Verne

Meu nome é Hitler (e o do meu irmão é Lenin)

Muita gente me diz que, se estivesse na minha situação, mudaria o nome de imediato

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Fica claro, por conta do nome do meu irmão, que ele não decidiu que meu nome seria Hitler baseado em razões ideológicas. Possivelmente, achava divertido assistir às rixas domésticas entre Hitler e Lenin, como se assim tivesse o dom de reescrever, a cada dia, a história do século XX. Quando eu era criança, não dava muita importância para o meu nome.

Na Espanha, é um nome muito raro. De acordo com o site do Instituto Nacional de Estatística espanhol, que registra os nomes dos cidadãos, 87 pessoas se chamam Lenin e 65 Bolívar. Mas procurando o nome de Hitler na base de dados, o único que se encontra é a seguinte mensagem: "Não existem habitantes com o nome consultado ou sua frequência é inferior a 20 para o total nacional". No entanto, no Equador, é outra história.

Entre os 4.000 habitantes de Huigra, minha pequena cidade, havia outro garoto que também se chamava Hitler. Não sei o que pensariam, na Alemanha, de um município como o meu, mas posso descrever a cara de surpresa dos policiais quando chego a um aeroporto alemão. Estive na Alemanha visitando a minha sogra, que também é equatoriana e vive em Bonn. Na ocasião, a Polícia chamou um tradutor que me fez perguntas sobre o meu nome. Eu respondia que não tinha culpa de me chamar Hitler. Também me perguntaram se eu era consciente de quem tinha sido Hitler.

Como não seria? Sei de tudo desde as aulas de História que tive no meu colégio. Ficou gravado na minha mente o momento em que me falaram sobre as torturas que ele promovia. Mas, de cara, eu diria que o nome de uma pessoa não determina sua personalidade. Eu não penso como Hitler, nem me sinto identificado com sua figura: as pessoas que me conhecem sabem disso.

Apesar de que, logo, penso no meu irmão Lenin, que agora vive em Elche e fez campanha na família para votar no Podemos (partido de esquerda espanhol)...

Mas os que não me conhecem sempre se surpreendem ao ler meu nome. A essas alturas, já acho engraçado ver seus esforços para se conter e aparentar normalidade. No outro dia fui fazer o cartão de transporte, entreguei ao funcionário minha identificação, e, aí estava, outra vez, esse gesto de assombro contido, essa vontade de se levantar correndo e contar meu nome para seus companheiros de trabalho.

Mas, de uma maneira geral, não acho que meu nome tenha tido repercussões práticas na minha vida, seja buscando trabalho ou coisas assim. Agora estou desempregado, mas estive trabalhando durante 14 anos em uma empresa de construção madrilenha. O mundo da construção é muito dado à zombaria, portanto, meus colegas me cumprimentavam sempre com a saudação nazista típica de Hitler com o braço levantado e grito de "Heil!".

Nunca me ofendi porque sabia que faziam isso como diversão. E, além disso, o fato de ter dois filhos permitiu que eu pudesse me vingar. O mais velho se chama Hugo Chávez e o mais novo Kim Jong-um. É brincadeira, obviamente. Meus filhos se chamam Adrián Giovani (de 24 anos) e Bryan Andrés (de 15 anos).

Escolhemos esses nomes porque gostávamos deles, como fazem todos os pais do mundo, exceto os de Huigra. E, agora sim, vou falar sério, porque meus filhos são a coisa mais importante que eu tenho. Estava há pouco tempo em Madri, onde vivo há mais de 20 anos, quando trabalhava em frente a um edifício imponente.

-O que é esse edifício? – perguntei a meu companheiro.

-Um colégio – ele me respondeu.

-Tomara que algum dia meus filhos possam estudar aí – eu disse, com um olhar pedido, mirando o infinito.

- Hahahaha. Você nunca vai conseguir – meu colega caçoou de mim.

Pois é, muitos anos depois, e graças a um convênio, meus filhos se transformaram em alunos daquela escola. Para tornar esse sonho realidade, eu e minha família tivemos que batalhar muito. Quando chegamos à Espanha, não havia tantos equatorianos e as coisas eram muito difíceis.

Eu me lembro daquela véspera de ano novo em que peguei um táxi em Madri. Estava com a minha esposa e com o meu filho mais velho. Assim que entramos no carro, o taxista nos obrigou a descer a gritos de "sudacas de merda” (expressão pejorativa que designa os sul-americanos).

Agora, penso que se esse taxista soubesse meu segundo nome, talvez tivesse, inclusive, saído do veículo para abrir a porta para mim. Relembro esse episódio para ilustrar que minha vida sempre esteve mais marcada pela minha condição de imigrante do que por carregar o nome de um genocida.

É claro que muita gente me diz que, se estivesse na minha situação, mudaria de nome imediatamente. Embora seja trabalhoso, pela quantidade de papéis que tenho no meu nome, seria bastante simples fazer isso: bastaria ir ao Registro Civil ou mandar uma carta certificada. No entanto, eu não tenho problemas com meu nome. Aos 43 anos de idade, as pessoas sabem que minhas inclinações políticas são honestas e que o meu segundo nome não é mais do que uma lembrança. Minha personalidade não está em como me chamo, mas no meu dia a dia.

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