Rio 2016

As duas quedas que não derrubaram Diego Hypólito

Um dos principais destaques da ginástica brasileira chega mais maduro para sua terceira Olimpíada

Diego Hypólito durante Copa do Mundo de ginástica, em São Paulo
Diego Hypólito durante Copa do Mundo de ginástica, em São PauloRicardo Bufolin (CBG)

Nos jogos de Pequim, em 2008, até cerca de um minuto de sua prova, Hypólito era ouro. Na sua última diagonal – como é chamada a série de piruetas impensáveis que os atletas executam de uma ponta a outra do estrado de competição –, tomou fôlego, correu, pulou, girou e caiu. Aterrissou ainda com os dois pés no chão, mas com os joelhos já flexionados, tombou de bunda. O que significava que o sonho da medalha, qual fosse ela, acabava ali. Em destaque nas filmagens, sua expressão dizia: não acredito, não é possível, isso não está acontecendo. Em 2012, em Londres, a conversa foi outra e a queda mais feia. De cara no estrado. Mas não era uma final, ele já não era a promessa que havia sido em Pequim e as quatro cirurgias – ombro, joelhos e duas no pé – por quais tinha passado, ajudaram a diminuir também suas próprias expectativas.

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Primeiro, ele apareceu para o Brasil como o irmão mais novo de Daniele Hypólito, um dos nomes mais conhecidos da ginástica feminina brasileira. Depois, em 2008, foi alçado a uma das maiores esperanças de ouro para o País. Não à toa. Em 2005, aos 19 anos, duas semanas depois de ter voltado de um período de ostracismo de seis meses, resultado de uma lesão na tíbia, foi campeão mundial. Em 2006, foi prata. Em 2007, bicampeão mundial. “Ser famoso já me deslumbrou um pouco. Eu achava que era invencível, mas ninguém é. Eu me senti muito envergonhado quando caí. Me senti pior que um criminoso, foi uma morte para mim, demorei para me reerguer como pessoa”, disse em entrevista ao programa Fantástico sobre a queda de 2008. Apesar disso, seus resultados continuaram expressivos. Em 2011, por exemplo, foi bronze no mundial e ouro no Pan-Americano.

A confirmação de que ele realmente iria participar dos Jogos Olímpicos deste ano veio em cima da hora. Diferente de 2008 e 2012, quando se classificou pelos seus bons resultados individuais nos mundiais, desta vez foi escolhido para integrar a equipe de ginástica pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Apesar de já não conseguir os mesmos resultados que alcançava antigamente, ainda é um forte competidor e com uma carga de experiência que pode ajudar o time de cinco atletas.

O momento é especial para a modalidade no Brasil. É a primeira vez que o país leva uma equipe masculina para a competição. Nos anos dos tombos de Hypólito, ele e Arthur Zanetti – que ganhou o ouro nas argolas em 2012 – competiam apenas individualmente.

"O atleta é depositário do desejo do torcedor, então, quando ele perde, erra, nós projetamos a sombra no atleta. A derrota dele acaba jogando na nossa cara que também somos falíveis, incompletos"

Sorriso fácil, 1,70 metros, 65 kg, Hypólito nasceu na cidade de Santo André e mudou-se para o Rio de Janeiro ainda cedo, onde começou no esporte aos sete anos de idade. Na capital carioca, passou aperto financeiro junto com a família e teve de ajudar o pai como vendedor nas areias da praia. Ao longo de sua carreira já passou por inúmeras cirurgias, a primeira aos 14 anos, quando os médicos disseram que ele não poderia mais voltar ao esporte. Expansivo, brincalhão, como ele próprio se define, não é de se esconder. Embora proibido de usar as redes sociais durante os jogos, o ginasta costuma publicar diariamente no Instagram e Facebook. Talvez por isso mesmo tudo que faz ganha repercussão. Sexualidade, decisões pessoais e até o cabelo são alvo constante de especulações. Assim como acontece com outros ídolos brasileiros, é possível dizer que o brasileiro vive uma relação dúbia com Hypólito.

“O atleta, antes de mais nada, é ser humano, é falível. Ele já errou muitas vezes antes e quem não acompanha o dia a dia do esporte, não tem noção disso, acha que tudo se resume àquele um minuto. Nenhum atleta olímpico entra para perder, por isso sou completamente contrária a chamar qualquer um de ‘amarelão”, diz Kátia Rubio, pesquisadora da trajetória olímpica brasileira. Depois de 2008, parte dos torcedores passou a tachar Hipólito de “amarelão”. “O atleta é depositário do desejo do torcedor, então, quando ele perde, erra, nós projetamos a sombra no atleta. A derrota dele acaba jogando na nossa cara que também somos falíveis, incompletos”, comenta Rubio. Para ela, a torcida é cruel porque não sabe o que o atleta olímpico passa. “Ele é um operário do esporte, está sozinho trabalhando e ninguém trabalha mais pelo esporte do que o atleta”. Uma semana normal, por exemplo, vai de segunda-feira à sábado, com sete horas diárias de treinos e três de fisioterapia.

A poucos dias de sua estreia, neste sábado, as notícias sobre Hypólito falam de um namoro conturbado, de uma polêmica envolvendo sua desistência de última hora de participar de um quadro do programa de auditório do Faustão, de um ex-treinador que está sendo acusado de pedofilia. Contudo, apesar dos burburinhos, Hypólito aparenta calma e uma segurança que, como ele próprio diz, é bem diferente da sensação de deslumbramento que tinha em 2008. Mas segundo conta, a maior parte dos torcedores com quem cruza na rua quer mesmo saber é se ele vai ganhar medalha este ano. Bom, a isso Hypólito tem respondido que espera “passar o treino para a hora da competição”. Ou seja, executar o que ele sabe fazer em treinamento e concluir, pela primeira vez, a prova. A medalha é outra história.

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