Eleições Estados Unidos

Donald Trump e Cruz trocam ataques pela liderança em debate republicano

Insurgentes e moderados se enfrentam no penúltimo duelo antes do início das primárias

Os sete participantes no debate de North Charleston
Os sete participantes no debate de North CharlestonRANDALL HILL / REUTERS

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Até alguns dias atrás, Trump e Cruz evitavam um choque frontal. Trump via em Cruz um aliado ideológico, e este confiava em herdar o eleitorado de Trump caso ele despencasse nas intenções de voto, após liderar as pesquisas há cerca de seis meses. Essa queda não veio, e o pacto de não agressão foi rompido. O início do ciclo de caucus e primárias se aproxima — Iowa escolherá em 1º. de fevereiro os seus delegados para a convenção republicana, e New Hampshire votará no dia 8.

Neste ano, a disputa interna republicana se transformou em uma corrida de mão dupla. De um lado, os candidatos insurgentes Trump e Cruz. Do outro, os aspirantes mais ou menos identificados com o establishment, que vê no senador Marco Rubio o seu candidato mais viável, num meio termo entre a ala populista e a ala pragmática.

No debate de North Charleston — o sexto entre os pré-candidatos republicanos — alguns aspirantes demonstraram um esforço desesperado para expor seus argumentos antes que o trem das eleições primárias tome velocidade. Nem Iowa nem New Hampshire decidirão o indicado, mas já servirão para descartar alguns derrotados. O inimigo comum nesta campanha é o presidente Barack Obama. Mas na quinta-feira, na Carolina do Sul, a agressividade foi entre os republicanos. Cruz enfrentou Trump. Rubio enfrentou Cruz. Jeb Bush, cuja campanha naufraga apesar de ele ser um dos candidatos mais endinheirados e qualificados, ofereceu o perfil mais pragmático frente ao radicalismo de Trump.

Choque entre Trump e Cruz

Trump e Cruz já se estranharam quando um dos moderadores perguntou a Cruz sobre seu direito de ser presidente. A Constituição diz que só um norte-americano nato pode chegar ao cargo de presidente. A interpretação majoritária é que cidadão nato é aquele que já nasce como cidadão dos EUA. Cruz, por ser filho de uma norte-americana, é cidadão desde que nasceu. George Romney, então governador de Michigan, que foi pré-candidato a presidente em 1968, havia nascido no México e não teve nenhum problema. O senador John McCain, nascido no Panamá e candidato em 2008, tampouco. Mas uma interpretação rigorosa da Constituição, em seu sentido original, poderia permitir questionamentos à candidatura de Cruz.

O pré-candidato disse que, se as teorias conspiratórias fossem levadas ao extremo, apenas um filho de pai e mãe norte-americanos poderia ser considerado cidadão autêntico, e isso também excluiria Trump — que é filho de uma escocesa. Trump argumenta que ele mesmo não acredita nessas teorias, mas que os democratas podem acreditar, e que por isso uma candidatura de Cruz poderia causar problemas na eleição geral de novembro. “Há um grande ponto de interrogação sobre a sua cabeça”, disse Trump. “Você precisa ter certeza”, acrescentou. Cruz, que é um jurista conceituado, respondeu: “Não aceitarei lições de direito constitucional de Donald Trump”.

O segundo choque ocorreu quando uma das moderadoras perguntou a Cruz por que dias atrás ele associou Trump pejorativamente aos “valores de Nova York”. Os valores de Nova York, explicou Cruz, são progressistas, favoráveis ao casamento homossexual e ao aborto… Essa recriminação revela um dos paradoxos desta campanha: que o candidato antielitista seja um membro da elite econômica de uma cidade muito distante da América profunda, como é o caso de Nova York. Trump respondeu recordando a resposta dos nova-iorquinos aos atentados de 11 de setembro de 2001, e concluiu: “O que Ted fez foi uma declaração muito insultante”.

O Partido Republicano chega a Iowa e New Hampshire dividido pelo fenômeno Trump e agitando a mensagem do medo. Se na terça-feira, no discurso sobre o Estado da União, o democrata Obama denunciou o catastrofismo da oposição, no debate os republicanos lhe deram a razão. Os sete aspirantes descreveram os EUA como um país que, na melhor das hipóteses, é motivo de risos para o resto do mundo, e, na pior, enfrenta ameaças à sua própria existência, de terroristas do Estado Islâmico disfarçados de refugiados até países como a China. Na avaliação dos republicanos, os EUA estão à beira do precipício, e nele cairão se a democrata Hillary Clinton for a próxima ocupante da Casa Branca.

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