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Peru está partido ao meio com uma diferença de alguns milhares de votos para Kuczynski

A contagem põe à prova as instituições peruanas, que resistem à tensão

A imprensa peruana acompanha a contagem de votos.

Ninguém imaginou que o quarto presidente eleito consecutivamente no Peru, um recorde em um país com uma longa história de golpes e ditaduras, venceria por apenas alguns poucos milhares de votos. A diferença entre o liberal Pedro Pablo Kuczynki (PPK), que sai à frente, e a direitista Keiko Fujimori foi diminuindo com a apuração, até ficar em pouco mais de 50.000 votos sobre um total de quase 18 milhões (0,29%) com 98,2% contabilizados. Este final apertadíssimo está colocando à prova as instituições peruanas, que no momento resistem bem, em um ambiente de tensa calma, na qual o fujimorismo se nega a assumir a derrota em um país dividido quase exatamente pela metade. Alguns poucos manifestantes de ambos os lados se colocaram na porta da ONPE, o organismo eleitoral, para exigir que se conheça já o resultado definitivo e defender a vitória de seu setor.

O Peru todo se perguntava ontem a quem se poderia considerar mais informado se havia alguma possibilidade de que o apertadíssimo resultado se revertesse na última hora. A maioria dos especialistas que acompanhavam a contagem em detalhes concordavam que é praticamente impossível. Mas a diferença ia diminuindo cada vez mais. Começou com um pouco, caiu para seis décimos, depois cinco, quatro, três e um pouco menos de três com a chegada dos votos de algumas regiões afastadas. E alguns fujimoristas começaram a lançar nas redes a ideia de que a reversão era possível. No entanto, a vitória lhes escapava em uma longa contagem que pode durar até o fim da semana, com urnas trazidas a pé e de canoa das regiões mais afastadas da selva. À tarde, a diferença se ampliou de novo ligeiramente e a possibilidade de vitória de Kuczynski se consolidou. Com 97% das urnas contabilizadas, a diferença passou a 0,34 pontos.

“Não é fácil virar o jogo, mas também não é impossível”, explica David Sulmont, sociólogo e especialista em estatística, professor da Universidade Católica. “A distância diminuiu porque as últimas urnas que foram apuradas vêm das províncias e distritos afastados e rurais onde Fujimori efetivamente obteve 54% e 55% dos votos, mas o escrutínio quase acabou. O departamento mais atrasado agora é Loreto, onde o PPK está ganhando. Calcula-se que em nível nacional o PPK tinha uma vantagem entre 40.000 e 50.000 votos. Para reverter isso, Fujimori teria de conseguir pelo menos 55% de votos no exterior.” No primeiro turno votaram 472.000 pessoas que vivem fora do Peru. No entanto, a contagem parcial destes votos (em 38%) dava uma diferença menor, menos de três pontos em favor de Fujimori. “No pior cenário, a vantagem pode ser de 27.000 a favor do PPK no resultado nacional”, explica Sulmont.

Em um segundo turno como este, basta um único voto de diferença. Por isso alguns brincavam com um dos dados mais estranhos desse processo eleitoral: a decisão de Kenji Fujimori, irmão mais novo de Keiko, congressista mais votado do Peru e aspirante à sucessão, de não ir às urnas para votar em sua irmã. Desde então ele está desaparecido, uma prova da tensão interna vivida pelo fujimorismo, que está às portas de uma amarga derrota pela segunda vez consecutiva.

Apesar da tensão que se vive por trás, com a guerra entre os fiscais de cada um dos partidos para evitar que o rival lhes roube seus votos em cada uma das urnas em disputa, as cúpulas políticas mantiveram a calma. Sobretudo os dois candidatos. Se o PPK na noite eleitoral tinha pedido “cautela para que não nos roubem os votos” na segunda-feira só pediu calma à espera do “voto do exterior”, esperando que lhe fosse favorável. Fujimori, apesar dos temores do antifujimorismo que relembra os maus-feitos de seu pai e seus sequazes, também manteve um silêncio estranho e só disse uma frase que parecia uma ordem de calma aos seus: “vamos esperar com prudência o resultado final”. Dirigentes de sua equipe garantiam no entanto que ainda confiam em ganhar.

Os dados da contagem eram atualizados a cada duas horas, com avanços mínimos e diferenças em um final desesperado. Os peruanos rapidamente trocavam nas redes sociais qualquer novidade. Neste ambiente, e com uma democracia ainda jovem cheia de interrupções no século XX, a última sendo o autogolpe precisamente de Fujimori pai, ainda na prisão por crime de lesa-humanidade e corrupção, muitos destacavam a resistência das instituições democráticas colocadas à prova. Todos insistiam no “fato histórico” da quarta eleição democrática consecutiva.

“É preciso felicitar os dois candidatos por seu comportamento, temos uma democracia que vai se consolidando”, destacava o presidente do Congresso, Luis Iberico. Alguns acusavam o Governo de Humala de por a política e o exército para trabalhar contra Fujimori nas regiões do interior, e o primeiro ministro, Pedro Cateriano, respondeu indignado. “Não faz bem ao Peru divulgar especulações. Não há denúncia das missões de observação. Os policiais estavam onde deviam estar. Não estamos em uma ditadura, não há controle da mídia. Há democracia, não há autoritarismo, corrupção e fraude como no passado”, afirmou em referência ao fujimorismo. A única coisa que está clara é que o Peru está dividido ao meio. As instituições terão de demonstrar agora que estão preparadas para resistir a uma situação inédita.

Voto no resto do mundo define eleições no Peru

J. FOWKS / C.E. CUÉ

No primeiro turno das eleições, a candidata Keiko Fujimori obteve 42,88% dos votos dos peruanos no exterior; Pedro Pablo Kuczynski, 24,59%; e a Frente Ampla, 12,75%. Nesta terça-feira, a atenção se voltava às urnas procedentes do resto do mundo – as últimas que entrarão na contagem oficial e que decidirão o resultado. Com 38% dos votos apurados, a Força Popular liderava com 51,3%, seguida por PPK com 48,6%, ou seja, com uma diferença de 2,7%. Os peruanos no exterior representam 3,8% do total de eleitores do Peru. Numa contagem rápida (com algumas mesas representativas) realizada domingo pelo instituto de pesquisa GfK, os votos dos residentes no exterior dividiam-se em 52% para PPK e 47% para Fujimori.

Os maiores grupos de peruanos no exterior residem nos Estados Unidos, Espanha e Chile. Com 27% das urnas contabilizadas nos centros de votação dos EUA, PPK superava sua oponente por 19 pontos. No Chile, porém, Fujimori tem uma vantagem de 10 pontos, com 90% das urnas apuradas. Na Espanha, onde a apuração chega apenas a 4%, o economista obtém 54% dos votos contra 45% da ex-legisladora fujimorista. Na França, segundo cálculos não oficiais difundidos no domingo, Kuczynski ganhou com 60% dos votos; nesse país reside um maior número de eleitores ligados a grupos de esquerda em Lima, sendo que PPV venceu no primeiro turno com 29% seguido pela Frente Ampla (23%). O candidato liberal, que em dezembro renunciou à nacionalidade norte-americana para aplacar as críticas sofridas na campanha eleitoral, foi muito atacado por todos os setores por ter passado uma semana inteira nos EUA entre o primeiro e o segundo turnos. O ex-banqueiro de investimentos justificou que a longa viagem era necessária para atividades de proselitismo em Nova Jersey, onde vive a maior quantidade de compatriotas, e porque compareceria à graduação e ao aniversário de uma de suas filhas. Num momento de grande ansiedade da população em conhecer quem será o governante, a semana que os peruanos consideraram desperdiçada por Kuczynski nos EUA poderia ser, paradoxalmente, crucial para consolidar uma quantidade suficiente de votos a seu favor.

O voto do vale da coca

O chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais, Mariano Cucho, anunciou na manhã de terça que faltava contar os votos do Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM), o maior produtor de folha de coca destinada ao narcotráfico. “Ainda não chegaram ao centro de contagem os votos da complexa zona do VRAEM”, disse o funcionário à emissora Radioprogramas. O legislador fujimorista suspenso (por uma denúncia de violência doméstica) Juan Díaz Dios afirmou que nessa região seu bloco tem “20.000 votos de vantagem”. No entanto, um estudo realizado pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) indicou, no início de maio, que no VRAEM o voto majoritário foi para a Frente Ampla (51%). Keiko Fujimori realizou uma visita de nove dias ao sul no segundo turno, com atividades em localidades dessa zona isolada do país.

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