Viagem pela América Latina

Obama abrirá arquivos da ditadura argentina e homenageará suas vítimas

Presidente procura desfazer imagem dos EUA como importante apoiador dos militares nos anos 70

Jorge Rafael Videla (c) jura como presidente da Argentina em 1976.
Jorge Rafael Videla (c) jura como presidente da Argentina em 1976.

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Poucos países representam também como a Argentina a tumultuosa relação dos Estados Unidos com a América Latina. Muitos, neste país, assim como no Chile e em outros da região, que passaram por ditaduras terríveis nos anos 1970 veem os EUA por trás dos militares locais que as lideraram. A cultura norte-americana, ao mesmo tempo, está presente como poucas nesses países, que acompanham apaixonadamente tudo o que acontece no vizinho do Norte. Barack Obama tem absoluta consciência dessa dupla e trágica realidade e parece ter escolhido a Argentina, depois de sua histórica viagem a Cuba, como o lugar onde procurará reconciliar os EUA com a América Latina e, acima de tudo, tentará apagar a mancha do passado da administração do país mais influente do planeta. Obama e sua equipe planejam detalhadamente um momento simbólico, um gesto, um discurso, para que o presidente possa transmitir essa mensagem de ruptura com o passado de intervencionismo militar e da CIA no continente, reconhecimento dos erros cometidos e homenagem às vítimas.

A ditadura argentina deixou 30.000 desaparecidos e marcou totalmente a história e a política nesse país. Obama chega a Buenos Aires justamente no momento em que se completam 40 anos do golpe de Estado que acabou com uma geração inteira de argentinos, e esse será um dos pontos centrais de sua viagem. Ele procurará mudar a imagem dos EUA com símbolos: uma visita muito especial ao Parque da Memória – que homenageia as vítimas –, com palavras – um discurso diante de jovens argentinos no qual um dos assuntos será, sem dúvida, a relação dos EUA com a América Latina e seu passado obscuro, tendo a Operação Condor como grande fantasma – e com atos. Altos funcionários da administração Obama já confirmaram que o presidente anunciará a abertura definitiva dos arquivos militares e de inteligência sobre aqueles anos terríveis que ainda são secretos e que muitos historiadores consideram essenciais para entender não só o papel dos EUA mas também como se deram os apoios de todo tipo à ditadura argentina e como foi elaborado o plano de exterminação de uma geração inteira de ativistas e guerrilheiros, alguns deles muito jovens, inclusive adolescentes, e o roubo dos filhos das mulheres que davam à luz nas prisões.

“Para expressar o nosso comprometimento com os direitos humanos, o presidente visitará o Parque da Memória, a fim de homenagear a memória das vítimas da guerra suja da Argentina. Além dos 4.000 documentos sobre esse período obscuro que os EUA já liberaram, o presidente Obama, a pedido do Governo argentino, anunciará um esforço para abrir documentos adicionais, incluindo, pela primeira vez, documentos militares e de inteligência. Acreditamos que essa viagem será uma demonstração histórica da aproximação entre nossa nação e a América Latina”, afirmou Susan Rice, assessora de segurança e política externa do presidente norte-americano.

A abertura de arquivos é especialmente simbólica e relevante. Ela já causara bastante impacto na Argentina quando o Papa Francisco afirmou, no ano passado, que também seriam abertos os arquivos do Vaticano referentes à ditadura, embora neste caso não tenham se registrados avanços até o momento. A participação da Igreja argentina, cuja hierarquia apoiou os militares, também é muito polêmica, e, justamente neste momento, sua cúpula prepara um documento para romper com aquela época e apoiar as vítimas. Na Argentina, ao contrário do que ocorre em outros países, ninguém ousa defender ou justificar, nem mesmo de maneira sutil, a ditadura, e depois de 12 anos de kirchnerismo em que o assunto esteve em primeiro plano, essa unanimidade, ao menos publicamente, é quase inquestionável. Sempre que alguém se descola do discurso oficial, é duramente criticado por todos os lados.

A viagem de Obama foi inicialmente criticada por organizações de direitos humanos justamente por coincidir com o 24 de março, uma data simbólica e dolorosa para todas as vítimas. Essas organizações repudiaram a ideia de que Obama, como representante máximo de um país que elas consideram ter sido crucial para o sucesso do golpe militar, fosse a Buenos Aires justamente neste momento. Na Argentina, ainda está muito viva a memória do papel de Henry Kissinger, secretário de Estados nos anos 1970, nos momentos mais obscuros do continente. Durante a campanha, ano passado, os adversários de Mauricio Macri o atacavam pintando seu nome em bandeiras dos EUA. O presidente norte-americano desfruta de uma boa imagem na Argentina, pelo menos bem melhor da de outros governantes anteriores desse país, como George Bush, que foi mal recebido em 2005 na reunião de cúpula de Mar del Plata, a última visita de um chefe de Estado dos EUA ao território argentino.

Obama vai procurar utilizar essa imagem positiva e esta viagem com um discurso forte e ações dirigidas às vítimas para tentar diminuir o antiamericanismo de boa parte da esquerda argentina. Para isso, é bastante provável, embora ainda não haja nada confirmado, que se encontre com Estela de Carlotto, dirigente das Avós da Praça de Maio e referência moral das vítimas, sempre muito crítica aos EUA e ao presidente Macri. Carlotto já visitou duas semanas atrás o Parque da Memória, local que será visitado por Obama, acompanhada de François Hollande, presidente da França, que prestou homenagem às vítimas da ditadura. Estava acompanhada de seu neto, Ignacio, que foi sequestrado de sua mãe (desaparecida) logo após nascer e que voltou a aparecer há apenas um ano.

Na Argentina, ainda está muito viva a memória sobre o papel de Henry Kissinger, secretário de Estado nos anos 1970, nos momentos mais obscuros do continente

A visita de Obama, que depois viajará para Bariloche, bela cidade de veraneio na Patagônia argentina, significa um respaldo a Macri, que, além de tudo, tem todo interesse em deixar de ser visto como um presidente alheio à questão dos direitos humanos e à condenação permanente da ditadura. Com efeito, segundo os funcionários norte-americanos, os arquivos dos EUA serão abertos a pedido do governo argentino.

Macri, que esteve recentemente com Estela de Carlotto, insistiu em dizer que sob sua gestão nada mudará no que se fere à política de direitos humanos, que é apoiada pela maioria da população, inclusive uma parte da direita, especialmente dos jovens, e garantiu que os processos por crimes de lesa humanidade contra os responsáveis pela repressão ainda vivos –que são muitos—terão continuidade.

A viagem de Obama pretende, assim, quebrar a desconfiança da esquerda latino-americana em relação dos EUA. Não será fácil, mas o presidente, que está nos últimos meses de mandato, fará história em Cuba e, no dia seguinte, tentará arrematar o gesto em Buenos Aires.

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