Zika, ISIS e Trump

Os três são a versão século XXI de antigos fenômenos: as epidemias, o terrorismo e a demagogia

Donald Trump, no dia 4 de abril em.
Donald Trump, no dia 4 de abril em.Jim Mone (AP)

Não poderiam ser mais diferentes. O zika é um vírus, o Estado Islâmico é um grupo terrorista e Trump... é Trump. Mas os três surpreenderam o mundo. E acabam tendo mais em comum do que parece à primeira vista. São a versão século XXI de antigos fenômenos: as epidemias, o terrorismo e a demagogia.

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A epidemia de zika começou em 2015, o ISIS (acrônimo em inglês do Estado Islâmico) nasceu em 2014 e Donald Trump anunciou sua candidatura à presidência dos Estados Unidos em 2015.

Não obstante, nenhum dos três é novo. O vírus do zika foi identificado pela primeira vez em 1947, quando foi encontrado em um macaco em uma selva na Uganda. Os líderes do ISIS têm uma longa trajetória em outras organizações terroristas islâmicas. E já em 1987 Donald Trump anunciou aos meios de comunicação que pensava em ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Esse plano não foi adiante, mas em 2000 Trump participou como candidato presidencial das eleições primárias do Partido Reformista.

Por mais que sempre tenha havido epidemias, terroristas e demagogos, suas manifestações recentes pegaram o mundo de surpresa. E sem respostas para confrontar seus efeitos nefastos.

Suspeita-se que o vírus do zika seja transmitido principalmente pelo mosquito Aedes aegypti. Em fevereiro, a Organização Mundial da Saúde declarou que tanto o aumento súbito de recém-nascidos com microcefalia ocorrido no Brasil assim como de pessoas afetadas pela síndrome de Guillain-Barré (uma rara condição que afeta o sistema nervoso) constituíam uma emergência internacional preocupante de saúde pública. O Aedes aegypti é bem conhecido pelas autoridades sanitárias e pelos cientistas, mas o novo vírus que ele transmite, o zika, não é. Estão sendo feitos enormes investimentos para prevenir os surtos e conter a epidemia. Também se intensificaram as pesquisas científicas para encontrar vacinas e tratamentos. Mas a realidade é que a comunidade internacional não está preparada para enfrentar a epidemia e é muito o que se desconhece desta ameaça ou sobre como combatê-la. É um velho vírus que adquiriu uma nova potência.

Assim como o ISIS fez em relação ao terrorismo, as atuações de Trump na política norte-americana não têm precedentes

Exatamente o mesmo se pode dizer do terrorismo islâmico. Existe há muito tempo, mas sua letalidade veio aumentando até chegar a extremos inéditos. Comparados às mais recentes atrocidades do Boko Haram ou do ISIS, os horrendos atos terroristas do Hezbollah ou do Hamas até poderiam parecer moderados. Até para a Al Qaeda, a violência do ISIS é inaceitável. O comando central da organização liderada por Osama bin Laden emitiu um comunicado afastando-se do ISIS e esclarecendo que não tem vínculos com a organização. “Al Qaeda não é responsável pelos atos do ISIS”, insiste o comunicado.

As táticas e atuações do ISIS não surpreenderam só a Al Qaeda. Sua crueldade, eficácia e métodos de recrutamento e financiamento e seu inovador uso das redes sociais, assim como suas táticas militares, também tomaram de surpresa Governos com longa experiência em lidar com o terrorismo islâmico. “O ISIS é diferente” é o reconhecimento resignado e reiterado que se ouve nas agências de segurança dos países ameaçados.

É o mesmo que dizem de Donald J. Trump os líderes do Partido Republicano que tentam bloquear sua candidatura e os analistas políticos que nunca imaginaram que o empresário pudesse chegar tão longe: “Trump é diferente”. Assim como o ISIS fez em relação ao terrorismo, as atuações de Trump na política norte-americana não têm precedentes. E não se trata apenas de quão inusitadas são suas mensagens ameaçadoras e suas propostas agressivas. Trump também mudou as maneiras tradicionais de financiar as campanhas presidenciais, o uso dos meios de comunicação ou a relação com o establishment de seu partido. Sua habilidade para fazer com que milhões de pessoas acreditem em suas promessas incrumpríveis ou que se entusiasmem com a ideia de que basta que seja presidente para que tudo melhore são realidades que deixam os analistas perplexos.

Outro fator que o zika, o ISIS e Trump têm em comum é que os três são, em parte, fruto da globalização. Segundo a revista Science, o vírus chegou ao Brasil vindo da Polinésia francesa e a facilidade de viajar e o aumento dos turistas devido à Copa do Mundo fizeram com que se propagasse rapidamente. Já há surtos de zika em 30 países e territórios nas Américas.

O ISIS, por sua vez, deve à globalização a facilidade com que consegue recrutar jihadistas na Europa, enviar terroristas treinados de volta ao Ocidente, vender petróleo ou administrar suas finanças internacionalmente ou coletar doações no mundo todo.

E o que seria de Donald Trump sem os mexicanos que, segundo ele, “invadem” os EUA, os 11 milhões de “estrangeiros ilegais” que ele promete extraditar ou os trabalhadores chineses que deixam milhões de norte-americanos desempregados?

Em muitos sentidos, Trump, o magnata republicano, é tão antiglobalização quanto seus adversários de esquerda.

O zika, o ISIS e Trump são a continuação de velhos fenômenos. Mas em sua versão atual são manifestações reforçadas —e mais perigosas— dos fenômenos que representam. E para os quais não estamos preparados.

@moisesnaim