Rio de Pokémon, MacGyver e Macunaíma

Bem-vindos, bravos estrangeiros, à terra da gambiarã — ­­palavra em tupi­-guarani que significa acampamento improvisado e teria dado origem à nossa familiaríssima gambiarra

Remadores na Lagoa de Freitas, no Rio de Janeiro.
Remadores na Lagoa de Freitas, no Rio de Janeiro. AP

Ao procurar os personagens do Pokémon Go, jogo que virou febre tropical no lugar da zika, o caçador pode flagrar, em vez dos bichinhos japoneses, uma cena extraordinária: o Macunaíma, auxiliado por MacGyver, ainda tentando dar um jeito no caos olímpico do Rio 2016. O MacGyver, capaz de milagres nas suas gambiarras no seriado americano, obedece a ordens, pasme!, do Macunaíma, nosso herói malandro e preguiçoso criado pelo escritor Mário de Andrade ainda em 1928.

O que trato como uma ficção carnavalizada é reconhecido, na realidade, pelos próprios organizadores da festa, como lemos nesta reportagem de María Martin. Bem-vindos, bravos estrangeiros, à terra da gambiarã — ­­palavra em tupi­-guarani que significa acampamento improvisado e teria dado origem à nossa familiaríssima gambiarra. Até o presidente Michel Temer é provisório. Um nó de fios desencapados, um curto-­circuito promovido por um golpe do Parlamento que vai incinerar os 54 milhões de votos da eleita Dilma Rousseff.

Não encontraram crime de responsabilidade, como prevê a Constituição, contra a petista? Não tem problemas. Os senadores que cuidam do processo de impeachment montaram uma usina de gambiarras politiqueiras para sustentar a cassação do mandato. Por este motivo, estão marcados para hoje, dia da abertura da Rio 2016, uma série de protestos na terra da garota de Ipanema e outras bossas.

Pokémons em segurança

Pelo menos durante os jogos olímpicos, o Rio pode ser um lugar tranquilo nessa temporada de caça aos pokémons. Flagrei uma turma de jovens vizinhos aqui em Copacabana comemorando a possibilidade de se aventurar, distraidamente, com seus caros aparelhos celulares na zona sul carioca. A praia mais famosa do mundo nunca esteve policiada como agora. Os pokémons e seus caçadores estão salvos. Por enquanto.

Há quem prefira aproveitar o bairro, nesse momento de festa mitológica, para as atividades mais dionísicas. Os boêmios de Copacabana conseguimos uma proeza: escalar um garçom, o popularíssimo Aguinaldo do bar Galeto Sat's, na lista de celebridades que conduziram a tocha olímpica na reta final do giro pelo Brasil. Um épico carnavalesco ao som do coro dos descontentes que grita, sem cessar, “Fora Temer”.

Entre uma gambiarra, um ato anarcopolítico e tantas outras manifestações, a gente vai levando, como recomenda o hino informal popular de Chico Buarque e Caetano Veloso. Mesmo com todo golpe, todo galope, todo escroque... A gente vai levando essa lida.

Mesmo com a “Pátria em chuteiras” calçando hoje apenas as sandálias da humildade, como diria o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, o nosso Shakespeare dos trópicos. Até parece que nunca mais vamos nos curar daquele tragicômico 7x1 para a Alemanha, na Copa de 2014. Os meninos da seleção de futebol entraram em campo na estreia com a arrogância de Neymar & cia. Deixaram o estádio Mané Garrincha, depois de um decepcionante 0x0 com a África do Sul, cabisbaixos, sob alguns surtos de vaias. Nem Gabriel Jesus, badalado jovem que caiu nas graças do técnico Pepe Guardiola (Manchester City), salvou os canarinhos.

Quem sabe o grande triunfo da outrora terra do futebol não seja no badminton. O Brasilzão de tantos paradoxos e contradições agora joga badminton na favela, onde a gambiarra da sobrevivência é uma prática rotineira, não apenas nos grandes eventos. A arte picaresca de tirar leite de pedra e dar nó em pingo d'àgua.

A gente vai levando... Evoé, Baco!

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor da novela Big Jato (editora Companhia das Letras) e de Os machões dançavam ­crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões (ed. Record), entre outros livros. Comentarista de televisão programa Papo de Segunda (canal GNT).

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