Eduardo Cunha recebeu propina por meio de contratos fictícios, diz doleiro

Leonardo Meirelles diz que deputado recebeu 5 milhões de dólares, segundo lhe confirmou Youssef Doleiro foi ouvido nesta quinta-feira pelo Comissão de Ética da Câmara, que analisa o caso

O doleiro Leonardo Meirelles depõe ao Conselho de Ética.
O doleiro Leonardo Meirelles depõe ao Conselho de Ética.Nilson Bastian (Câmara dos Deputados)

A defesa do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tentou evitar de todos os modos o depoimento do doleiro Leonardo Meirelles ao Conselho de Ética da Câmara nesta quinta-feira. Nem o pedido liminar ao Supremo Tribunal Federal (STF), nem a ausência de resposta da presidência da Câmara sobre o pedido de recurso para as passagens aéreas do delator da Operação Lava Jato impediram Meirelles, contudo, de dizer aos membros do Conselho que Cunha foi o destinatário de transações ilícitas, justificadas por contratos fictícios, no total de 5,15 milhões de dólares em 2012.

O Conselho de Ética da Câmara avalia desde o ano passado a acusação de que Eduardo Cunha mentiu à CPI da Petrobras sobre a posse de contas bancárias no exterior. Sobre esse assunto, a que os defensores de Cunha no Conselho destacaram que a investigação deve se ater, Meirelles não conseguiu fornecer informações ou provas. O doleiro, que coopera com a força-tarefa da Lava Jato por meio de colaboração premiada desde abril de 2014, disse que os 5 milhões de dólares em questão foram movimentados por meio de contas no exterior em nome de offshores do lobista Júlio Camargo e de Meirelles a pedido do doleiro Alberto Youssef, outro delator da Lava Jato.

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Segundo Meirelles, ele foi o responsável por trazer esse dinheiro ao Brasil. "Após a liquidação desse valor em reais no Brasil, em almoço com Alberto Youssef, ele me colocou que esse valor era de Eduardo Cunha”, disse o doleiro ao Conselho de Ética, destacando que a informação lhe foi repassada em conversa informal. O doleiro disse que não teria, portanto, como provar a ligação de Cunha com o valor entregue em espécie ao longo de "quatro ou cinco dias" pelo operador Jayme Alves, conhecido como "Careca", em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro — Cunha tem residência ali.

Para o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), que tem se notabilizado por defender Cunha nas reuniões do Conselho de Ética, Meirelles foi convocado apenas para fazer "pirotecnia", já que ele não tem como prestar informações sobre a existência de contas do presidente da Câmara na Suíça. O advogado de Cunha, Marcelo Nobre, reforçou que o doleiro não confirmou que as contas existem, nem o recebimento de "vantagens indevidas" por Cunha. Os deputados Júlio Delgado (PSB-MG) e Chico Alencar (PSOL-RJ) rebateram, alegando que as informações prestadas por Meirelles ajudam a compor a investigação que pode levar à cassação do presidente da Câmara.

Petrobras

Questionado pelos deputados, Meirelles confirmou que já fez transferências para a Suíça, mas que não poderia saber se alguma delas teve como beneficiário Eduardo Cunha. Segundo ele, a movimentação feita para suas contas por Júlio Camargo teria relação com desvios da Petrobras — diriam respeito especificamente a contratos de navio-sonda, segundo informações de conhecimento público — e existem outros políticos envolvidos nesses ilícitos. Sobre os outros nomes, entretanto, o doleiro disse que ainda não pode falar, por conta de limitações impostas por seu acordo de delação premiada.

Além das complicações políticas por conta do conteúdo do depoimento desta quinta-feira, Cunha pode vir a ter problemas se seus críticos no parlamento conseguirem configurar que, ao se omitir em relação às passagens pedidas para o depoente, ele tentou atrapalhar a investigação. "O presidente estaria usando seu cargo para tentar impedir o trabalho? Para mim, isso é motivo de pedir afastamento", defendeu o deputado Nelson Marchezan Jr. (PSDB-RS). O presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PR-BA), disse que vai solicitar o reembolso da passagem de Leonardo Meirelles.

O Conselho de Ética ainda pretende ouvir outros envolvidos na Operação Lava Jato, como o doleiro Alberto Youssef e o operador do PMDB Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano. Os deputados já receberam autorização do juiz Sérgio Moro, que comanda a Lava Jato, para ouvir essas testemunhas.

O processo contra Cunha começou a ser discutido em outubro do ano passado e tem sido protelado por inúmeras manobras do deputado para se livrar da cassação. Pouco depois do desembarque do PMDB, chegou a operar para trocar os integrantes da Comissão por aliados seus.

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