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PJ Harvey turismo do horror e da indignação

Cantora, uma das mais importantes de sua geração, traz em novo álbum referências à miséria. Ela se apresenta em São Paulo

PJ Harvey em uma imagem de seu site oficial.
PJ Harvey em uma imagem de seu site oficial.

Como observar, sem condescendência nem exasperação, a miséria deste mundo, suas abomináveis guerras em remotos territórios e os danos colaterais que levam décadas para cicatrizar, ou a desumana pobreza nos arredores das grandes capitais ocidentais? Até que ponto é lícito transformar o impacto do encontro pessoal com essa realidade em canções, com a intenção de que cumpram seu efeito informativo e emocional sem deslizar para a compaixão hipócrita de nosso olhar ocidental? São algumas das questões suscitadas pela escuta do novo álbum da aguerrida britânica PJ Harvey, que faz show em São Paulo nesta quarta-feira no festival Popload. Uma artista singular quando poderia ter-se mantido simplesmente extravagante. Premiada em 2011 com o Mercury Prize por Let England Shake, Harvey destrinchava naquele disco a própria noção de pátria britânica ao observar o marasmo deixado por Tony Blair depois da intervenção no Iraque, viajando ao passado para recolher oblíquos registros de como o império foi desmoronando sob uma névoa úmida e corrupta.

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Como inglesa de Somerset, estava em seu direito ao trazer à tona vergonhas nacionais. Outra coisa é o que acontece em The Hope Six Demolition Project, produto de suas viagens a zonas quentes - Afeganistão, Kosovo, um duríssimo bairro em Washington D.C - e as dolorosas conclusões, fugazes e marcadas pela subjetividade, que extraiu de tais excursões. São onze novas composições de orgânico vulto, vastos cantos de denúncia sustentados por vozes unidas em coro tribal: a reconhecível de Polly Jean, liricamente aguda e solenemente inflamada, e a de seus instrumentistas e o produtor John Parish. Guitarras arrastadas e saxofones irritados sobrevoam uma base rítmica que busca consenso étnico. Músicas e letras parecem fugidas do caderno de anotações daquelas excursões - com o fotógrafo Seamus Murphy - à barbárie e à desventura, que plasmaram no livro The Hollow of the Hand, com fotos dele e poemas dela.

Talvez ansiando manter o tom de frugalidade que requer tão incômoda temática, The Hope Six Demolition Project soa homogêneo e torrencial, como o registro de uma atuação mais que uma criação de estúdio. Começa marcial em The Community of Hope, visita um inferno suburbano de moradias semi derrubadas, viciados em drogas perambulando pelas ruas e escolas negligenciadas, onde, diz o refrão, “vão instalar um Walmart”. Antes da divulgação do álbum, a canção motivou reações iradas daquela comunidade às margens do poluído rio Anacostia, em Washington D.C., demonstrando a intrínseca problemática de uma obra musicalmente intrépida e de verbo descomedido. Segundo explicou Harvey, “coletar informação de segunda mão me distanciaria do que realmente pretendia escrever. Quis respirar o ar, sentir o terreno e conhecer as pessoas desses países que me fascinavam”.

Artista: PJ Harvey

Disco: The Hope Six Demolition Project

Selo: Island Records-Universal

Nota: 6 de 10

Dissonante, mas cálido, abundante em lampejos humanitários tanto como em impertinências e obviedades, tão essencialmente desequilibrado como a realidade que tenta capturar, embora ela lhe escape das mãos, The Hope Six Demolition Project tem um primeiro ato sólido -The Ministry of Defence, A Line in the Sand, A Chain of Keys, são dignas de sua autora - mas fraqueja no segundo, curiosamente mais melódico. Volta a se encaminhar mais para o final, em The Ministry of Social Affairs com sua amostra de um velho blues e um sax descarado, ou na indignada toada que dá impulso a The Wheel. Finaliza elegíaco na frustrante Dollar, Dollar, cujas gravações de campo são pura ficção de boas intenções e correção política.

Esplêndido pela metade, o novo disco de estúdio de Polly Jean Harvey não é, embora pretenda, tão rompedor como seus dois anteriores. E padece de certa ingenuidade: não é preciso passear por escombros para sentir uma pontada profunda diante de uma criança que pede uma moeda do outro lado do vidro.

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