Vítima de tráfico de pessoas conta sua experiência: “Escapei do clube, mas o pior veio depois”

Carla conta como se livrou da exploração e se tornou mediadora social

Carla (nome fictício), vítima de tráfico, em Santander.
Carla (nome fictício), vítima de tráfico, em Santander.Esteban Cobo

Como acabar com o tráfico de pessoas? “O primeiro passo é não normalizar a situação. Por exemplo, nas ruas centrais das grandes cidades. O que se precisa fazer é não olhar para o outro lado”. Carla, como tantas outras, saiu de seu país enganada aos 20 anos. Era estudante de Direito no Brasil e aceitou viajar à Espanha por alguns meses para ganhar dinheiro e pagar seus estudos. “Falam que você vai trabalhar como empregada doméstica, mas depois te levam de clube em clube e ameaçam você e toda a sua família”. Chegaram a dizer a Carla, que agora trabalha na Associação para a Prevenção, Reinserção e Atenção à Mulher Prostituída (APRAMP), que iriam violentar sua irmã e sua sobrinha, de quatro e seis anos. “Foi horrível. Sabia que tinha a vida da minha família em minhas mãos”.

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A mediadora, que falou na Universidade Menéndez Pelayo em Santander, define como sobreviventes do tráfico a todas as mulheres exploradas sexualmente. “Não são prostitutas, que é como a maioria as vê”. Na Espanha, segundo a ONU, há 45.000 mulheres e meninas que são vítimas desse estigma. Agora, a APRAMP tenta ajudá-las. “É muito difícil porque não confiam mais em ninguém. Nem na polícia”. O trabalho se complica, além disso, porque as organizações as mudam de clube a cada 21 dias, o que dificulta o rastreamento das vítimas.

A rota de Carla começou em São Paulo. Dali viajou para a França, onde fez escala antes de chegar a Vigo, na Espanha: “Um rapaz foi nos buscar com uma van e nos levou a Valença, no norte de Portugal”. Ali começou a trabalhar em casas noturnas até ser transferida para Sevilha. “Essa foi a pior época de minha vida. Não aguentei e caí nas drogas”. Sua expressão muda ao falar de sua última parada dentro da rota do tráfico de pessoas que, em seu caso, durou dois anos. “Fuenlabrada mudou a minha vida porque foi ali que conheci a mediadora da APRAMP”.

Uma alternativa

“Consegui sair em 2006, mas a ferida nunca vai se fechar”, confessa Carla, que explica que é difícil ajudar uma vítima. “Estão cansadas de promessas. Eu demorei um ano para aceitar a ajuda da mediadora da APRAMP”. A associação, só em Madri, atende mais de 250 mulheres por dia, quase metade vem da Romênia. Segundo a Polícia Nacional, desde abril de 2013, são realizadas mais de 700 operações contra o tráfico de pessoas com mais de 2.100 detidos e 32.300 vítimas identificadas.

Sobre o processo de recuperação, a mediadora reconhece que nunca é fácil. A chave, diz Carla, é ter uma alternativa e uma formação para encontrar outra forma de vida. Ela passou por 11 psicólogos e, depois de sua experiência pessoal e na associação, chegou a uma conclusão: “Venho de uma família emocionalmente desestruturada e todas as vítimas que conheci também. Disse a meu pai que isso aconteceu porque ele nunca esteve do meu lado e garanti que não vou deixar que aconteça o mesmo com minhas irmãs”.

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