México

A vingança do senhor dos galos: seis mortos

Dono de uma rinha assassina e esquarteja os ladrões que o roubaram no México

Briga de galos.
Briga de galos.Wikimedia commons

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Jorge Aduna Villacencio é um tipo duro, robusto. Um dono de fazenda à moda antiga. De outro modo não poderia ter administrado com tanta eficácia uma rinha de galos, um lugar onde com frequência as disputas — uma espora afiada demais, a decapitação de um galo de raça — são resolvidas à bala. Por isso, o dia em que alguns ladrões roubaram sua mansão não lhe ocorreu pegar o telefone para avisar à polícia.

O galista Jorge Villacencio
O galista Jorge VillacencioFISCALÍA

O que segue é uma história de vingança. De como o criador de galos de briga mais importante de Puebla e Tlaxcala, no centro do México, orquestrou o sequestro e assassinato dos seis homens que ousaram entrar em sua casa sem permissão. Os matadores contratados pelo empresário, segundo a reconstituição do Ministério Público regional, à qual EL PAÍS teve acesso, esquartejaram e queimaram os cadáveres dos ladrões em barris encharcados com diesel. Na casca metálica abriram pequenos buracos para que a combustão fosse mais rápida.

A data do roubo na casa do galista é um mistério. Deve ter ocorrido no início de outubro de 2015, já que a partir dessa data se desencadeou a loucura homicida na cidade de Puebla. Aduna, como dissemos antes, não avisou as autoridades. Em vez disso, contratou um matador de Tamaulipas, no norte do México, treinado na lógica violenta dos Zetas, e recrutou dois policiais, um na ativa e outro expulso da corporação por não passar nos exames de confiança. Incluiu seu segurança na perseguição, um quarentão de caráter duro, e seu motorista, um rapaz de 20 anos. A maquinaria estava em marcha.

Há nesse caso dois enigmas que os investigadores ainda não conseguiram destrinchar. O primeiro, se os assaltantes sabiam com quem estavam se metendo. O dono da empresa Gallística era endinheirado e devia esconder um bom butim, mas, valia a pena correr tamanho risco? O mundo dos galos está tão ligado com o mundo do crime como o do boxe ou a música banda (gênero da música regional mexicana). Os narcos vão a Las Vegas ver a luta do ruivo Canelo Álvarez, querem escutar suas histórias de bandido na boca dos cantores mais reconhecidos e gostam que os galos de briga que criam em suas fazendas acabem sendo “os mais competentes”. Jorge Aduna, sem dúvida, era um homem bem conectado e a quem não era muito conveniente incomodar.

O segundo é este: o que aconteceu durante o assalto à mansão? Sabe-se muito pouco. O galista estava lá dentro quando os ladrões chegaram? E sua família? Uma das versões que circulam por Puebla dizem que uma parente de Aduna foi violada, o que explicaria a sanha com que empreendeu a perseguição. Ou o problema é que roubaram algo de muito valor?

O que é certo é que os ladrões levaram um iPad. Por meio do programa de computador Find my iPhone, os matadores localizaram um deles quando se conectou ao aparelho em uma rede wi-fi. Em poucos dias, mais especificamente em 19 de outubro de 2015, Marco Antonio Cuautle foi sequestrado quando dirigia uma caminhonete marca Chevrolet. A última vez que alguém o viu estava vendendo leite diante de uma clínica da previdência social mexicana. Era leiteiro.

Barris onde queimaram as vítimas.
Barris onde queimaram as vítimas.

Ramón Limón era formado em Direito, mas não exercia a profissão. Ganhava a vida com trabalhos de carpintaria, alvenaria e encanamento. Era um faz-tudo. Nove dias depois do desaparecimento do leiteiro, duas caminhonetes interromperam sua passagem no meio da estrada. Viajava com a mulher e a filha. Duas semanas depois, um homem se aproximou de Pedro Negrete e Luis Miguel Flores para lhes oferecer trabalho. No bairro todos sabiam que eram bons serralheiros, além do fato de Flores criar cabras. A polícia acredita que o homem que se fazia passar por capataz era Antonio Cantú, o matador chegado do norte. Um anjo da morte passeando pela Puebla colonial.

O penúltimo dos sequestrados seria Rogelio Rivera, sem mais credenciais do que a de limpador de parabrisas. Foi enganado da mesma forma que os dois anteriores, com uma oferta de trabalho. No dia seguinte levaram o último, Bryan Gerardo, um marginalizado, um sujeito que procurava se virar na vida, que tanto podia pedir esmolas nos semáforos como roubar a bolsa de uma idosa. A pessoa que se aproximou dele disse que buscava cocaína, mas não era verdade, não queria cheirar. Queria abrasá-lo em um barril.

Os seis foram sequestrados na região marginalizada de Lomas de San Miguel em um intervalo de 39 dias. As pessoas desse bairro periférico viveram então um período de psicose. Um inimigo sem rosto havia levado meia dúzia deles, e o seguinte poderia ser qualquer um. Até os roubos diminuíram em uma zona onde rico algum da cidade raramente põe os pés. Os consultados duvidam que os seis formassem parte de uma quadrilha. Quatro deles se conheciam, viviam na mesma rua. É concebível que tivessem negócios juntos. Nessa lógica sua amizade não se encaixa com os dois rapazes da rua que trabalhavam nos semáforos. A menos que...

A mulher de Pedro Negrete, o serralheiro, fechou com cadeado a casa em que viviam na rua Juan Rojas, um casebre de 40 metros erguido com concreto e amianto, e partiu sem dizer uma palavra. Ninguém sabe quando voltará. O leiteiro ganhou fama vendendo litros fiado, sem assediar os devedores. A avó de Luis Ángel está muito triste, mas se esquiva levando as cabras para um passeio, como o neto tanto gostava de fazer todos os dias. O tempo parecer ter parado nesse rincão do México.

Mari Carmen Cruz, uma das poucas moradoras que não têm medo de dizer o que pensa ergueu um altar com fotos de seus amigos assassinados. Pediu aos demais que se unam a ela para rezar o terço. Diz que conhecia muito bem Pedro, um dos ladrões que acabou seus dias pobre e martirizado, como o santo: “Às vezes não tinha nem o que comer. Pode ser até que tenha tido a tentação de roubar, mas não outras coisas. Se roubaram, que os colocassem na prisão. Não tinham de matá-los de uma forma tão cruel.”

O altar erguido por Carmen em homenagem a três dos ladrões assassinados em Lomas de San Miguel, em Puebla.
O altar erguido por Carmen em homenagem a três dos ladrões assassinados em Lomas de San Miguel, em Puebla.PABLO SPENCER

O cachorro de Pedro vaga pela rua sem rumo. Já não tem dono. Tampouco tem nome. Pedro nunca lhe deu um nome.

O matador Antonio Cantú, protótipo de militar desertor que aderiu ao narcotráfico, viajou exclusivamente até Puebla para executar a encomenda do galista. A forma de fazer os ladrões desaparecerem tem a marca indelével dos Zetas. Pelo rastreamento do telefone celular se sabe que nos dias prévios aos sequestros, o exterminador esteve em Tamaulipas e Tabasco. Daí viajou para a Cidade do México. Seu contato a todo o momento foi Josafhat Berlanga, um antigo policial de 33 anos que tinha trabalhado na Agência Federal de Investigação, uma corporação policial que deixou de existir em 2012, carcomida pela corrupção.

O casarão em que se perpetrou a vingança, no bairro de San José El Conde, acabou transformado em um matadouro. A polícia encontrou durante a revista em fevereiro um machete, um machado e três facas com restos humanos. As entradas dos bueiros estavam entupidas de sangue. Descuidados, os assassinos nem sequer tinham se desfeito dos pertences dos mortos. Em um quarto estavam jogados os galões do leiteiro. Em outro um livro de registro das rotinas diárias das vítimas. Tudo fora estudado, planejado. O senhor dos galos não ia se esquecer, como se nada fosse, os que se atreveram a entrar sem permissão em seu curral.