Eleições Municipais

Marta Suplicy: “Meu voto pelo impeachment não é relevante para o eleitor da periferia”

Filiada há um ano no PMDB, Marta Suplicy diz que ganhou novos eleitores ao deixar o PT Ex-prefeita critica gestão Haddad e diz que reveria a redução da velocidade nas marginais

A senadora Marta Suplicy, em seu escritório em São Paulo, no dia 24 de junho.
A senadora Marta Suplicy, em seu escritório em São Paulo, no dia 24 de junho.Ricardo Matsukawa

Marta recebeu o EL PAÍS em seu escritório no Jardim Paulista, bairro nobre da zona oeste da cidade, no final da tarde da última sexta-feira, 24 de junho, após um dia já cheio de compromissos de pré-campanha. Mais sorridente que o habitual (ao menos com jornalistas), se mostra bem à vontade com o papel de candidata.

Pergunta. Há um ano você mudou do PT para o PMDB. Qual avaliação faz desse primeiro ano no partido, considerando que a decisão foi bastante pautada no combate à corrupção e, agora, a cúpula do PMDB também está no centro da Lava Jato. Valeu a pena a mudança?

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Resposta. Acho que valeu muito a pena. O PMDB tem uma história, tem gente de vanguarda e gente conservadora. Eu me sinto muito acolhida. O que eu tinha como sonho na época que entrei no PT, e que também acabaram sendo desapontamentos que me fizeram sair — como ética, como direitos LGBT, desigualdade social diminuída, empoderamento das mulheres, tudo o que eu acredito, ali tem espaço — no PMDB eu não vejo nenhum empecilho para continuar essas lutas. Ao mesmo tempo, como senadora pelo Estado de São Paulo, eu tinha que ir para um partido grande, estruturado. Nenhum dos grandes partidos, nem mesmo os pequenos, estão imunes a essa questão de ter gente investigada. E tem uma diferença entre o PT e o PMDB: no PT, foi ficando cada vez mais evidente o uso do recurso público para uma organização partidária, endêmica, sistêmica... O partido perdeu o rumo dos seus objetivos iniciais e teve como meta a manutenção do poder. O projeto para o Brasil virou secundário. No PMDB, tem gente investigada, mas não tem essa canalização para uma permanência no poder. São pessoas que usam, ou não usam [recursos públicos], agora as investigações estão em curso... Então é uma diferença grande.

P. O seu voto pelo impeachment da Dilma teve uma repercussão negativa entre parte do seu eleitorado tradicional. A sua casa em São Paulo foi alvo de um escracho em maio, a sua página no Facebook sofreu um vomitaço, como ocorreu com a página do presidente interino Michel Temer...

R. Foi o PT que organizou isso.

P. Mas existe um núcleo que se sentiu traído e a acusou de golpista...

R. Acho que são dois momentos diferentes. Quando eu saí do PT eu senti que houve uma compreensão grande mesmo entre os petistas mais acirrados. Na militância como um todo. Com a questão do impeachment, eu acho que a militância petista radicalizou. Porque está tentando salvar o insalvável. Agora, na periferia, com as pessoas que são minhas eleitoras e foram do PT, isso não tem a menor relevância. Eles acham que, e isso é até interessante, que tanto faz o partido que eu estou. Eles me dizem: ‘eu voto em você porque você fez pra gente’. Eles estão muito contra o PT, se sentem traídos pelo atual prefeito, então a situação é essa.

P. Na sua avaliação então esse eleitorado que se sentiu traído com o voto pró-impeachment já não seria talvez o seu eleitorado para esta eleição?

R. Não, não... Desculpe, acho que não me fiz clara. Esse eleitorado dito petista da periferia não vota mais no Haddad. Eles falam: o prefeito nos abandonou. Então esse eleitorado que eu tinha na periferia continua, não teve diferença. E eu tive um benefício. Por exemplo, eu vou a um restaurante mais de classe média, no centro, ou no avião, eu escuto muito isso, as pessoas dizem: ‘olha, eu nunca votei em você porque você era do PT e agora vou votar’. Então eu ganhei um novo perfil de eleitor.

P. Concorda com o argumento dos seus ex-correligionários de que o impeachment é um golpe?

R. Não, não... É uma tristeza esse tipo de argumentação. De jeito nenhum. Eu acredito a comprovação jurídica ficou absolutamente clara. Que foi feito de propósito e escondidos os gastos a mais do Congresso Nacional para poder usar um recurso que não teria condição econômica de usar. E isso está claríssimo. E fora juridicamente, politicamente, se não ocorrer o impeachment ela volta, certo? Mas ela volta pra fazer o quê? O que ela vai fazer? A Dilma paralisou o Brasil, ela não conseguia mais se mexer. Então eu acho que não tem nenhuma possibilidade de não ser votado o impeachment. Tenho convicção de que há base legal.

P. Como você avalia o processo contra o Eduardo Cunha, o fato de ter demorado tanto para o processo avançar na Câmara e ele não ter sido cassado ainda. Te causa algum incômodo, por ele ser do seu partido e por tê-la acolhido quando você entrou no PMDB?

“Com a questão do impeachment, eu acho que a militância petista radicalizou. Está tentando salvar o insalvável

R. Eu acho que causa um certo incômodo para todos, na medida em que o processo avança. Mas acho que está terminando essa situação.

P. Mas demorou, não senadora?

R. Ele usou de todas as prerrogativas como presidente da Câmara e por isso que o incômodo foi crescendo na sociedade.

P. Mas e dentro do PMDB, existe um desconforto declarado com a permanência dele na Câmara?

R. Não, o PMDB é um partido muito unido... Mas não é uma questão de ser PMDB ou não. Não se fala ostensivamente... Mas o desconforto existe. Não tem como não existir. Não é do PMDB, é do povo brasileiro.

P. Eu insisto justamente porque a questão da corrupção foi um dos motivos que a senhora alegou que a levaram a sair do PT...

R. Eu sei... Por exemplo, se você me pergunta se me constrange a questão do PMDB das investigações? Aí não. Porque não tem um partido hoje brasileiro que tenha uma razoável estrutura que não esteja sendo investigado. O PSDB está sendo, o PSB está... Então não me sinto desconfortável no PMDB por ter gente investigada. Porque eu considero o PMDB muito diferente do que o que ocorre no PT. No PT, como eu expliquei, é na veia, pra manutenção do poder. No PMDB eu não reconheço isso. Eu reconheço pessoas investigadas e são investigadas em atos que fizeram pra elas.

“Ter abaixado a velocidade nas marginais tem muito a ver com a indústria das multas. Vamos rever isso”

P. E como está a adesão do partido à sua campanha? Pela proximidade histórica do partido em São Paulo com o PSDB, alguns peemedebistas ainda estão divididos entre apoiá-la ou apoiar o João Dória [PSDB] ou o Andrea Matarazzo [ex-tucano, hoje no PSD]...

R. Eu sinto muita força, no sentido que não só o presidente interino me diz, como os grandes do partido, que a prioridade é São Paulo para o partido. Tanto é que o coordenador da campanha é o José Yunes, melhor amigo do presidente, que assumiu a presidência municipal do partido. Então isso foi um gesto do presidente interino Michel para com a candidatura. Eu me senti bastante contemplada.

P. O presidente interino Michel Temer deve participar da sua campanha?

R. Acho que no primeiro turno de jeito nenhum. No segundo turno não sei, é outro momento...

P. Por que de jeito nenhum?

R. Porque ele colocou que ele não ia se envolver nas questões municipais. Acho que foi até um tipo de compromisso. Acho que nesse primeiro turno ele vai tentar se manter mais afastado.

P. A primeira pesquisa de intenção de votos feita pelo Ibope, divulgada no dia 22 de junho, a mostra num segundo lugar embolada com seus adversários e com uma alta taxa de rejeição...

R. Eu achei que não significa nada essa pesquisa, porque 650 pessoas pesquisadas numa população de quase 12 milhões... É uma pesquisa com 4 pontos de margem de erro. Então eu não vejo esse cenário embolado em hipótese nenhuma. Acho que o Celso Russomanno está na frente, em uma situação jurídica delicada, em que ele pode ser candidato ou não, e os outros eu acho que estão bem atrás. Mas tem que pensar que pesquisa é um momento. Tem muita coisa pela frente.

P. Mas independentemente de pesquisas, você concorre com adversários que disputam diretamente o seu eleitorado, que é o prefeito Fernando Haddad e a deputada a Luiza Erundina. Ele do PT, ela hoje no PSOL, mas oriunda historicamente do PT... Isso não complica a sua situação na disputa eleitoral?

R. Eu tenho muito respeito por ela (pela Luiza Erundina). Mas eu não sinto isso. Eu acho que o eleitorado que vota em mim há algumas eleições é bastante fiel. Eu acho que ela pode ter alguns nichos, mas não sinto que isso vá complicar a minha candidatura.

“[A permanência do Eduardo Cunha na Câmara] Causa um certo incômodo para todos. Mas acho que está terminando essa situação”

P. Quem é o seu eleitorado hoje?

R. O povo pobre, onde eu trabalhei. Eu não fui uma prefeita que ficava no gabinete. Eu fui uma prefeita que ia pra rua, que ia lá, via as necessidades, ouvia, conversava, explicava... Esse povo com quem eu me conectei é o povo que acredita em mim. E eles lembram do meu legado. Gritam: ‘prefeita do Bilhete Único! Prefeita do CEU!’. Abraçam, pegam, querem tirar fotos... eu me sinto muito bem.

P. Qual a avaliação que você faz das ciclovias criadas pela gestão atual? Manteria?

Marta Suplicy, em entrevista ao EL PAÍS em São Paulo.
Marta Suplicy, em entrevista ao EL PAÍS em São Paulo.Ricardo Matsukawa

R. Toda grande metrópole tem bicicleta e colocar em prática uma ideia antiga para a cidade é positivo. Agora, a forma como foi executada foi pra conseguir quilometragem. Então se você for ver partes das ciclovias têm sentido, vão pra algum canto, foram bem feitas. Mas uma boa parte das ciclovias vão para nenhum lugar e as poucas que estão na periferia eu chamaria de ciclotintas, porque é uma tinta jogada e muitas vezes com buracos, sem cuidado e também não conduzindo para canto algum. Só que ele não fez o que o que deveria ter feito no começo, que são os bicicletários nos terminais. Então o que ocorre, primeiro se a pessoa chega no terminal não tem onde deixar. As pessoas têm muita vontade de ter esse modal integrado. Isso que é o civilizatório da bicicleta. Isso ele não fez. E aí nós vamos ter que fazer.

P. E a redução da velocidade do tráfego de veículos nas marginais Tietê e Pinheiros? A senhora já criticou a medida, apesar de dados oficiais apontarem a redução de acidentes.

R. Qualquer metrópole que tenha uma via expressa não é pra andar a 50 por hora. Então nós vamos ter que reavaliar essa questão. E essa questão de ter abaixado a velocidade tem muito a ver com a indústria das multas. Nós temos desde guarda municipal multando em cima da ponte, até lugares onde você tem cinco, seis radares... E lugares onde você sai da marginal sem nenhum aviso e você passa de 50 pra 40 quilômetros por hora. Então a sinalização já é feita de forma precária induzindo a multas. Não é uma coisa orientadora.

P. Mas para que fique claro: quando você fala em reavaliar, há possibilidade de reverter então a medida?

R.Total possibilidade de mudança. De voltar com outras prioridades de cuidados para que você tenha o mínimo possível de acidentes e de mortes. Também essa questão da diminuição das mortes tem a ver com a diminuição do uso dos carros pela população, não é só porque mudou a velocidade.

P. Você como prefeita acabou com a máfia dos transportes e instituiu o bilhete único. Qual a avaliação que faz do legado do Haddad em relação à mobilidade urbana?

R. Os corredores [de ônibus], eu aprovo a maioria deles. Fez poucos, mas fez. Não fez terminais, que era uma necessidade muito grande da cidade, isso eu não entendi por que não fez, seria fundamental para melhorar... Então dá pra melhorar muito.

R. E o Uber? É a favor da regulamentação em São Paulo?

P. Os serviços de táxi em São Paulo estão regulamentados desde os anos 60 e são muito importantes para a cidade, mas se não houver a regulamentação do Uber correremos o risco de uma atuação predatória que desorganizaria todo o serviço de transporte individual na cidade. (...) Precisamos regulamentar adequadamente essa confusão. Grandes cidades já regulamentaram o Uber, Londres e agora Brasília, por exemplo.

P. O João Dória propôs vender o estádio do Pacaembu. O que você acha disso?

R. (Risos) Eu não venderia o Pacaembu. Mas pensaria em maneiras de utilizá-lo de uma maneira melhor, porque hoje ele é subutilizado. É um patrimônio da cidade, está subutilizado, e teríamos que pensar um uso do Pacaembu mais intenso.

P. E o fechamento da avenida Paulista aos domingo?

“Se não ocorrer o impeachment a Dilma volta. Mas ela volta pra fazer o quê? O que ela vai fazer?”

R. Acho interessante. Acho que começou na minha época, o José Serra parou. Tem aprovação da população. Pra variar, foi feito de improviso... Agora que estão começando a fazer as linhas de ônibus paralelas... Mas acho interessante, manteria.

P. Qual a sua prioridade, caso eleita prefeita de São Paulo?

R. A prioridade fundamental que eu percebo é a necessidade de informatização da cidade, porque nós temos uma cidade online, mas a prefeitura não está online. Então tem uma defasagem gigantesca. E é muito diferente você acessar o wifi numa praça e você acessar os serviços públicos on-line. Isso não foi feito, mas mudaria a vida do cidadão. Por exemplo, você tem um cartão SUS que não conversa com o restante do sistema. (...) Você vai pra um hospital, faz todos os exames, aí te encaminham pra outro hospital, e chega lá e seu prontuário não está no cartão SUS. Então você tem que fazer todo o trabalho novamente. Nós temos que informatizar a questão da saúde toda. Uma cidade informatizada teria impacto em todas as áreas. Isso é o que nós chamamos de uma cidade moderna.

P. Senadora, mudando um pouco de assunto...

R. Mas eu posso falar da questão da segurança também?

P. Pode, claro...

R. O papel da Guarda Municipal é fundamental para a segurança. Foi totalmente desvirtuado nas gestões anteriores e o Haddad piorou. Eu tenho conversado muito com a Guarda Municipal e, pra minha surpresa, o número de guardas hoje ainda é exatamente o mesmo do meu concurso, que foi 6.000 guardas. Só que a população aumentou muito, a função da guarda aumentou. Então a guarda vai ser uma das principais preocupações minhas.

“A vida ensina, né? Se a pessoa tem capacidade para aprender ela evolui, ela melhora. Eu acho que melhorei muito de quando fui prefeita”

P. A senhora já reclamou, em mais de uma ocasião, ter sido vítima de machismo. Ainda acredita que isso ocorra, após tanto tempo na política? E como avalia o Congresso atual?

R. Eu acho que o machismo sempre permeia as entrelinhas. Sempre. Eu acho que existe isso na sociedade brasileira, em todas as profissão. Não é porque eu sou senadora, fui prefeita... Não é porque eu tenho uma força política que isso não permeia. Permeia sim. (...) Temos um Congresso completamente conservador, que de certa forma espelha um pouco algo que está acontecendo na sociedade e no mundo. Quando você vê o Donald Trump nos EUA, o Brexit, a Marine Le Pen na França... Você vai percebendo que o mundo está muito estranho. Nós tivemos grandes avanços em termos de comportamento e de repente estamos retroagindo de forma muito intensa. E o Congresso brasileiro reflete isso. E a gente tem que fazer o que pode. (...) Por outro lado, me deu muito gosto ver que as mulheres brasileiras estão reagindo. Esse empoderamento das mulheres é muito bom.

P. Você criticou muito a forma como a imprensa cobriu o seu mandato como prefeita de São Paulo. Acha que influenciou o fato de ser mulher?

R. Eu acho que foram duas coisas: por ser PT, e o meu sucesso fortaleceria muito a campanha do Lula [em 2001], e por ser mulher também. Foram dois ingredientes que ajudaram.

P. Hoje melhorou a sua relação com a imprensa?

R. Sim, sim, eu estou me sentindo mais à vontade com a imprensa também. Eu tinha menos experiência, ficava ofendida com algumas perguntas...

P. Você parece um pouco mais relaxada mesmo...

R. (Risos) E perguntas que um jornalista tem que fazer porque é da profissão às vezes me ofendiam... E talvez não tivesse a ver com perseguição. Então eu acho que aprendi a superar. Eu superei. A vida ensina, né? Se a pessoa tem capacidade para aprender ela evolui, ela melhora. Eu acho que melhorei muito de quando fui prefeita, não só da experiência política, mas da própria maturidade.

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