Eleições EUA

Hillary Clinton começa a disputar o voto dos seguidores de Donald Trump

Democrata vence em 7 dos 11 Estados na Superterça, muda o tom e mira no republicano

Hillary Clinton durante seu discurso na terça-feira. G. Herbert

Hillary Clinton moveu suas fichas e já tem prontos os discursos de vitória para as próximas eleições primárias, com um só rival como alvo: Donald Trump. A retórica dela também começa a procurar um voto concreto, que até agora se inclinava pelo magnata republicano. Clinton falou na noite de terça-feira em Miami, já cortejando a Flórida, que realiza eleições primárias dentro de 15 dias. Insistiu numa mensagem de amor, contrapondo-se a mensagem de ódio e exclusão do favorito à indicação presidencial republicana.

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Num discurso que poderia ser resumido sob o refrão “all you need is love” (“você só precisa de amor”), a pré-candidata democrata pregou a unidade, a confiança e a honestidade – atributos que, segundo os detratores, faltam a Donald Trump.

Tudo na sua fala aludia veladamente ao favorito republicano, mas era claramente reconhecível. “Em lugar de construir muros”, disse Clinton, “construamos escadas que levem a novas oportunidades”.

Frente ao lema do Trump de “tornar a América grande outra vez”, Clinton propôs “tornar a América uma só”. “O que precisamos hoje é de mais amor e amabilidade”, reiterou a ex-senadora, respondendo ao discurso do medo apresentado por seus principais rivais republicanos. “Temos que restaurar os laços de confiança no país”, acrescentou.

Satisfeita com os resultados que iam chegando durante a noite, após uma jornada com primárias democratas em 11 Estados, Clinton anunciou que “nunca tanta coisa esteve em jogo numa eleição”. “A retórica que estamos escutando no outro lado nunca foi tão baixa", criticou a ex-secretária de Estado, apelando ao eleitor que até agora se inclinou por Trump.

E, naturalmente, também apelava ao entorno do atual presidente. Desde o começo do ano, Hillary Clinton não perde nenhuma chance de fazer uma defesa apaixonada do legado de Obama. Não há mais rastro das críticas que fazia ao ex-rival e depois chefe. “Chegamos longe demais neste país para dar marcha à ré nos avanços que obtivemos”, proclamou.

Resultados

ALABAMA

Hillary Clinton 79%

Bernie Sanders 18%

ARKANSAS

Hillary Clinton 68%

Bernie Sanders 28%

COLORADO

Bernie Sanders 59%

Hillary Clinton 40%

GEÓRGIA

Hillary Clinton 71%

Bernie Sanders 28%

MASSACHUSETTS

Hillary Clinton 51%

Bernie Sanders 48%

MINNESOTA

Bernie Sanders 59%

Hillary Clinton 41%

OKLAHOMA

Bernie Sanders 52%

Hillary Clinton 42%

TENNESSEE

Hillary Clinton 66%

Bernie Sanders 33%

TEXAS

Hillary Clinton 67%

Bernie Sanders 31%

VERMONT

Bernie Sanders 86%

Hillary Clinton 14%

VIRGÍNIA

Hillary Clinton 64%

Bernie Sanders 35%

Para Hillary Clinton e seu rival democrata Bernie Sanders, a noite seguiu o roteiro previsto pelas pesquisas. Assim que a noite começou, com o fechamento das seções eleitorais em três Estados, Clinton já emplacava cômodas vitórias na Virgínia e Geórgia, enquanto Sanders arrasava no Estado por onde é senador, Vermont. Uma hora mais tarde, viriam Alabama e Tennessee. Depois o Arkansas. Mais tarde o Texas… Dos 11 Estados em disputa, Clinton faturou 7.

O resultado da noite era uma nova confirmação de que a ex-secretária de Estado já havia superado os fantasmas que atemorizaram sua campanha semanas antes de Iowa, quando o senador de Vermont abalou o establishment democrata ao se aproximar perigosamente – e em alguns casos superar – Clinton nas pesquisas. A pré-candidata democrata safou-se por uma margem mínima no caucus inaugural do processo, em Iowa, e foi derrotada na semana seguinte por Sanders em New Hampshire.

A Superterça seguia a tendência iniciada em Nevada e depois na Carolina do Sul, onde Clinton varreu seu oponente por quase 50 pontos de vantagem. Essa vitória expôs a esmagadora maioria que a ex-primeira-dama abria sobre o senador socialista entre o eleitorado negro – algo que se repetiria na terça-feira, em que 7 dos 11 Estados em disputa ficam no Sul, com importante peso do voto afro-americano.

Antes de Clinton, o próprio Sanders havia se pronunciado, quando não eram nem 20h (hora local, 22h em Brasília). Falando na sede do seu comitê eleitoral em Essex Junction (Vermont), o senador disse que “a batalha” não estava decidida ainda. “No final da noite, teremos ganhado centenas de delegados”.

“Percorremos um longo caminho em 10 meses”, dizia Sanders, que está afônico há dias, mas mesmo assim continuava agradecendo aos seus seguidores como se estivesse estreando na corrida eleitoral. “Nesta campanha não se trata só de eleger um presidente, mas sim de transformar o país”, afirmou Sanders, que fez uma inflamada defesa da saúde pública universal e recordou que será preciso “conter Wall Street e combater a mudança climática”.

A distância entre Sanders e Clinton é agora praticamente irreversível. E, no entanto, o senador prometia prosseguir na disputa depois da Superterça. “Sei que Clinton e o establishment consideram que penso grande demais. Mas ter uma cobertura médica universal é nosso direito, e a educação gratuita não deve acabar no ensino básico”, argumentou.

“Isto é uma revolução política”, prosseguiu. "Não podemos deixar que os Donald Trumps do mundo nos dividam", concluiu.