Unesco consagra Le Corbusier e torna Pampulha, de Niemeyer, patrimônio mundial

Organização da ONU declara Patrimônio Mundial 17 obras do arquiteto suíço em sete países

Edifício L'Unité d'Habitation, em Marselha, obra de Le Corbusier de 1952.EL PAÍS VÍDEOundefined
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Charles Édouard Jeanneret (La Chaux-de-Fonds, Suíça, 1887- Roquebrune-Cap-Martin, França, 1965) – um Picasso da arquitetura pelo repertório e idiomas plásticos diversificados que construiu – foi resumido em 17 imóveis fundamentais pelo comitê internacional de especialistas que avalizou sua candidatura. O fato de Frank Lloyd Wright ter somente dois trabalhos e que Oscar Niemeyer tenha sido lembrado somente pela Pampulha demonstra o valor pioneiro que a Unesco atribui a Le Corbusier.

O icônico e o cotidiano, a densidade urbana e as novas técnicas de construção, a cidade e a cabana, o sagrado e o mundano, tudo fez parte da obra desse pintor filho de um relojoeiro suíço que, após construir a casa de seus pais, dedicou uma década de sua vida a viajar por culturas diferentes da sua. Com a digestão dessa bagagem, um singular dom plástico e uma enorme capacidade de se arriscar, se transformou no grande mestre da arquitetura moderna. Não existiu ninguém tão livre e tão seguido. Também é difícil encontrar alguém mais polêmico. Seus monumentais edifícios em Chandigarh (Índia) são uma meca arquitetônica que recebe hordas de visitantes, mas em sua época foram criticados por serem contrários às necessidades da grande maioria das pessoas.

Desde que a Unesco constatou, em 1994, que deveria corrigir a preferência pela arquitetura histórica, cristã, elitista e ocidental, o órgão tentou abrir suas portas a outro tipo de patrimônio. Dos quase oitocentos edifícios protegidos, apenas 20 eram modernos – de Gaudí, a Casa de Luis Barragán, no México, passando por Brasília –. A chegada ao pódio das principais tipologias pensadas por Le Corbusier dá o cetro da arquitetura moderna a um arquiteto com o qual aprenderam, bem e mal, tantos projetistas. Sua marca vai além dos livros de história. Continua alimentando os melhores, mas também impulsionou a construção de blocos de apartamentos que desvirtuam nossas cidades.

A igreja de Ronchamp (França), de 1955, erigida por Le Corbusier.
A igreja de Ronchamp (França), de 1955, erigida por Le Corbusier.CORDON PRESS

A candidatura de Le Corbusier tentou sem sucesso conseguir a proteção da Unesco em duas ocasiões. Mas, como acontece com Picasso, ordenado cronológica e por tipologia, seu legado resume a arquitetura do século XX. Da casa que construiu para seus pais, em 1924, até o El Cabanon, de apenas 12 metros quadrados, em Cap Martin, onde se afogou em 1965. E entre essas obras: sublimes edifícios religiosos – Ronchamp e La Tourette—, propostas de convivência urbana —L’Unité de Habitation, em Marselha, apoiado em pilares, com jardim no terraço e um andar de comércio interno—, e a normalidade da casa do médico Pedro Curutchet, em La Plata, nas proximidades de Buenos Aires. O reconhecimento da Unesco coloca por fim a modernidade à altura do melhor gótico. Ajuda a colocar sua força no mesmo patamar do antigo.

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