Trump sempre foi Trump

Candidato republicano já era ambicioso e pretensioso quando criança

Trump, primeiro da esquerda, em 1978 com 32 anos.
Trump, primeiro da esquerda, em 1978 com 32 anos.

Donald Trump sempre foi Donald Trump. Desde pequeno, o candidato republicano é ambicioso, arrogante e confia enormemente em si mesmo. “Quando me vejo no primeiro ano [em que os alunos têm 6 ou 7 anos] e me vejo agora, sou basicamente o mesmo. Meu temperamento não é tão diferente”, diz Trump na sua biografia mais completa, Never Enough (nunca o bastante, ainda não traduzida para o português), escrita pelo jornalista Michael D’Antonio e publicada nos Estados Unidos em 2015.

Trump, um candidato bilionário e sem experiência política, é o favorito a conseguir a candidatura republicana para as eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos. Isso à base de uma retórica populista e uma atitude de um fanfarrão.

Donald Trump, nascido em 1946, é o quarto de uma família de cinco, com pai de origem alemã e mãe escocesa. Cresceu numa mansão de 23 cômodos, no bairro nova-yorkino Queens. Seu pai, que resgatou da ruína o império imobiliário iniciado por seu progenitor, dedicava-se a projetos residenciais para a classe média. Era ativo, oportunista e introvertido. Às vezes agia no limite da legalidade. Era infatigável. Sua mãe era dona de casa e trabalhava em obras de caridade. Era extrovertida.

Donald herdou do pai o apetite pelos negócios e da mãe a desenvoltura social e a vontade de ser protagonista. Fred Trump inculcou nos filhos uma cultura de esforço e competição feroz. “Sejam assassinos”, repetia-lhes, segundo a biografia de D’Antonio. Mas o pai associava a disciplina à indulgência. “Você é um rei”, disse a Donald. Os filhos estudavam em escolas privadas e tinham acesso ao luxo, embora a família não mostrasse ostentação nem refinamento em seus gostos. Donald foi o que mais se ligou a seu pai e o que acabou seguindo seus passos.

Sempre fui uma espécie de líder no meu bairro. Quase como hoje, as pessoas gostavam um bocado de mim ou não gostavam nada. Na minha turma, era muito apreciado e tendia a ser o garoto que os outros seguiam

Trump em 1987 no livro A arte da negociação

Na escola, de cultura inovadora, Trump era uma criança problemática e desafiadora. Uma vez bateu numa professora porque achou que ela não entendia de música. Em casa, enfrentava o pai. Como seu comportamento não melhorava, aos 13 anos o pai o matriculou numa escola militar. Lá, numa cultura de masculinidade e dureza, sofreu uma transformação.

O adolescente Trump “queria ser o primeiro em tudo” e achava que “era o melhor”, relata seu mentor na academia. Entendeu então que “a vida se baseia na sobrevivência” e começou sua obsessão pela fama. Trump era um astro do beisebol. Um momento chave em sua vida foi a primeira vez que seu nome apareceu na primeira página de um jornal local, graças a suas proezas esportivas. Sentiu-se um escolhido.

Sem bebida nem cigarro

Na universidade, Trump era uma exceção. Nos dois anos em que frequentou a Universidade Fordham, no Queens, em Nova York, estava entre os poucos que não bebiam nem fumavam. Diz ter mantido isso por toda a vida. Sonhou com uma carreira de ator, mas as ambições empresariais falaram mais alto. Já tinha começado a se envolver na empresa imobiliária de seu pai. Depois estudou economia numa escola de elite na Universidade da Pensilvânia.

Trump era fascinado por projetos grandiosos. Decidiu que nunca queria passar despercebido nem ser subvalorizado. Aprendeu com seu pai, que tinha gostos mais simples, a lidar com as autoridades e a reagir aos imprevistos. E descobriu que tinha habilidade para negociar.

Em 1971 Trump assumiu o controle da empresa familiar. Estendeu os projetos a Manhattan, o bairro graças ao qual se tornaria famoso. Tornou-se o grande empreendedor imobiliário da cidade. “Se um homem tem estilo, é inteligente, de certo modo conservador e sabe o que as pessoas querem, é obrigado a ter sucesso em Nova York”, disse em 1976 ao jornal The New York Times, em seu primeiro grande perfil na imprensa.

Trump tinha 30 anos. Estimava sua fortuna em mais de 200 milhões de dólares (cerca de R$ 720 milhões; agora, segundo a revista Forbes, o valor cresceu para 4,5 bilhões de dólares). Em 1999, seu pai morreu e deixou uma herança entre 250 milhões e 300 milhões de dólares. Aos 30 anos, Trump exibia as iniciais DJT na placa do Cadillac dirigido por um motorista. Saía com modelos e ia a festas elegantes. Atribuía seu sucesso a construir mais barato e melhor que seus concorrentes e a técnicas agressivas de venda.

Aos 69 anos, Trump mantém a atitude enérgica e provocadora. Não há um dia em que não zombe de seus rivais nas eleições, que não sabem o que fazer para detê-lo. “Sempre fui uma espécie de líder no meu bairro. Quase como hoje, as pessoas gostavam um bocado de mim ou não gostavam nada. Na minha turma, era muito apreciado e tendia a ser o garoto que os outros seguiam”, escreveu Trump em 1987 em seu primeiro livro, A Arte da Negociação. “Na adolescência, me interessava mais aprontar, porque por algum motivo gostava de criar confusão e testar as pessoas.”

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