Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

A islamofobia como ideologia

Partido xenófobo de Geert Wilders lidera as pesquisas na Holanda, onde se espalha o medo contra qualquer coisa que venha de fora – em especial os muçulmanos

Concorridas mesas de bar ao ar livre na cidade do Volendam, em 5 de junho.
Concorridas mesas de bar ao ar livre na cidade do Volendam, em 5 de junho. TONE KOENE (NEWSCOM)

Sol, veleiros, bicicletas coloridas e bastante medo. Medo de que a plácida vida que os habitantes de Volendam, uma pequena cidade portuária da Holanda, conheceram até agora deixe de existir. De que seus filhos não encontrem trabalho, de que Bruxelas decida por e contra eles, da indomável globalização e de que os muçulmanos estrangeiros venham a impor seus costumes. O variado catálogo de temores dos moradores do Volendam traduz o arcabouço ideológico do PVV, poderoso partido de ultradireita de Geert Wilders, que alimenta os medos mais recônditos dos holandeses e constitui uma guerra declarada ao islamismo. Se a Holanda tivesse eleições gerais hoje, o PVV (sigla em holandês de Partido para a Liberdade), grande referência da ultradireita europeia, seria o mais votado. O que acontece em Volendam seria uma mera curiosidade, não fosse uma amostra fiel dos sentimentos que percorrem e desagarram este país e parte da Europa.

Volendam tem canais, fábricas de queijo, tamancos de madeira e japoneses que tiram fotos num estúdio vestidos como holandeses. Tem também uma Praathuis (casa da conversa), uma encantadora choupana de madeira dedicada justamente a esse fim, a conversa, onde Cornelius e outros pescadores se juntam para bater papo. Pensam em votar no PVV? Alguns assentem com a cabeça. “Queremos protestar, queremos que os políticos de Haia fiquem sabendo que estamos fartos de nos ignorarem”, diz Cornelius. A pesca já não abunda como antes, e competir com os camarões-rosa do Senegal é missão impossível. Com 12 anos eles já iam para o mar. Agora seus filhos, aos 23, ainda procuram trabalho. E há as queixas com a pensão, insuficiente, e com o quanto custa ir ao médico. Dizem que Wilders pelo menos veio algumas vezes visitar esta localidade de 35.000 habitantes. Outros políticos, nem isso.

Mapa de Holanda

Quase 35% do eleitorado de Volendam votaram em Wilders nas eleições de 2014 para o Parlamento europeu, muito mais do que em qualquer outro partido. Aqui praticamente não há imigrantes nem rastro de supostos estragos do multiculturalismo contra o qual o PVV se insurge. Mas justamente por isso votam no político de cabeleira oxigenada. Porque os pescadores que percorrem o país vendendo seu produto dizem não querer que sua cidade acabe como Roterdã e Amsterdã, com moças de jihab na rua e rapazes magrebinos matando o tempo nos parques. Seu voto, como o de milhões de europeus, é um voto preventivo e conservador no sentido mais literal. Querem preservar seu apreciado estilo de vida.

Conquistar terras do mar

O museu da cidade recria a luta dos holandeses dos pôlderes, de homens e mulheres que, graças à coesão social e ao apoio mútuo, foram capazes de conquistar terras do mar. Crelis Tuip veio hoje com seus alunos visitar o museu. “Veja, aqui todos nos conhecemos. Há um controle social que funciona. Se vier gente de fora, como vamos controlar sua conduta? Se ainda por cima não trabalharem e for preciso lhes pagar o seguro-desemprego...” Tuip diz que nunca votaria no PVV, mas que compreende perfeitamente por que seus concidadãos votam.

Thierry Baudet tem um ar aristocrático e uma taça de vinho espumante na mão, que degusta diante de um canal sulcado por barcaças coloridas, no centro de Amsterdã. É um escritor próximo do PVV e fundador do Fórum para a Democracia, plataforma que promoveu o referendo contra o acordo de associação entre a UE e a Ucrânia, que os eurocéticos ganharam de goleada, em abril. Afirma ser também uma fonte de inspiração para Wilders. Seu discurso é calcado no ideário que circula com fluidez pelo resto da Europa. “Nosso sistema político foi sequestrado por lobbies e elites políticas que só pensam em si mesmos. Não estão conscientes da sua decadência. É uma crise geral. É como o início do fim do Império Romano.” E continua: “O islamismo é violento e muito diferente de nós. Querem nos impor a sua cultura. Estamos perdendo o controle de como organizamos nossas vidas. Há bairros que já não parecem holandeses, estão se islamizando”.

Wilders ditou os rumos para os partidos europeus assemelhados ao identificar na luta contra o islã a grande emergência europeia e ao professar uma devoção por Israel que era inédita entre as forças de extrema direita no continente, tradicionalmente antissemitas. A islamofobia é hoje um dos eixos ideológicos que cimentam a aliança entre esses partidos.

Dannij van den Sluijs, um político do PVV no norte da Holanda, se aprofunda na tese da invasão. “Os muçulmanos estão se apropriando da Holanda, e nós precisamos escolher entre a religião e a liberdade de expressão”. Mas em seguida dá um jeito de interromper a conversa telefônica com este jornal, porque os políticos do PVV não costumam falar com a imprensa. Seus canais são outros – preferem as redes sociais e os encontros corpo a corpo com os eleitores. “Não vou falar mais com você. Para quê? Não preciso, não vou ganhar nada”. Talvez tenha razão.

Na Internet e até no Parlamento, a maré xenófoba parece estar fora de controle. Os grupos contrários a mesquitas e centros de refugiados não param de crescer, e os extremistas exibem uma assertividade impensável há algumas décadas na Holanda, outrora o reino da correção política e do progressismo. Um desses ataques custou um processo judicial a Wilders, quando ele disse que era preciso “limpar” o país de marroquinos.

Suas palavras têm um reflexo nas ruas, onde a segregação entre os muçulmanos e o resto da população é uma realidade. “A disparidade aumenta. Os holandeses têm medo do islã, e os muçulmanos temem os holandeses. É uma sociedade cada vez mais segregada”, diz Maarten Zeegers. Esse jovem é uma das pessoas que mais conhecem os dois mundos, pois viveu infiltrado durante três anos em Schilderswijk, no chamado Triângulo da Sharia. Morava e rezava como muçulmano nesse bairro de Haia, e acaba de publicar um livro contando a experiência, Eu Fui Um Deles. Ameaçado, precisou fugir da cidade. Para Zeegers, Schilderswijk é um mundo paralelo, no qual muitos muçulmanos vivem temerosos de que a onda xenófoba os alcance, conta ele num bar de Roterdã.

Ramadã em Haia

Schilderswijk não se parece em nada com Volendam. Os edifícios são meio feios, e, diferentemente do resto da Holanda, quase todos têm as cortinas fechadas, para que as mulheres possam andar pela casa sem o hijab que vestem para sair à rua. A paisagem humana é variada e exótica, num país onde predominam a pele clara e o cabelo loiro. Hoje é dia de feira, e há muita atividade, embora alguns quiosques de comida funcionem a meia força porque já começou o Ramadã, época de jejum diurno.

“Quem nunca esteve aqui acredita em tudo o que Wilders diz”, afirma Aad van Loenen, diretor de uma escola de formação profissional do bairro, onde a grande maioria dos alunos é de origem estrangeira. Conta que são crianças e adolescentes com pouca confiança em si mesmos e no seu futuro. Acham que não terão as mesmas possibilidades que os demais holandeses. Ele tenta convencê-los do contrário. No pulso, usa um bracelete laranja com a mensagem que busca incutir nos alunos: “Não há limites, não há desculpas”.

O perfil do eleitor do PVV traçado por Peter Kanne, da empresa de pesquisas I&O Researches, é o de um homem branco, insatisfeito, de 35 a 65 anos, provavelmente com poucos estudos, mas não só. Há também engenheiros, arquitetos, advogados, tudo. Vivem no campo ou nos bairros operários das cidades. “Eles têm a sensação de que o Estado ajuda os refugiados, a Grécia… todo mundo menos eles.”

Esse retrato-falado se ajusta a Richard e Irene, um jovem casal de Eindhoven. Eles estão convencidos de que Haia e Bruxelas os enganam há anos, e que chegou a hora de dizer chega. Ela trabalha numa padaria, ele é engenheiro informático, ambos têm cerca de 30 anos. “É o único partido no qual votar se você é contra que venham mais [imigrantes]. Não há dinheiro para garantir nossos benefícios sociais e pagar os imigrantes. É preciso escolher”, afirma Irene.

“Eu não gosto da União Europeia. A gestão dos refugiados tem sido catastrófica. Não é possível não sabermos quem entra e quem sai das nossas fronteiras”, acrescenta Richard, que certo dia foi parar numa reunião do PVV e não parou mais de frequentá-las. “Se você assiste à televisão, acha que [os políticos do PVV] são muito maus, mas quando você os ouve é diferente.” Como muitos compatriotas, está convencido de que Wilders é praticamente um profeta, que previu o caos na Europa e não se equivocou.

MEDO DA MUDANÇA

Em Haia, Kim Putters, diretor do Instituto Holandês de Pesquisas Sociais, um órgão público, oferece dados muito reveladores: “Quando perguntamos do que a pessoa se gabaria na Holanda diante de um estrangeiro, dizem três coisas: Estado de bem-estar, liberdade de expressão e o sucesso das suas multinacionais. Agora, sentem que as três estão em perigo”. Ele conta que a Holanda está entre os cinco países do mundo com maior expectativa de vida e produtividade, além de ter um fortíssimo Estado de bem-estar, mas muita gente não enxerga assim. A mudança climática, o Estado Islâmico, a crise financeira e os cortes orçamentários desencadearam o medo de um futuro cheio de nuvens. “Além disso, as pessoas estão cada vez mais bem formadas e aspiram a participar mais das decisões. Sentem que as instituições estão lhes traindo.”

A digestão desse medo da mudança passa pela rejeição a quem vem de fora, seja a globalização ou os refugiados. “Não via tanta tensão desde a Segunda Guerra Mundial. Vemos que atacam os centros de refugiados e que a polícia militar protege as sinagogas”, afirmou o pesquisador. Os dados colhidos por seu instituto indicam que a confiança nos políticos em 15 países da UE é bastante baixa – ronda o 5,8 de média, e a Holanda está um pouco abaixo dessa cifra. Esses indicadores revelam também que 33% dos holandeses acham que o Governo deveria restringir ou mesmo impedir totalmente a entrada de pessoas de outra raça ou grupo étnico.

MAIS INFORMAÇÕES