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A temporada de caça aos deputados “indecisos” sobre o impeachment

Governo, oposição, movimentos sociais, família e amigos: estão todos atrás dos votos indefinidos

Carlos Eduardo Cadoca (centro) na Comissão de Turismo.
Carlos Eduardo Cadoca (centro) na Comissão de Turismo. Câmara dos Deputados

“Já definiu sua posição, deputado?”, ouviu Carlos Eduardo Cadoca (sem partido-PE) ao desembarcar em Brasilia, no Aeroporto Juscelino Kubitschek, na segunda-feira. O eleitor que o questionava empunhava um telefone celular que exibia a lista de deputados “indecisos” em relação ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Como vem fazendo desde que o processo foi aceito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em dezembro, Cadoca repetiu que não, não definiu como votará, mas prometeu sua posição para esta quarta-feira.

Recém-desfiliado do PCdoB, o deputado pernambucano que fez carreira política no PMDB só não anunciou sua posição nas últimas semanas porque não sabe se vai votar. Ele é suplente do bloco que apoiou o falecido Eduardo Campos (PSB-PE) e, posteriormente, a ex-senadora Marina Silva na eleição presidencial de 2014. Os quatro deputados da sua coligação que, depois de eleitos, se licenciaram da Câmara para ocupar posições no Executivo de Pernambuco, cogitam retomar os cargos para votar no domingo. “Eu gostaria de votar”, diz Cadoca, que espera uma definição sobre o assunto — e consequentemente de sua posição — para esta quarta.

Ao finalmente se posicionar em público, Cadoca poderá tirar das costas o fardo que tem sido para um parlamentar brasileiro não se posicionar sobre o impeachment. Durante os 30 minutos de conversa com o EL PAÍS nesta terça-feira, o deputado atendeu a dois telefonemas para responder que não, não podia se posicionar ainda, mas que anunciaria sua posição no dia seguinte. Deputado federal desde 1999, o parlamentar que começou a carreira política como vereador em 1982 diz nunca ter sofrido tanta pressão. “Meus filhos e minha mulher têm as posições deles e me cobram. Digo que não posso ter apenas opinião, tenho responsabilidade, tenho voto”, pondera o deputado.

Cadoca não é o único a enfrentar debates em casa por conta do impeachment. O deputado Aluisio Mendes (PTN-MA) desabafou na Comissão Especial do Impeachment: “Minha família está dividida. Inclusive familiares com quem eu convivo há 50 anos. Minha esposa tem posição diferente da minha”. Na mesma reunião, Ariel Machado (Rede-PR), que assim como Mendes votou contra o relatório pró-impeachment de Jovair Arantes (PTB-GO), disse que passou “muitos dias de extrema dúvida, pressão, amigos dos dois lados, juristas, mentiras, blogs, internet…”.

Durante os 30 minutos de conversa com o EL PAÍS, o deputado atendeu a dois telefonemas para responder que não podia se posicionar ainda

Corpo a corpo

Os deputados também estão expostos como nunca a manifestações públicas de desagrado por conta de suas posições — ou a falta de clareza delas. O líder do Governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), enfrentou uma chuva de dinheiro falso ao chegar ao Aeroporto de Fortaleza. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) também foi hostilizada ao chegar ao Aeroporto de Curitiba. Algo semelhante ocorreu com Cadoca no Aeroporto dos Guararapes, no Recife. “Fui questionado por um cidadão que apontou o dedo no meu rosto. Respondi com firmeza, porque senão ele poderia partir para cima de mim. Tenho conversado por telefone e por mensagem com gente do [movimento] Vem pra Rua. Eles são até bem educados. Se for assim, não vejo problema na pressão”, comenta.

Nem todo mundo consegue lidar tão bem com a pressão. O deputado João Carlos Bacelar Filho (PR-BA) acabou acusado na semana passada de assediar uma militante de 17 anos do Movimento Brasil Livre (MBL) que o instava a se posicionar sobre o impeachment por meio de mensagens de telefone — a pressão virtual sobre os deputados também é intensa. A assessoria do parlamentar atribuiu a autoria de mensagens como "você é linda" e "se for para namorar com vc posso pensar" a um funcionário de gabinete de Bacelar, que, informou o equipe do deputado, será exonerado.

Tudo isso ocorre em meio às negociações partidárias que podem levar um parlamentar a votar — ou deixar de votar — contra a sua convicção. O deputado Bebeto (PSB-BA) abriu mão de seu voto na Comissão do Impeachment porque é contra o impedimento e seu partido, o PSB, fechou posição a favor do prosseguimento do processo. É por conta de divergências como essa que o PP deixou a base do Governo e fechou posição pelo impedimento, mas, ao mesmo tempo, não pretende punir aqueles que votarem contra o impeachment.

Governo

A possibilidade de conseguir mais prestígio mesmo em um Governo que vai mal das pernas manteve por duas semanas PP, PR e PSD na base aliada do Palácio do Planalto após a saída do PMDB. O deputado Ricardo Barros (PP-PR) chegou a ser cotado para substituir Marcelo Castro no MInistério da Saúde — e manteve nas últimas semanas a posição de "indeciso" em relação ao impeachment. A negociação não andou e Barros anunciou nesta terça-feira em sua página no Facebook que votará pelo impedimento junto com seu partido.

Já os deputados do PR, que ainda não tomaram posição coletiva em relação ao processo, alimentavam a expectativa de assumir posições no Ministério de Minas e Energia. Na ânsia por votos contra o impedimento, o Governo apelou até para o pequeno PTN, que conta com apenas 13 deputados, e pôs numa saia justa a presidenta do partido em São Paulo, deputada Renata Abreu. Favorável ao impeachment, Abreu passou as últimas semanas tendo de se explicar a suas bases nas redes sociais sobre as dissidências do PTN a favor do Governo. Nesta terça-feira, celebrou: "Ontem, depois de muita ponderação, mais um deputado do PTN se decidiu a favor do processo. Agora somos maioria no partido e vou lutar para fechar essa questão!".

Nem todo parlamentar está envolvido, contudo, nessas questões partidárias. Sem legenda definida desde que saiu do PCdoB, em março, Cadoca tem na cabeça os pedidos de dois de seus amigos de juventude que reapareceram para pedir seu apoio. Colegas de enfrentamento à ditadura militar (1964-1985), os dois presos à época e um deles inclusive torturado durante o regime de exceção, discordam: um lhe enviou o texto de um cientista político pernambucano contra o impedimento; o outro cobrou voto pela saída de Dilma. Se conseguir votar no domingo, o deputado só poderá contentar um deles.

Atualização: Carlos Eduardo Cadoca (sem partido-PE) informou por meio de nota na tarde desta quarta-feira que votaria a favor do impeachment, mas que isso não será possível porque "os quatro secretários estaduais licenciados da Câmara reassumirão nesta quinta-feira os respectivos mandatos, o que, de pronto, na condição de suplente, elimina automaticamente minha participação na votação de domingo".

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