A direita americana agita a bandeira do ‘politicamente incorreto’

Na campanha eleitoral, republicanos e democratas se enfrentam no debate sobre os discursos ofensivos

Um partidário de Trump com um boné com seu lema
Um partidário de Trump com um boné com seu lemaJOSHUA ROBERTS (REUTERS)

Na semana passada o presidente Barack Obama respondeu à retórica republicana sobre o politicamente correto. No discurso sobre o Estado da União, o rito central da política norte-americana, disse: “Temos de rejeitar a política, qualquer política que tenha como alvo as pessoas por sua raça ou religião. Não é um problema de correção política”.

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Quando, dois dias depois, o moderador do debate da rede Fox Business perguntou a Trump se retificaria seus planos de impedir a entrada de muçulmanos nos EUA, o magnata nova-iorquino respondeu: “Temos de acabar com o politicamente correto”.

“A correção política é antiética em relação aos nossos princípios fundadores de liberdade de discurso e liberdade de expressão”, escreveu outro candidato, o neurocirurgião Ben Carson. A batalha contra o politicamente correto é um dos argumentos da campanha para a escolha de um candidato do Partido Republicano às presidenciais. O politicamente correto, segundo essa visão, consiste em chamar os terroristas do Estado Islâmico de radicais islamistas. Ou indignar-se com propostas para limitar a entrada de refugiados muçulmanos. Correção política significa, de acordo com Trump e outros republicanos, não chamar de ilegais os imigrantes sem documentos. Segundo os incorretos, não chamar as coisas por seu nome implica riscos para a segurança nacional.

É uma questão léxica e política: como denominamos o mundo revela como o vemos e como agimos

Entre a boa educação e o eufemismo,

“O politicamente correto tem sua base na boa educação”, diz Arthur Brooks, presidente do American Enterprise Institute, o principal laboratório de ideias do campo conservador nos EUA. “Há assuntos que decidimos não abordar e coisas que decidimos não dizer de modo a nos darmos bem uns com os outros e demonstrar respeito. De fato, a boa educação significa, às vezes, não dizer coisas que são verdadeiras e óbvias, Por exemplo, que alguém é feio.”

“No entanto, a esquerda, informada pelos movimentos pós-modernos e radicais”, continua, “explorou isso em favor do poder. Por exemplo, dizendo quem pode falar de ‘grupos fracos’, como as minorias, e o que se pode dizer, com as sanções consequentes” Brooks sustenta que o abuso do politicamente correto com finalidade política provocou uma reação: dizer coisas ofensivas de propósito. “E demagogos como Trump têm explorado essa reação”, acrescenta.

Politicamente correto, para a direita, é sinônimo de esquerda e de elites políticas e intelectuais. Como ocorreu nos anos noventa quando o debate sobre o politicamente correto chegou às universidades norte-americanas, os campi são cenário de outra batalha intelectual. Discute-se ali sobre os ‘espaços seguros’ – áreas onde os estudantes terão a garantia de não ouvir discursos ofensivos – e em Princeton se estuda uma petição para retirar o nome do presidente democrata Woodrow Wilson do instituto de estudos internacionais. Wilson era segregacionista.

A direita tem um P.C. próprio: uma versão conservadora do politicamente correto, daquelas questões que só podem ser tratadas com cuidado e com eufemismos, sob o risco de ofender uma minoria.

Nos debates para a escolha do candidato do Partido Republicano à Casa Branca, é tabu questionar o direito de portar armas de fogo. E a vitimização, que os politicamente incorretos da direita atribuem à esquerda, se transformou em uma característica de muitos conservadores.

Em um país tão diverso e multicultural como os Estados Unidos, muitos conservadores se veem como minoria perseguida pela maioria progressista, vítimas... da ditadura do politicamente correto.

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