Morre Elie Wiesel

Elie Wiesel, o rosto da memória do Holocausto

O escritor, sobrevivente dos campos de concentração e prêmio Nobel da Paz, faleceu aos 87 anos

Elie Wiesel, em 2015.GARY CAMERON (REUTERS)

Em trecho de seu discurso de recepção do Nobel, Wiesel afirma: “Eu me lembro: foi ontem, ou há uma eternidade. Um menino judeu descobriu o Reino da Noite. Lembro de seu desconcerto, lembro de sua angústia. Foi tudo tão rápido. O gueto. A deportação. O vagão de gado fechado. O altar em chamas onde a história do nosso povo e o futuro da humanidade seriam sacrificados. Lembro que ele perguntou ao seu pai: ‘Isso é mesmo verdade? Isto é o século XX, não a Idade Média. Quem consegue autorizar que crimes como estes sejam cometidos? Como pode o mundo permanecer em silêncio? ‘. E esse menino agora se volta para mim e pergunta: ‘O que você fez com o meu futuro? O que você fez com a sua vida?’. E eu respondo que tentei. Tentei manter a memória viva, tentei lutar contra aqueles que esquecem. Porque, se esquecemos, somos responsáveis, somos cúmplices”.

O menino com quem Wiesel dialogava nesse discurso nasceu em 1928 em Sighet, Transilvânia. Aos 15 anos de idade, foi levado com toda a sua família pelos nazistas para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreram sua mãe e sua irmã menor. Seus dois irmãos mais velhos sobreviveram. Depois, ele e seu pai, Shlomo, foram transferidos para o campo de Buchenwald, onde Shlomo morreu pouco antes da liberação, em abril de 1945. O número de identificação como prisioneiro que ele manteve tatuado em seu braço até o fim da vida era A-7713.

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Depois da guerra, formou-se em Paris, como jornalista. Não falou sobre o Holocausto durante dez anos. Acabaria por escrever dezenas de ensaios e romances, dentre os quais se destaca a trilogia sobre a experiência nos campos de concentração. O primeiro desses livros, A Noite (1955), foi traduzido para mais de 30 línguas, segundo a Fundação Eli Wiesel para a Humanidade, instituição que ele próprio criou juntamente com sua mulher e da qual era presidente. “Esquecer os mortos é o mesmo que matá-los pela segunda vez” –eis a ideia central desse livro e que o guiou a vida inteira. Na obra, Wiesel relata a sua vergonha por ter permanecido em silêncio deitado em seu catre enquanto seu pai era espancado.

Wiesel dedicou a vida à defesa dos direitos humanos, a manter viva a memória do Holocausto por meio da educação e da defesa apaixonada do Estado de Israel. Entre as causas apoiadas por sua fundação, segundo a própria organização, estiveram a defesa dos judeus da antiga URSS, os desaparecidos da ditadura militar argentina, os refugiados do Camboja, os curdos e a luta contra o Apartheid na África do Sul.

Como ativista, Wiesel se opôs à reunificação da Alemanha em 1989, afirmando que isso alimentaria o ressurgimento do antissemitismo. Em 1985, ao mesmo tempo em que recebia na Casa Branca a medalha de Ouro do Congresso dos Estados Unidos, criticou abertamente o presidente Ronald Reagan por ter agendado uma visita, na Alemanha, a um cemitério onde se encontravam alguns dos mais altos dirigentes do nazismo. “Esse não é o seu lugar. O seu lugar é ao lado das vítimas do nazismo”, disse. A Fundação Wiesel, assim como ele próprio, foram vítimas da gigantesca trapaça armada pelo investidor fraudulento Bernie Madoff. Wiesel e sua mulher, Marion, perderam tudo o que haviam poupado ao longo de suas vidas, e a Fundação perdeu 15,2 milhões de dólares.

Em entrevista ao EL PAÍS, quando estava com 58 anos, Eli Wiesel fez uma reflexão sobre a geração de intelectuais sobreviventes dos campos nazistas, da qual fazem parte Primo Levi, Jorge Semprún e ele próprio. “Nunca houve uma geração tão obcecada pela memória como a nossa, mas acredito que este é o patrimônio que devemos deixar para os nossos filhos”.

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