MASSACRE EM ORLANDO

Estado Islâmico assume a autoria, mas é realmente o autor do atentado em Orlando?

Não existem indícios de que o ataque foi organizado pelo grupo nos moldes dos realizados em Paris

Autorretratos do assassino de Orlando, Omar Mateen.
Autorretratos do assassino de Orlando, Omar Mateen.

Existe uma enorme distância entre o nível de treinamento e organização da célula que atacou em Paris e Bruxelas e a natureza do ataque perpetrado por Mateen. Até onde se sabe, os homens de Abdelhamid Abaaoud foram recrutados, treinados e enviados da Síria para atacar a terra europeia do “infiel”. Salvo exceções como os irmãos El Bakraoui, que cometeram atentados na capital belga sem colocarem os pés no autoproclamado califado, a maioria dos atacantes sob as ordens de Abaaoud passaram algum tempo na Mesopotâmia. Como mostraram as imagens divulgadas pelo EI, chegaram até mesmo a decapitar reféns. Faziam parte do que os especialistas no fenômeno jihadista chamam de unidade de operações no exterior do Estado Islâmico. Receberam ordens.

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Existiram também os que passaram pela Síria, mas atacaram no exterior por conta própria. É o caso de Mehdi Nemmouche, autor do ataque no Museu judaico de Bruxelas, em maio de 2014.

O atacante da boate gay de Orlando pertencia a uma terceira categoria, a dos que simplesmente se inspiram no modus operandi do EI e, após expressar seu bayah (o juramento de lealdade) no primeiro lugar que encontram – Mateen o fez ligando para o 911 – comentem uma matança. Um padrão muito semelhante ao seguido pelos terroristas de San Bernardino (Califórnia). Existe base teórica com a marca do EI: em uma das primeiras demonstrações do esforço de internacionalização do grupo, em setembro de 2014, seu porta-voz, o sírio Abu Mohammad al-Adnani, exigiu a morte, não importa o local, de pessoas dos países que faziam parte da coalizão liderada pelos EUA contra o grupo jihadista.

Mateen não era, entretanto, um estranho para o FBI. Ele foi investigado em 2013 por ameaçar seus colegas de trabalho, a quem disse pertencer a uma organização terrorista. Um ano depois também foi investigada a pista de seus vínculos com Moner Mohammad Abu Salha, aliás Abu Hurayra al Amriki (o americano), terrorista nascido na Flórida que morreu em atentado suicida na Síria em maio de 2014. A agência soube de algum contato entre ambos, mas não substancial. Abu Salha foi um dos primeiros norte-americanos que emprestou seu rosto para a realização de propaganda jihadista na Síria. Pediu a adesão de compatriotas à causa através de vídeos e fotografias nas quais aparecia sorridente. Mas à época, ainda sem a proclamação do califado, sua ligação era com o ramo sírio da Al Qaeda, a Frente Al Nusra.

Dois órgãos de propaganda do EI já assumiram o ataque em Orlando. O primeiro foi a agência Amaq, braço midiático que informa através das redes sociais quase em tempo real sobre o que acontece no califado e suas províncias, desde avanços em Sirte (Líbia) até conquistas na região norte da Síria. No domingo, em uma de suas mensagens mais pobres em detalhes afirmou estar por trás do ataque à boate gay, que causou uma centena de “mortos e feridos”. Como em outras ocasiões nas quais o EI tentou ficar com os créditos, a agência recolheu informação geral na imprensa e a sintetizou em uma mensagem breve, com grande efeito multiplicador entre seus acólitos na Internet.

Na segunda-feira o Al Bayan, boletim informativo do grupo terrorista, se manifestou no mesmo sentido. Perguntado sobre seu conteúdo, o especialista em jihadismo Wassim Nasr disse que não existe nenhum detalhe que o diferencia da mensagem na Amaq.

A Internet é, justamente, como analisou na semana passada a instituição norte-americana The Soufan Group, o principal foro de recrutamento entre os radicais norte-americanos e, provavelmente, o que moveu Mateen. Como indicou a instituição, a maioria das aproximadamente 250 pessoas com cidadania norte-americana que viajou ao Oriente Médio nos últimos meses para realizar a jihad se utilizou das redes sociais, ao contrário dos europeus, mais inclinados a encontros cara a cara com recrutadores e doutrinadores.

A exceção nos EUA, o que alertou as autoridades, é a célula de Minnesota, da qual foram condenados em 3 de junho três norte-americanos de origem somali: Mohamed Farah, Abdirahman Daud e Guled Omar. Foram acusados de apoio à organização terrorista e conspiração para cometer atentados. O líder, Abdi Nur, conseguiu viajar a Síria em junho de 2014. Também não é provável que Omar Mateen, o atacante de Orlando, com os dados disponíveis até agora, seguisse esse caminho jihadista.

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