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Como a ciência se aliou às Avós da Praça de Maio para achar seus netos

Geneticistas desenvolveram pesquisas para encontrar as crianças roubadas pela ditadura

Marie-Claire King, à esquerda, com as líderes das Avós da Praça de Maio. Ampliar foto
Marie-Claire King, à esquerda, com as líderes das Avós da Praça de Maio. Abuelas de la Plaza de Mayo

Tudo começou com um recorte de jornal, uma pequena notícia que dizia que um homem se submeteria a um exame para demonstrar sua paternidade. Nesse momento, acendeu uma lâmpada na cabeça das Avós da Praça de Maio, que há anos buscavam uma maneira de provar que seus netos roubados eram filhos e filhas de suas filhas e filhos. Em muitos casos, havia provas circunstanciais, dados que coincidiam, fotos, denúncias, semelhanças... Mas nada definitivo que pudesse ser apresentado a um juiz ou que pudesse lhes garantir que eram realmente seus netos. “Existe algo biológico?”, perguntavam-se. A resposta abriria uma grande oportunidade para a genética melhorar sua imagem depois de um século de horrores cometidos com sua ajuda.

Recentemente foi anunciada a neta recuperada número 117, uma mulher cuja identidade lhe foi arrebatada, um delito de lesa-humanidade. É a última boa notícia surgida em relação ao quase meio milhar de netos que as Avós vêm buscando desde que entre 1976 e 1983 a ditadura cívico-militar desapareceu com milhares de pessoas e com os filhos de muitas vítimas de represálias, alguns deles nascidos durante o cativeiro de suas mães. A neta 117a, e a maioria dos que a precederam, foi encontrada graças ao Banco Nacional de Dados Genéticos, criado por Raúl Alfonsín em 1987, que guarda a informação genética das famílias que buscam seus parentes roubados, hoje já na casa dos trinta anos. Mas quando as Avós começaram sua busca, a ciência ainda não oferecia respostas.

Muitos cientistas disseram às Avós da Praça de Maio que não havia meios de identificar seus netos se os pais estivessem desaparecidos

“Eles pensavam que os filhos dos subversivos tinham de ser entregues a boas famílias, pensavam que iam sair impunes, que podiam desaparecer com milhares de pessoas, apoderar-se de seus descendentes e que isso ficaria em segredo. Que podiam cometer um genocídio e que ninguém saberia”, afirma com serenidade Víctor Penchaszadeh, geneticista argentino. Enquanto trabalhava na Universidade de Cornell, em Nova York, deu uma das primeiras alegrias às Avós, que viajavam pelo mundo havia meses em busca de um cientista que lhes oferecesse alguma luz a partir daquela notícia do teste de paternidade. “Disse a elas que sim, que não era algo esotérico, que a ciência podia ajudá-las”, relembra. Se é possível comprovar a paternidade, devia ser possível provar a avozidade, pensou, e a partir daí começou a se formar um grupo com os melhores geneticistas do momento decididos a ajudar as Avós. Era 1982, e a democracia ainda demoraria um ano a chegar à Argentina, assim como os primeiros resultados do trabalho desses cientistas.

Penchaszadeh, que tinha se exilado sete anos antes depois de sofrer uma tentativa de sequestro por parte dos terroristas de ultradireita do Triplo A, introduziu no grupo de trabalho a prestigiosa geneticista Mary-Claire King. Esta cientista norte-americana é hoje mundialmente reconhecida por ter identificado os genes responsáveis pelo câncer de mama e já em 1973 tinha causado comoção no mundo ao identificar que humanos e chimpanzés são geneticamente idênticos em 99%. Hoje, além disso, é impossível falar de King sem mencionar seu trabalho em favor dos direitos humanos, que começou graças às Avós. King explica que quando soube do problema argentino aderiu à causa sem pestanejar, pelo desafio científico e por razões emocionais: ela, na época, tinha a idade das filhas das Avós e sua própria filha tinha a idade das netas e netos que se tentava recuperar.

A ditadura acreditava que podia se apoderar de seus descendentes e que isso ficaria em segredo. Que podiam cometer um genocídio e que ninguém saberia”, afirma Penchaszadeh

“O maior problema científico proposto pelas Avós”, afirma King, “era a forma de obter uma prova definitiva da identidade de uma criança, uma vez que os pais estavam desaparecidos e supostamente mortos. Este problema era muito mais difícil do que os testes de paternidade, sobretudo na década de 1980, antes do teste de DNA moderno”. “As Avós tinham ido a vários centros de pesquisa em toda a Europa e tinham dito a elas: ‘Não, senhoras, esqueçam, isso é impossível”, relembra Penchaszadeh, destacando a dificuldade de ligar um neto a uma avó quando falta a informação genética de toda a geração intermediária, a das mães e pais presos; o sangue estabelece o vínculo, mas tudo fica mais difícil se os pais não existem. Penchaszadeh, King e um bom grupo de especialistas em várias áreas das principais universidades norte-americanas se lançaram a resolver este quebra-cabeças genético.

A identificação é feita a partir das características genéticas de uma pessoa, buscando seus laços de parentesco. Para isso se usa o cálculo de probabilidades: temos muitas características genéticas particulares, mas para a identificação humana se usa um pequeno número de marcadores que apresentam grande variação entre a população, uma vez que as probabilidades de que coincidam em duas pessoas sem parentesco é muito remota. O trabalho com o DNA não estava suficientemente desenvolvido na época, e por isso se recorreu a produtos do sangue —a histocompatibilidade, informação que se observa para que não haja rejeição nos transplantes—, variantes de proteínas que estão na corrente sanguínea e são herdadas. “O que nós desenhamos foi a parte da análise probabilística: que um determinado grupo de marcadores genéticos seja veraz e não devido ao acaso”, explica Penchaszadeh.

As Avós brincavam com a ideia de que o DNA mitocondrial, que as ligava a seus netos, era a prova de que Deus é mulher

Pensando no teste de paternidade, chamaram o trabalho de índice de avozidade: uma fórmula matemático-probabilística que foi evoluindo com o avanço da ciência, desde a histocompatibilidade até as análises bioinformáticas do DNA, que resultaram nos 99,99% de confiabilidade necessários para que as Avós pudessem reclamar seus netos. No fim de 1983, elas puderam confirmar a primeira neta: Paula Eva Logares. Em dezembro, no primeiro dia útil depois da volta da democracia, foi impetrado um mandato para tirar sangue dela, de seus familiares biológicos e dos pais que dela se apropriaram.

Apesar do sucesso com Logares, o sistema era ainda muito rudimentar: “Essas análises exigiam muito do olho humano, porque era preciso colocar sob o microscópio as amostras de sangue e surgiam muitos problemas”, lamenta Penchaszadeh. Por isso, King continuou trabalhando até deparar com uma ferramenta muito mais útil e bastante simbólica: “O DNA mitocondrial se herda unicamente das mães, e por isso cada descendente, filho ou filha, tem exatamente a mesma sequência mitocondrial que a mãe. Assim, uma avó ou tia materna ou primo materno, qualquer familiar ligado pelas mães, poderia oferecer uma evidência exata da identidade de uma criança”, esclarece a geneticista.

King explica que o DNA mitocondrial foi especialmente útil porque proporciona sequências muito variáveis, quase únicas, para cada família: foi desenvolvida então a sequenciação do DNA mitocondrial para as Avós, uma ferramenta que hoje em dia é amplamente utilizada. A geneticista relembra que as Avós gostaram especialmente desta linhagem materna do DNA, brincando que era a prova de que Deus era mulher, que tinha colocado isso aí para ajudá-las. Uma marca oculta na biologia que ligava diretamente as avós a seus netos e que acabou com os planos sinistros da ditadura.

A genética e os direitos humanos

Os militares, diante dos juízes, diziam que o trabalho dos cientistas era “vudu”, relembra King, mas já tinham perdido a batalha decisiva. Em 1984, era publicada em uma revista científica a conquista obtida com Logares: A genética humana e os direitos humanos: A identificação das famílias das crianças sequestradas. No mesmo ano, a Associação Norte-americana para o Avanço da Ciência (AAAS, em sua sigla em inglês) realizaria um simpósio em Nova York que abordaria esses avanços na genética da identificação das pessoas: “Podemos ir?”, perguntaram as Avós. “São vocês que geraram toda esta pesquisa, como não poderiam ir?”, foi a resposta. Queriam ouvi-las.

A tenacidade daquelas mulheres na busca de seus netos tinha feito avançar um campo da ciência a passos largos. E, o que para muitos seria mais importante, tinha dignificado a área. Eric Stover, professor da Universidade de Berkeley, em sua posição de diretor do programa de Ciência e Direitos Humanos da AAAS, foi um dos que colaborou para isso. Hoje, ele considera que a contribuição da genética no caso da Argentina foi o primeiro episódio no qual a ciência foi determinante para o fomento aos direitos humanos.

Víctor Penchaszadeh se mostra especialmente orgulhoso nesse aspecto: “Sempre é preciso ressaltar quanto as Avós contribuíram para a genética, que tinha um passado obscuro. A genética foi usada para violar os direitos humanos durante muito tempo: eugenia, racismo, genocídios... Foi usada para muitas coisas terríveis e de repente surge ligada a uma boa causa, como ferramenta para fazer valer os direitos humanos. Permitiram saldar uma dívida”. Não obstante, Penchaszadeh recorda que nada disso teria sido possível sem o empurrão do Governo de Alfonsín, primeiro, e depois de governos mais recentes, que derrubaram as leis de ponto final. “Faz muita falta o apoio institucional: neste aspecto, a pátria mãe, Espanha, tem muito a aprender com a Argentina”, denuncia o geneticista, em referência aos milhares de espanhóis que ainda permanecem enterrados em valas comuns.

A contribuição de Mary-Claire King aos direitos humanos foi construída na Argentina, mas já ajudou uma dezena de países em todo o globo a identificar presos e desaparecidos nas mãos de ditadores sangrentos, guerras e genocídios, colocando várias vezes a genética a serviço das melhores causas: El Salvador, Guatemala, Haiti, Ruanda, México, Chile, Honduras, Etiópia, Filipinas, os Bálcãs... “A genética é uma ferramenta e como qualquer ferramenta pode ser usada para o bem ou para o mal. Um martelo pode ser usado para construir ou para matar”, afirma King. E ilustra: “Nós usamos a genética para construir casas indestrutíveis para a volta das crianças roubadas”.

 

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