El País Semanal

Sigourney Weaver, a musa de ferro

Trinta anos depois de 'Alien', a atriz irá estrear o mais novo filme no Festival de San Sebastián

Sigourney Weaver na sessão de fotos para o EL PAÍS Semanal. Usa um top com franjas Loewe, calças Shon Mott e sapatos Carmina Shoemaker.
Sigourney Weaver na sessão de fotos para o EL PAÍS Semanal. Usa um top com franjas Loewe, calças Shon Mott e sapatos Carmina Shoemaker.

Estamos em Barcelona. Sigourney Weaver experimenta uma sopa de verduras, ainda muito quente, enquanto lembra-se da história do seu nome e reflete sobre as consequências da recessão econômica. Aproxima-se da janela e confessa que gosta dessa cidade e ficaria feliz em passar uma temporada. Se vivessem aqui, começa a fantasiar, talvez seu marido pudesse ir surfar em San Sebastián, lugar que adora. Em seguida, pega de novo a colher e sopra delicadamente, como se estivesse fazendo um pedido. Sete Minutos depois da Meia-Noite, o filme de Juan Antonio Bayona, vai participar do Festival de Cinema de San Sebastián no próximo mês de setembro e ela vai receber o Prêmio Donostia por sua carreira. Se houver ondas, seu marido poderá surfar daqui a algumas semanas.

Quando pisar no tapete vermelho do auditório Kursaal, Weaver estará prestes a fazer 67 anos. Vai se apresentar com um papel no qual interpreta a avó de um menino em plena aceitação do câncer da mãe, enquanto ele tenta exorcizar, a cada noite, seus medos com a visita de um monstro em forma de árvore (Liam Neeson). Uma história baseada no esplêndido e homônimo livro de Patrick Ness, na qual Bayona, depois de O Orfanato e O Impossível, volta a desmembrar as complexas relações entre mães e filhos. Mas também acontece que é o primeiro papel de Sigourney Weaver como avó. Assim, o cinema se adianta à sua própria vida pessoal (sua filha, de 25 anos, ainda não foi mãe) e oferece uma metáfora espontânea de uma carreira cinematográfica que agora atinge a maturidade, em uma indústria que não costuma aceitar bem isso nas mulheres, e que começou já com trinta anos a bordo da nave espacial Nostromo, na pele da lendária tenente Ellen Ripley em Alien, O Oitavo Passageiro (1979).

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Aquele filme realmente definiu o destino de uma mulher que tinha planejado passar a vida nos palcos e não assimilava os recursos e as virtudes do cinema. “Eu era uma atriz de teatro. Disseram-me que era um filme de ficção científica e não me seduziu muito. Percebi que aquilo poderia ser algo quando vi todo o trabalho artístico e estético que tinham feito”. O mundo que a convenceu foi a icônica obra do artista suíço H. R. Giger, responsável pelo desenho do primeiro monstro que ela iria enfrentar em sua carreira e dos cenários nos quais viveria durante semanas na Inglaterra. Foi uma prova de fogo, lembra, enquanto estica seu longo braço para alcançar a sopa já morna. Foi o seu primeiro filme –na verdade ela havia tido alguns segundos em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), dois anos antes, e nem sequer conseguia deixar de olhar para a objetiva quando era filmada. “Na primeira semana não paravam de me dizer: ‘Não olhe para a câmera’. E eu respondia, ‘Mas vocês a colocam na minha frente o tempo todo’”. O desafio era ver as coisas de outro modo e encarar o filme como se fosse sua própria versão de Henrique V. “Isso tem a ver com Shakespeare, colocar uma mulher na pele de um homem. Mas temo que no roteiro não o fizeram por razões feministas, mas porque pensaram que ninguém acreditaria que a mulher seria a sobrevivente”.

O filme de ficção científica de Ridley Scott deu origem à primeira heroína moderna do cinema de ação. Uma personalidade inédita até então em Hollywood, que foi evoluindo ao longo dos anos com papéis de mulheres duras, inteligentes e capazes de cuidar de si mesmas. A zoóloga Dian Fossey em Nas Montanhas dos Gorilas (1988), a executiva de Uma Secretária de Futuro, a diplomata de O Ano que Vivemos em Perigo (1982) ou mesmo a jovem violoncelista Dana Barrett, que era capaz de levitar dois metros acima de sua cama enquanto era abduzida pelo mundo paranormal de Caça-Fantasmas (1984). A maioria delas, no fundo, também sofria por seus atritos com um mundo rígido e impermeável às diferenças que mostravam. Embora sempre o fizessem às escondidas.

Depois de Alien ela também mergulhou numa crise artística e pessoal de dois anos. “A fama é algo estranho. Causava-me rejeição estar nas capas das revistas, eu não queria renunciar à minha privacidade. Então tentei evitar um pouco toda aquela história durante anos, até que entendi que era parte do negócio. Eu era muito tímida e isso foi um choque para mim. Me meti debaixo da terra durante dois anos. Recusei um monte de papéis, fiz teatro e pouco mais. Não sei por que, mas pensava que Alien não era um trabalho de verdade. Não queria abandonar a minha vida humilde em Nova York, queria ser uma pessoa normal que podia andar de ônibus. Mas se eu pudesse dar um conselho àquela jovem, diria para não levar tudo tão a sério, não importa, devemos fazer de tudo, fazer diferentes tipos de papéis”.

Susan Alexandra Weaver nasceu em outubro de 1949, em Manhattan. Seu pai, Sylvester L. Weaver, Pat, foi presidente da NBC e um revolucionário da televisão que inventou os talk shows. A atriz reconhece que o pai exerceu uma grande influência sobre ela e que frequentemente seguiu seus conselhos: “Balançava a cabeça em sinal de aprovação quando gostava de alguma coisa [como Caça-Fantasmas, seu favorito]”. Mas ela nunca interessou pela televisão, não queria participar de um negócio em que ele estava. A mãe, Elizabeth Inglis, foi uma das atrizes britânicas mais promissoras dos anos quarenta –por causa dela, tem um leve sotaque britânico– e apareceu em alguns dos primeiros filmes de Alfred Hitchcock, como Os 39 Degraus. Mas o casamento com aquele executivo bem-sucedido enterrou sua carreira. “Naquele tempo meu pai era o típico grande homem com uma bela mulher que cuidava de tudo. Foi uma decisão muito difícil para ela e por isso acredito que ela nunca quis se sentar comigo para falar sobre teatro, fechou essa porta”.

Completou 18 anos sem ter muito claro o que iria fazer. Antes de ir para Stanford para estudar literatura inglesa, passou um verão vivendo numa cabana sobre uma árvore. “Naquela época, no início dos anos setenta, as pessoas viviam em tippies, trailers, era parte de um movimento. Pensei em ser jornalista, parecia que poderia ser um trabalho muito interessante”, explica enquanto tenta convencer o redator das semelhanças entre atuar e escrever um artigo. Aquela aventura desembocou na escola de arte dramática da Universidade de Yale, onde começou um calvário pessoal –esteve prestes a abandonar– ao ver seu talento negado uma e outra vez por seus professores de interpretação. Apenas um ano atrás dela, despontava com força um projeto de atriz chamado Meryl Streep. “Acho que eles também a fizeram passar mal. Mas estava mais desenvolvida profissionalmente e tinha mais confiança do que eu. Muitas pessoas tiveram más experiências em escolas de arte. Há certa tradição segundo a qual devem arrasar esses jovens atores para ver o que acontece... Talvez eu tenha levado tudo muito a sério... Mas isso me fez mais forte, quando cheguei a Nova York não achava que encontraria um trabalho depois de tudo que me haviam dito. Então, cheguei sem pressão e isso fez o meu trabalho mais interessante”.

A atriz Sigourney Weaver.
A atriz Sigourney Weaver.DANIEL RIERA

Mas, mais tarde, Alien também truncou as secretas aspirações de Weaver de fazer mais comédias. Para Caça-Fantasmas, explica, ela teve de fazer um teste porque ninguém no estúdio pensava que pudesse ser engraçada depois de ter sido vista enfrentando aquele monstro no espaço. Sua altura (1,82 metro), também tinha algo a ver com o tipo de papéis que lhe ofereciam. Sempre às margens das histórias convencionais. “O melhor é que algumas pessoas muito incomuns, como Ridley Scott, James Cameron e Peter Weir, quiseram trabalhar comigo. E sou muito grata por isso. Mas é verdade que sempre soube que não iria conseguir muitos papéis de namorada dos típicos atores que fazem os papeis principais em Hollywood. Então não fiz muitas histórias de amor”.

Weaver é mais alta do que a maioria das atrizes de sua geração. E também do que os homens e mulheres que não aparecem na tela. Isso pode ser constatado na sessão de fotos que faz com Bayona, em relação ao qual tem várias cabeças de vantagem, enquanto posam e dançam para a câmera uma hora antes desta entrevista. Mas os produtores também viam isso. Não seria também que os atores de Hollywood são muito baixos? “Sem dúvida. Lembro-me de ter ido a algumas reuniões em que um dos atores não quis se levantar para apertar a minha mão para que os produtores não percebessem quão pequenino ele era. Complexados? Tem de tudo, veja Mel Gibson [trabalharam juntos em O Ano que Vivemos em Perigo], é mais baixo do que eu e eu usava salto alto, mas ele é muito seguro de si. Depende do tipo”.

É inteligente, culta, irônica e tem uma capacidade para confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso do seu interlocutor. É difícil encontrar algum traço do superego de estrela e, inconscientemente, faz com que você vá para casa pensando que ficou preocupada com uma questão intrínseca de sua vida. Não evita conversar sobre política e, como muitas de suas colegas de profissão, expõe suas inclinações e sua proximidade com ideias progressistas. Diz que apoiará Hillary Clinton (que conhece pessoalmente e na qual muitos viram uma inspiração para o seu papel na série Political Animals). Sobre Donald Trump afirma: “Não posso imaginá-lo como presidente, nem mesmo querendo sê-lo realmente. Ele está dando uma grande vantagem para Hillary Clinton porque está fazendo desvanecer o panorama republicano, não parece haver um candidato forte, com exceção dele. Não acho que ele tenha alguma chance de ser eleito, realmente. Ou então, acredite em mim, vou mudar para Barcelona”.

Weaver, no filme 'Alien'.
Weaver, no filme 'Alien'.UPI

Como se explica que alguém com as ideias dele possa ir tão longe numa carreira política em um país construído por imigrantes?

–Trump tem a visão mais obscura e estreita que existe. E, além disso, ele a promove. Foi um erro e foi muito ridículo o que ele disse sobre os muçulmanos, mas ele estava testando o quão longe as pessoas estão dispostas a ir com o seu medo. Nos Estados Unidos nos isolamos muito com o medo em relação ao de fora e com o perigo que pode vir do exterior. E é ridículo, porque na verdade nós temos o perigo em casa com a proliferação das armas, com as pessoas nascidas aqui atirando umas nas outras. Essa é a tragédia. E é aí onde devemos colocar nossa energia.

Nova York é a única ligação que Sigourney Weaver é capaz de estabelecer com Donald Trump. Mas sua cidade é outra. É a dos cafés, dos trajetos de ônibus com um livro na mão e um chapéu sem que ninguém a reconheça. E a dos pequenos teatros, como o Flea, fundado em 1996 pelo marido, o diretor havaiano Jim Simpson, que conheceu num teatro de verão há 31 anos. “Estava fazendo Old Times, uma obra de Harold Pinter, no palco principal com Dianne Wiest e o conheci no fim da temporada em uma festa. Tentei tirá-lo para dançar, mas ele disse não. Foi tudo muito embaraçoso. No entanto, fomos capazes de sobreviver ao primeiro encontro e pedi a ele que viesse a uma grande festa que preparei no início da rodagem de Caça-Fantasmas. Três meses depois de nos casarmos”. A fidelidade e o compromisso ainda existem, brinca, mas sempre têm mais publicidade os que se divorciam.

Seu compromisso agora se estende também aos projetos menores, pequenas obras de teatro ou agradáveis apostas –como a que está promovendo, enfatiza– que continua alternando com gigantes cinematográficos como as continuações de Avatar, Alien ou Caça-Fantasmas, que acaba de terminar ou está prestes a começar. “O cinema quase nunca tem muito a ver com o prestígio e com fazer algo único. Cada vez se fazem menos filmes e estão mais preocupados com o lucro que podem ter com cada filme. Gosto mais dos pequenos projetos, nos quais me realizo e posso levar essa experiência mais pessoal para outras produções maiores”.

Por isso, em parte, ela ficou tão feliz quando Bayona, de quem já tinha visto El Orfanato e Lo Imposible, a chamou para encarnar a avó de Connor. E embora no filme o câncer seja abordado de uma forma mais metafísica, ele é um dos eixos narrativos sobre o qual gira a história que transforma a vida de todos os personagens. “Obviamente é algo universal que todos nós vivemos de perto, mas nos esquivamos dele porque é uma coisa triste. O que eu mais gostei na história é como Jota trata a complexidade da situação para a criança e como retrata seus sentimentos de desejar que sua mãe esteja bem. É muito diferente de como estamos habituados a conduzir a questão das crianças e a morte. Isso dá a muito crédito a ele, porque é um personagem muito complexo. Jota tem um dom especial com os pequenos e seu ponto de vista”.

Enquanto isso, a mulher que foi capaz de mudar o nome aos 11 anos para enfrentar os piores monstros interestelares, ter um encontro fugaz com Woody Allen ou sobreviver a uma invasão fantasma em Manhattan, continuará preocupada com criaturas mais perigosas e menos exóticas como Donald Trump, ou questões mais prosaicas como a recessão econômica, a proliferação das armas em seu país e, acima de tudo, sua família. “Acredite em mim, depois de todos esses anos, posso garantir que é muito mais complicado ser mãe do que ser atriz”.

Daniel Verdú trabalha como repórter do EL PAÍS desde 2005. Aprendeu a profissão na seção Local de Madri acompanhando a política e os problemas municipais e, em seguida, passou alguns anos dedicando-se à música e trabalhando em reportagens culturais. Atualmente escreve histórias com profundidade, perfis e entrevistas para diferentes seções do jornal com um olho nas novas narrativas.