária prevista. As primeiras pesquisas não garantem vitória para o sim, e o presidente teme que um aumento de impostos seja contraproducente na hora da votação.

As FARC, por sua vez, levarão o acordo final a um congresso interno, conhecido como Décima Conferência, no qual as bases guerrilheiras aprovarão o negociado em Havana desde 2012. Esse ato, cuja logística já está sendo preparada pelas filas guerrilheiras, deve ser realizado nas próximas semanas e contará com a presença de mil membros das FARC, entre chefes e comandantes médios. Será nesse momento que a guerrilha mais antiga da América Latina proclamará a renúncia à luta armada e iniciará a transição para um movimento político.

Quatro anos atrás, pensou-se que o processo de paz duraria apenas alguns meses. As negociações, porém, foram mais complexas que o previsto. Nunca conseguiram escapar do manto da incerteza, em boa parte pelo mistério com o qual foram desenvolvidas. A popularidade das discussões entre os colombianos sempre foi baixa, considerando o objetivo que era buscado. A guerra entre o governo e as FARC durou 52 anos. Em quatro, apenas quatro para muitos, quatro a mais para tantos outros, as duas partes conseguiram estabelecer as bases para acabar com a violência da guerrilha, iniciar a transição para a vida política e começar o caminho para reduzir a abismal distância entre o campo e a cidade.

Para encerrar esse capítulo da história, no entanto, ainda faltam várias páginas. O anúncio de que as negociações foram concluídas, de que, definitivamente, há um acordo de paz, ainda não significa que ele será firmado. A assinatura final — o presidente anunciou que será realizada na Colômbia — está prevista para antes do plebiscito, diante de uma multidão de pessoas e com a presença do maior número de chefes de Estado possível. O objetivo é dar um impulso ao sim na consulta aos colombianos. Ninguém sabe esclarecer o que aconteceria se o país decidir não apoiar a paz, ou se os entusiastas do acordo não conseguirem os votos necessários: 13% do eleitorado. Também não está descartado que a assinatura final aconteça apenas depois de os acordos terem sido referendados. Se algo caracterizou esse processo, foi a quantidade de vezes em que os prazos não foram cumpridos. Quando esses passos forem dados, um ponto final será colocado na história, e a Colômbia começará a escrever o seu epílogo. A partir de um título de apenas três letras: paz.

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