COLUNA

A Olimpíada como metáfora

Medalhas à parte, coletivamente somos um imenso e retumbante fracasso quando o assunto são homicídios

Violência no Rio 2016 cidade olímpica
Policiais ao lado do corpo de um homem morto, perto do estádio do Maracanã no dia da cerimônia de abertura. AP

O Rio de Janeiro recebeu um reforço de 88.000 agentes para garantir a realização dos Jogos Olímpicos, o maior esquema de segurança da história do Brasil. Turistas, torcedores e membros das comitivas esportivas podem circular com certa tranquilidade pelas ruas da Zona Sul, que inclusive passaram por um processo de expulsão dos sem teto na Operação Caça-Tralha. Ainda assim, alguns episódios isolados de violência foram registrados, sendo os mais graves as mortes do soldado da Força Nacional, Hélio Andrade, atingido por uma bala ao entrar por engano no Complexo da Maré, e do técnico da equipe alemã de canoagem, Stefan Henze, em decorrência de um acidente de carro na Barra da Tijuca.

Talvez, ao voltarem para casa, os turistas estrangeiros e membros das comitivas esportivas  carreguem uma imagem positiva do Brasil e até mesmo questionem as notícias sempre reiteradas do perigo que é transitar pelo nosso país. Este foi, em suma, o objetivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando, em outubro de 2009, anunciou a vinda dos Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro, ironicamente realizados sob a presidência interina de Michel Temer.

No entanto, no dia seguinte ao encerramento das Olimpíadas, os cariocas vão se deparar com a triste realidade: em junho, segundo dados do Instituto de Segurança Pública, os roubos a pedestres subiram 80% em relação ao mesmo mês de 2015 e os homicídios dolosos (com intenção de matar) cresceram 38% no mesmo período.

No resto do Brasil, que escapa aos olhares dos estrangeiros, ofuscados pelos holofotes dos Jogos Olímpicos, viver continua a ser muito perigoso. Segundo o Atlas da Violência 2016, nosso país é o que mais mata no mundo em números absolutos – quase 60.000 assassinatos por ano –, uma taxa média igual a 29,1 homicídios por 100.000 habitantes. De cada 100 pessoas assassinadas no planeta, 10 são brasileiros. E a violência está diretamente ligada à cor da pele e à situação socioeconômica. Um jovem de 21 anos, idade de pico das mortes por homicídio, com menos de sete anos de estudo, tem 17 vezes mais chances de ter uma morte violenta; e, caso seja negro ou pardo, as possibilidades aumentam ainda em 147%.

Felipe da Silva Ângelo, de 26 anos, recebeu 14 tiros na cabeça e nas costas numa travessa do bairro miserável de Santa Lúcia, em Maceió, no dia 10. Ninguém soube os motivos do crime e talvez nunca saberemos. Felipe não é cidadão, é estatística. Ele foi apenas mais uma das muitas vítimas da selvageria que grassa em Alagoas, estado que lidera o ranking do Atlas da Violência 2016, com 63 homicídios por 100 mil habitantes, o dobro da média brasileira, já altíssima. Alagoas, como se sabe, é dominada por clãs, como o do presidente do Senado, Renan Calheiros, cujo filho é o prefeito de Maceió, e por figuras públicas como o senador Fernando Collor, ex-presidente da República cassado por corrupção. Ambos, Renan e Collor, estão envolvidos nas denúncias da Operação Lava-Jato.

E então nos indignamos momentaneamente para em seguida nos conformamos de novo

Mas Maceió, onde Felipe nasceu e viveu, não é nem o nosso município mais perigoso. De acordo com o Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, das 50 cidades acima de 300.000 habitantes mais violentas do mundo, 21 encontram-se no Brasil. E Fortaleza, capital do Ceará, mundialmente conhecida como destino preferencial para a prática da prostituição infantil, se destaca com 60 assassinatos por 100.000 habitantes. No último fim de semana, por exemplo, foram registrados 29 homicídios – um deles, o de um menino chamado Kell. Kell havia abandonado os estudos e gostava de passar o dia soltando papagaio (ou pipa ou raia ou pandorga, dependendo da região). Ele tinha apenas 12 anos.

Por fim, infelizmente, Fortaleza não é nem nossa cidade mais violenta, em termos relativos. Segundo o Atlas da Violência de 2016, o município mais violento do Brasil chama-se Caracaraí, em Roraima, com um inacreditável índice de 210,3 mortes por 100.000 habitantes, três vezes e meia maior que o de Fortaleza. Em 2014 – ano em que foram coletados os dados – ocorreram 40 homicídios em meio a uma população de pouco mais de 19.000 pessoas. Lá, no último domingo,uma adolescente de 16 anos assassinou o tio, de 38 anos, com uma facada no abdome. A mãe dela explicou que o tio, irmão dela, havia agredido a filha e que ela se vingou, matando-o.

Todos os dias 164 pessoas são assassinadas no Brasil, a grande maioria jovens negros ou pardos residentes nas periferias das cidades, ou seja, em lugares distantes e tendo como vítimas seres humanos invisíveis para o resto da sociedade. Só tomamos consciência da violência quando ela se aproxima de nós, atingindo vizinhos ou familiares. E então nos indignamos momentaneamente para em seguida nos conformamos de novo, pois como nas medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos só conseguimos atuar de maneira individual. Coletivamente somos um imenso e retumbante fracasso.

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